Guilherme de Almeida

Guilherme de Almeida

1890–1969 · viveu 78 anos BR BR

Guilherme de Almeida foi um poeta, jornalista e advogado brasileiro, uma figura central do parnasianismo e do modernismo no Brasil. Sua obra poética, marcada pela musicalidade, pelo rigor formal e pela temática nacionalista, celebra a paisagem, a história e a cultura brasileira. Almeida também se destacou como um importante tradutor e divulgador da literatura estrangeira no Brasil.

n. 1890-07-24, Campinas · m. 1969-07-11, São Paulo

123 555 Visualizações

Essa que eu Hei de Amar…

Essa que eu hei de amar perdidamente um dia
será tão loura, e clara, e vagarosa, e bela,
que eu pensarei que é o sol que vem, pela janela,
trazer luz e calor a essa alma escura e fria.

E quando ela passar, tudo o que eu não sentia
da vida há de acordar no coração, que vela…
E ela irá como o sol, e eu irei atrás dela
como sombra feliz… — Tudo isso eu me dizia,

quando alguém me chamou. Olhei: um vulto louro,
e claro, e vagaroso, e belo, na luz de ouro
do poente, me dizia adeus, como um sol triste…

E falou-me de longe: "Eu passei a teu lado,
mas ias tão perdido em teu sonho dourado,
meu pobre sonhador, que nem sequer me viste!"

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Guilherme de Almeida, nome completo Guilherme Francisco de Almeida, nasceu em Campinas, São Paulo, e faleceu na cidade de São Paulo. Foi um poeta, jornalista, tradutor e advogado brasileiro, uma das figuras mais importantes do Parnasianismo e do início do Modernismo no Brasil. Sua obra é escrita em língua portuguesa.

Infância e formação

Filho de uma família abastada, Guilherme de Almeida estudou Direito na Faculdade de Direito de São Paulo, onde se formou. Desde cedo, demonstrou grande interesse pela literatura, cultivando amizade com outros jovens intelectuais que viriam a formar a vanguarda literária paulista.

Percurso literário

Sua carreira literária começou com poemas de cunho parnasiano, caracterizados pela perfeição formal e pelo vocabulário erudito. Com o advento do Modernismo, Almeida soube dialogar com as novas propostas estéticas, incorporando elementos da linguagem coloquial e temas brasileiros em sua obra, sem, contudo, abandonar a musicalidade e o rigor formal que o caracterizavam. Foi um ativo participante da vida cultural paulistana, colaborando em jornais e revistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Guilherme de Almeida incluem "Misérere" (1910), "Sua" (1911), "Guirlanda de Versos" (1912), "O Livro das Horas" (1915) e "A Dança das Horas" (1917). Seus poemas exploram temas como o amor, a natureza brasileira, a história e a identidade nacional, com um lirismo contido e uma busca pela beleza formal. A musicalidade, o ritmo e o vocabulário rico são marcas de seu estilo, que transita entre o Parnasianismo e as primeiras experiências modernistas. Embora ligado ao Parnasianismo, sua sensibilidade e seus temas o aproximam também do Simbolismo e das tendências do Pré-Modernismo e do Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Guilherme de Almeida viveu o período de grandes transformações sociais e culturais no Brasil, incluindo a Semana de Arte Moderna de 1922, à qual esteve ligado, embora com ressalvas quanto a alguns de seus excessos. Sua obra reflete o desejo de construir uma identidade literária genuinamente brasileira, dialogando com a tradição europeia, mas adaptando-a à realidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além de poeta, Guilherme de Almeida foi advogado e jornalista. Manteve relações próximas com muitos dos intelectuais de sua geração, como Oswald de Andrade e Mário de Andrade, com quem dialogava sobre os rumos da literatura brasileira. Sua vida foi dedicada à arte e à defesa de um ideal estético.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Guilherme de Almeida foi um poeta reconhecido em seu tempo, com uma obra apreciada pela crítica pela sua qualidade formal e temática. Sua importância reside na sua capacidade de transitar entre diferentes estéticas, contribuindo para a renovação da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas parnasianos e simbolistas franceses, Guilherme de Almeida, por sua vez, deixou um legado de uma poesia que valoriza a forma, a musicalidade e a temática nacional. Sua obra serviu de ponte entre o Parnasianismo e o Modernismo, abrindo caminhos para a poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Almeida é vista como um testemunho da busca por uma expressão poética nacional, que concilia a tradição formal com a exploração de temas brasileiros. Sua poesia é valorizada pela beleza formal e pela profundidade lírica com que aborda a alma brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Guilherme de Almeida também se destacou como um excelente tradutor, trazendo para o português obras de autores como Shakespeare, Goethe e Baudelaire. Sua versatilidade artística é um dos aspetos mais notáveis de sua carreira.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Guilherme de Almeida faleceu em 1969. Sua obra poética continua a ser estudada e admirada como parte fundamental da literatura brasileira, representando um elo importante entre diferentes fases da poesia do país.

