Henriqueta Lisboa

Henriqueta Lisboa

1901–1985 · viveu 84 anos BR BR

Henrieta Lisboa foi uma notável poeta, tradutora e ensaísta portuguesa, radicada no Brasil. Sua obra poética, profundamente lírica e reflexiva, explora temas universais como a natureza, o tempo, a memória e a espiritualidade com uma linguagem depurada e uma sensibilidade ímpar. É considerada uma das vozes mais importantes da poesia moderna em língua portuguesa.

n. 1901-01-01, Lambari · m. 1985-10-09, Belo Horizonte

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Vem, Doce Morte

Vem, doce morte. Quando queiras.
Ao crepúsculo, no instante em que as nuvens
desfilam pálidos casulos
e o suspiro das árvores - secreto -
não é senão prenúncio
de um delicado acontecimento.

Quanto queiras. Ao meio-dia, súbito
espetáculo deslumbrante e inédito
de rubros panoramas abertos
ao sol, ao mar, aos montes, às planícies
com celeiros refertos e intocados.

Quando queiras. Presentes as estrelas
ou já esquivas, na madrugada
com pássaros despertos, à hora
em que os campos recolhem as sementes
e os cristais endurecem de frio.

Tenho o corpo tão leve (quando queiras)
que a teu primeiro sopro cederei distraída
como um pensamento cortado
pela visão da lua
em que acaso - mais alto - refloresça.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Henrieta de Almeida Santos Lisboa, conhecida como Henrieta Lisboa, foi uma poeta, tradutora e ensaísta portuguesa. Nasceu em Coimbra, Portugal, e viveu a maior parte de sua vida adulta no Brasil, para onde se mudou em 1923. Sua obra é escrita em português.

Infância e formação

Henrieta Lisboa nasceu em uma família abastada e culta. Estudou em colégios internos em Portugal, onde desenvolveu um gosto precoce pela leitura e pela escrita. Sua formação intelectual foi marcada por uma profunda erudição e pelo contato com a literatura clássica e contemporânea. A mudança para o Brasil, acompanhando o marido, o engenheiro e professor Fernando de Castro Lisboa, representou uma nova fase em sua vida e em sua produção literária.

Percurso literário

O início de sua trajetória literária no Brasil foi discreto, com participações em jornais e revistas culturais. Sua obra poética começou a ganhar notoriedade a partir da década de 1930. Publicou seus primeiros livros de poesia na década de 1940, como "Poemas" (1940) e "Vou-me Embora, Vou" (1942). Dedicou-se também à tradução de obras importantes da literatura inglesa e francesa, demonstrando sua versatilidade e seu profundo conhecimento literário. Sua atividade como crítica literária e ensaísta contribuiu para o debate cultural do período.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Henrieta Lisboa é reconhecida por sua delicadeza, introspecção e profundidade filosófica. Seus temas recorrentes incluem a natureza, o tempo, a fugacidade da vida, a saudade, a memória e a busca pelo transcendente. Utiliza uma linguagem precisa, musical e imagética, com um tom confessional e lírico. A forma poética em sua obra varia, mas há uma predileção por versos que evocam uma musicalidade suave e um ritmo introspectivo. "O Segundo Nome" (1945), "Maré Alta" (1950) e "A Sombra" (1959) são exemplos de sua produção, onde se observa uma evolução na maturidade temática e estilística, mas sempre mantendo a coerência de sua voz poética. Sua poesia dialoga com o simbolismo e o modernismo, mas possui uma originalidade ímpar.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Henrieta Lisboa viveu em um período de grandes transformações sociais e culturais no Brasil e no mundo. Sua obra, embora muitas vezes focada em temas universais e interiores, reflete, de forma sutil, o ambiente intelectual brasileiro das décadas de 1940 a 1960. Ela manteve contato com importantes escritores e artistas de sua época, participando do circuito literário e cultural, especialmente no Rio de Janeiro. Sua condição de imigrante portuguesa no Brasil também pode ter influenciado sua perspectiva sobre identidade e pertencimento.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua vida pessoal esteve ligada à sua família e aos seus círculos intelectuais. Casada com Fernando de Castro Lisboa, teve uma vida marcada pela discrição e pela dedicação à literatura. A saudade da terra natal, Portugal, é um sentimento que permeia parte de sua obra, mas sua adaptação e contribuição para a cultura brasileira foram significativas. Sua produção literária é, em grande parte, um reflexo de sua interioridade e de sua profunda sensibilidade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora sua obra tenha sido publicada e admirada por um círculo seleto de críticos e leitores em sua época, o reconhecimento mais amplo da importância de Henrieta Lisboa como poeta veio principalmente após sua morte. Hoje, é considerada uma das vozes femininas mais relevantes da poesia brasileira do século XX, com estudos acadêmicos dedicados a analisar sua obra e seu lugar na literatura.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências em Henrieta Lisboa incluem poetas como Fernando Pessoa, Cecília Meireles, e autores da tradição lírica portuguesa e inglesa. Seu legado reside na pureza de sua linguagem, na profundidade de seus temas e na capacidade de evocar emoções universais com uma voz singular. Ela abriu caminhos para a poesia feminina no Brasil, influenciando gerações posteriores de escritoras.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A crítica literária tem explorado a dimensão filosófica e existencial da poesia de Henrieta Lisboa, destacando sua capacidade de tratar de temas profundos com leveza e sutileza. Suas reflexões sobre o tempo e a memória são frequentemente analisadas em sua relação com a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Henrieta Lisboa era conhecida por sua timidez e reclusão, dedicando-se intensamente aos seus estudos e à escrita. Sua casa em Petrópolis era um refúgio onde recebia amigos e discutia arte e literatura. Sua habilidade com diversas línguas permitiu-lhe um acesso privilegiado a obras de diferentes culturas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Henrieta Lisboa faleceu no Rio de Janeiro. Sua obra, no entanto, continuou a ser reeditada e estudada, garantindo sua permanência no cânone da literatura em língua portuguesa. Publicações póstumas de seus escritos e correspondências ajudaram a aprofundar o conhecimento sobre sua vida e obra.