Poemas

21

Harmonia Velha

O teu beijo resume
Todas as sensações dos meus sentidos
A cor, o gosto, o tato, a música, o perfume
Dos teus lábios acesos e estendidos
Fazem a escala ardente com que acordas o fauno encantador
Que, na lira sensual de cinco cordas,
Tange a canção do amor!

E o tato mais vibrante,
O sabor mais sutil, a cor mais louca,
O perfume mais doido, o som mais provocante
Moram na flor triunfal da tua boca!
Flor que se olha, e ouve, e toca, e prova, e aspira;
Flor de alma, que é também
Um acorde em minha lira,
Que é meu mal e é meu bem...

Se uma emoção estranha
o gosto de uma fruta, a luz de um poente -
chega a mim, não sei de onde, e bruscamente ganha
qualquer sentido meu, é a ti somente
que ouço, ou aspiro, ou provo, ou toco, ou vejo...
E acabo de pensar
Que qualquer emoção vem de teu beijo
Que anda disperso no ar...

3 529

Velocidade

Não se lembram do Gigante das Botas de Sete Léguas?
Lá vai ele: vai varando, no seu vôo de asas cegas,
as distâncias...
E dispara,
nunca pára,
nem repara
para os lados,
para frente,
para trás...

Vai como um pária...

E vai levando um novelo embaraçado de fitas:
fitas
azuis,
brancas,
verdes,
amarelas...
imprevistas...

Vai varando o vento: — e o vento, ventando cada vez mais,
desembaraça o novelo, penteando com dedos de ar
o feixe fino de riscas,
tiras,
fitas,
faixas,
listas...
E estira-as,
puxa-as,
estica-as,
espicha-as bem para trás:
E as cores retesas dançam, sobem, descem de-va-gar
paralelamente,
paralelamente
horizontais,
sobre a cabeça espantada do Pequeno Polegar...


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série III - Sete Poemas.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
4 371

Cinema

Na grande sala escura,
só teus olhos existem para os meus:
olhos cor de romance e de aventura,
longos como um adeus.

Só teus olhos: nenhuma
atitude, nenhum traço, nenhum
gesto persiste sob o vácuo de uma
grande sombra comum.

E os teus olhos de opala,
exagerados na penumbra, são
para os meus olhos soltos pela sala,
uma dupla obsessão.

Um cordão de silhuetas
escapa desses olhos que, afinal,
são dois carvões pondo figuras pretas
sobre um muro de cal.

E uma gente esquisita,
em torno deles, como de dois sóis,
é um sistema de estrelas que gravita:
— são bandidos e heróis;

são lágrimas e risos;
são mulheres, com lábios de bombons;
bobos gordos, alegres como guizos;
homens maus e homens bons...

É a vida, a grande vida
que um deus artificial gera e conduz
num mundo branco e preto, e que trepida
nos seus dedos de luz...


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série II - Alma.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Martins, 1955. v.5. p. 60-6
4 833

Maxixe

O chocalho dos sapos coaxa
como um caracaxá rachado. Tudo mexe.
Um vento frouxo enlaga uma nuvem baixa
fofa. E desce com ela, desce.
E não a deixa e puxa-a como uma faixa
e espicha-se e enrolam-se. E o feixe rola
e rebola como uma bola
na luz roxa
da tarde oca

boba

chocha.