Poemas

39

Séquito

Seguir o rei
por toda parte
antes que a coroa
lhe caia


Publicado no livro Reverberações (1976).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 590

Do Supérfluo

Também as cousas participam
de nossa vida. Um livro. Uma rosa.
Um trecho musical que nos devolve
a horas inaugurais. O crepúsculo
acaso visto num país
que não sendo da terra
evoca apenas a lembrança
de outra lembrança mais longínqua.
O esboço tão-somente de um gesto
de ferina intenção. A graça
de um retalho de lua
a pervagar num reposteiro
A mesa sobre a qual me debruço
cada dia mais temerosa
de meus próprios dizeres.
Tais cousas de íntimo domínio
talvez sejam supérfluas.
No entanto
que tenho a ver contigo
se não leste o livro que li
não viste a rosa que plantei
nem contemplaste o pôr-do-sol
à hora em que o amor se foi?
Que tens a ver comigo
se dentro em ti não prevalecem
as cousas — todavia supérfluas —
do meu intransferível patrimônio?


Publicado no livro Pousada do Ser (1982).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
2 488

Depois da Opção

Um reposteiro o mais espesso
caia sobre a tragédia dos Andes.
Os que a viveram não falem.
A língua que provou a carne
de seus irmãos emudeça
da mais humana miséria
para não se desnaturar
em sem remédio
depois da opção

Em estátuas de pedra
se transformem os seres
que amargaram a ponto
de negação a si mesmo
imprensados
entre o vulcão de sangue
e a geleira: fantasmas
caminhando brancas nódoas
negras hóstias em travo
depois da opção.

A dor de quem viu palpou
compreendeu e perdoou
o que a si próprio não
se perdoaria é covardia.
Heróica é a dor dos que sofrem
não pela fome ou sede ou frio
ou cegueira que sofreram

mas pela crua memória
do jamais deglutido
nos desvãos ruminando
entre a alma e os ossos
depois da opção.


Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 579

A Face Lívida [Não a face dos mortos

Não a face dos mortos.
Nem a face
dos que não coram
aos açoites
da vida.
Porém a face
lívida
dos que resistem
pelo espanto.

Não a face da madrugada
na exaustão
dos soluços.
Mas a face do lago
sem reflexos
quando as águas
entranha.