3 785

Flor do Asfalto

Flor do asfalto, encantada flor de seda,
sugestão de um crepúsculo de outono,
de uma folha que cai, tonta de sono,
riscando a solidão de uma alameda...

Trazes nos olhos a melancolia
das longas perspectivas paralelas,
das avenidas outonais, daquelas
ruas cheias de folhas amarelas
sob um silêncio de tapeçaria...

Em tua voz nervosa tumultua
essa voz de folhagens desbotadas,
quando choram ao longo das calçadas,
simétricas, iguais e abandonadas,
as árvores tristíssimas da rua!

Flor da cidade, em teu perfume existe
Qualquer coisa que lembra folhas mortas,
sombras de pôr de sol, árvores tortas,
pela rua calada em que recortas
tua silhueta extravagante e triste...

Flor de volúpia, flor de mocidade,
teu vulto, penetrante como um gume,
passa e, passando, como que resume
no olhar, na voz, no gesto e no perfume,
a vida singular desta cidade!

4 058

Prece a Anchieta

Santo: erguestes a cruz na selva escura;
Herói: plantastes nossa velha aldeia;
Mestre: ensinastes a doutrina pura;
Poeta: escrevestes versos sobre a areia!

Golpeia a cruz a foice inculta e dura;
Invade a vila multidão alheia;
Morre a voz santa entre a distância e a altura;
Apaga o poema a onda espumejante e cheia...

Santo, herói, mestre e poeta: - Pela glória
que destes a esta Terra e a sua História,
Pela dor que sofremos sempre nós.

Pelo bem que quisestes a este povo,
O novo Cristo deste Mundo Novo,
Padre José de Anchieta, orai por nós!
3 510

O Haikai

Lava, escorre, agita
a areia. E enfim, na bateia,
fica uma pepita.


Publicado no livro Poesia Vária (1925). Poema integrante da série II. Parte: Os Meus Haikais.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
3 227

Arco-Íris: 2- Azul

Primavera.
Um pedaço de céu caiu na terra:
em tufos fofos de flocos frouxos frívolas hortênsias
volantes como crinolinas fúteis
desmancham-se em reverências
ou passeiam como sombrinhas lindamente inúteis
ou pousam empoadas de ar como pompons. O céu
é um grande linho muito passado no anil
que o vento enfuna num varal de vidro. Ele é o
toldo azul de um bazar
onde brinca vestido de ar
um clown elástico, ágil e sutil.


Publicado no livro Meu: livro de estampas (1925).

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
2 123

Natureza-Morta

Na sala fechada ao sol seco do meio-dia
sobre a ingenuidade da faiança portuguesa
os frutos cheiram violentamente e a toalha é fria
e alva na mesa.

Há um gosto áspero de ananases e um brilho fosco
de uvaias flácidas
e um aroma adstringente de cajus, de pálidas
carambolas de âmbar desbotado e um estalo oco
de jaboticabas de polpa esticada e um fogo
bravo de tangerinas.

E sobre esse jogo
de cores, gostos e perfumes a sala toma
a transparência abafada de uma redoma.


Publicado no livro Meu (1925).

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.4. p. 137-138
3 564

Cubismo

Um Arlequim feito de cubos
equilibrados:
trinta losangos arranjados
sobre dois tubos.
— Ele talvez
jogue xadrez...

No halo, que a lâmpada tranquila
rasga, de cima,
esse Arlequim de pantomima
oscila, oscila,
e vem... e vai...
e quase cai...

Mas entra alguém: é uma silhueta
que espia e passa.
Seu riso é um fruto sob a graça
da mosca preta
— É uma mulher
como qualquer...

Um gesto só lânguido e doce:
e, num instante,
Dom Arlequim, o petulante,
esfarelou-se...
— Todo Arlequim
é mesmo assim...


Publicado no livro Encantamento (1925). Poema integrante da série I - O Reino Encantado: Sugerir.

In: ALMEIDA, Guilherme de. Toda a poesia. 2.ed. São Paulo: Livr. Martins, 1955. v.
10 361

Videos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Raça
Raça

Guilherme de Almeida