Não a face da estátua
fria de lua e zéfiro.
Mas a face do círio
que se consome
lívida
no ardor.


Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
2 506

Horizonte

Alma em suspiro
pelo encontro
do que fica
sempre mais longe


Publicado no livro Reverberações (1976).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 733

Caboclo-d'Água

Caboclo-d'água Ô
caboclo-d'água.

Caboclo-d'água
vem de noite
— assombração.

Caboclo-d'água
molengão
tocando viola.

Caboclo-d'água
vá-se embora
vá-se embora
caboclo-d'àgua
não me chame
não!

A chuva é muita
sobe o rio
no barranco.

O vento chora
mais que reza
uma oração.

Acende a vela
minha gente,
eu tenho medo.

Eu tenho medo
de afogar
na escuridão.


Publicado no livro O Menino Poeta (1943).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 1985. p.87-8
2 407

Saudação a Drummond

Eu te saúdo Irmão Maior
pelo que tens sido e serás
dentro do tempo espaço afora
e além da vida: luminar
homem simples da terra
aprisionado no íntimo
para libertador de pássaros
e agenciador de símbolos.
Pela pedra no caminho
que foi ato de bravura
e foi cabo de tormentas.
Pelo brejo das almas
em verde com margaridas.
Pelo sentimento do mundo
com que orvalhas o linho
da comunhão geral.
Pelas fazendas do ar
em que brindas cultivos
de transcedentes dimensões.
Pelos claros enigmas
que decifras e que armas
em desdobrados ciclos.
Pela vida passada a limpo
em lâminas de cristal.
Pela rosa do povo
com que humanizas o asfalto.
Pela lição de coisas
que nos ensinas a aprender.
Pelo boitempo este sabor
de renascimento da infância.
Em nome de Mário de Andrade
— até as amendoeiras falam —
em nome de Manuel Bandeira
em nome de Emílio Moura
presentes embora silentes
no alto da Casa em outros
mais cômodos aposentos
de onde nos contemplam líricos
a nós abaixo no vestíbulo.
Saúdo-te mineiro Carlos
de olhos azuis como os da criança
guardada sempre mais a fundo
em candidez e malícia
ao largo de lavouras híspidas
ao longo de setenta outubros
vincados de diamante e ferro
sem nostalgia de crepúsculo.
Saúdo-te com sete rosas
em botão as mais puras
colhidas de madrugada
antes do sol em suas pétalas
por teu sétimo aniversário
outrora
de menino poeta.


Publicado no livro Miradouro e Outros Poemas (1976). Poema integrante da série Miradouro, 1968/1974.

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 950

A Face Lívida [Esse despojamento

Esse despojamento
esse amargo esplendor.
Beleza em sombra
sacrifício incruento.

A mão sem jóias
descarnada
na pureza das veias.
A voz por um fio
desnuda
na palavra sem gesto.

O escuro em torno
e a lucidez
violenta lucidez terrível
batida de encontro ao rosto
como uma ofensa física.

Na imensidade sem pouso,
olhos duros
de pássaro.


Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 925

Melancolia

Água negra
negros bordes
poço negro
com flor.

Água turva
densa escuma
turvo limo
com flor.

Noite espessa
sem lanterna
espesso poço
com flor.

sobra, corpo
de serpente
na oferenda
da flor

Risco de morte
violenta,
árdua morte
de asfixia
veneno letal
fatal
quase que puro
suicídio
com uma
lenta
lenta
flor.


Publicado no livro A Face Lívida: poesia, 1941/1945 (1945).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 870

Calendário

Calada floração
fictícia
caindo da árvore
dos dias


Publicado no livro Reverberações (1976).

In: LISBOA, Henriqueta. Obras completas I: poesia geral, 1929/1983. Pref. Fábio Lucas. São Paulo: Duas Cidades, 198
1 998

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Comentários (1)

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giulliana pivato campos
giulliana pivato campos

ola!eu sou apaixonada pela Henriqueta Lisboa e vou recontar uma poesia dela se chama:Pirilampos.devem conheser e adorei mais foi o final.tenho que fazer a biografia dela e a poesia que amo! bjoos giulliana