Herberto Helder foi um poeta português singular e enigmático, conhecido pela sua obra avassaladora e experimental que desafia classificações fáceis. A sua poesia é um universo denso e labiríntico, marcado por uma linguagem transgressora, pela exploração visceral do corpo, da sexualidade, da morte e da transcendência. Helder é considerado um dos poetas mais originais e influentes da literatura portuguesa contemporânea, com uma obra que continua a intrigar e a fascinar leitores e críticos pela sua radicalidade e pela sua profunda reflexão sobre a condição humana e a própria natureza da linguagem e da poesia.
n. 1930-11-23, Funchal·m. 2015-03-23, Cascais
780 630Visualizações
Tríptico
Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima — eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. — E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo — não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço — e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer coisa extraordinária. Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
Herberto Helder, cujo nome de nascimento era Herberto Helder da Silva, foi um poeta, tradutor e editor português, amplamente considerado uma das figuras mais originais e enigmáticas da literatura portuguesa do século XX e XXI. Nasceu em Funchal, Madeira, e viveu grande parte da sua vida em Portugal continental, em Lisboa e no Porto. Escreveu em português e a sua obra é marcada por uma constante experimentação linguística e temática, explorando os limites da linguagem e da representação.
Infância e formação
Pouco se sabe sobre a sua infância e formação, uma vez que Helder cultivou um profundo secretismo em torno da sua vida pessoal. Sabe-se que teve uma educação formal, mas a sua verdadeira formação parece ter sido autodidata e moldada por um contacto intenso com a literatura, a filosofia e as artes. A sua obra revela uma vasta cultura e uma capacidade única de absorver e reconfigurar diversas influências.
Percurso literário
O percurso literário de Herberto Helder é marcado por uma produção intensa, embora por vezes esporádica e avessa às convenções editoriais. Iniciou a sua atividade literária nas décadas de 1950 e 1960, publicando poemas em revistas e antologias. A sua obra evoluiu num sentido de radicalização e aprofundamento, explorando temas cada vez mais complexos e utilizando uma linguagem cada vez mais ousada e transgressora. Foi também tradutor e editor, tendo tido um papel relevante na divulgação de obras estrangeiras em Portugal.
Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias
As suas obras principais incluem "A Colher na Boca" (1961), "O Ofício de Ser Saudade" (1975), "Poesia" (1974) e "Payback" (1977). Os temas centrais da sua poesia são o corpo, a sexualidade, a morte, o sagrado, a matéria, a memória e a própria linguagem. O seu estilo é inconfundível, caracterizado por uma densidade imagética extraordinária, por um vocabulário rico e por vezes obscuro, e por uma sintaxe fragmentada e elíptica. Helder utiliza recursos como a metáfora ousada, a acumulação e a repetição para criar um efeito de vertigem e de intensidade. A sua voz poética é visceral, confessional e ao mesmo tempo universal, explorando a fragilidade e a força do ser humano. Introduziu inovações radicais na forma e no conteúdo da poesia portuguesa, dialogando com a tradição, mas projetando-a para um futuro incerto e experimental. É frequentemente associado a uma poética existencialista e a uma vanguarda literária sem paralelos.
Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico
Herberto Helder atravessou um período histórico de grandes transformações em Portugal, incluindo o fim da ditadura e a transição para a democracia. No entanto, manteve-se, em grande medida, à margem dos círculos literários e dos movimentos artísticos mais estabelecidos, cultivando uma postura de independência e de distanciamento. A sua obra dialoga com a tradição modernista, mas projeta-se para além dela, antecipando muitas das preocupações da poesia contemporânea.
Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal
Helder foi uma figura notoriamente reclusa e avessa a exposições públicas. Pouco se sabe sobre a sua vida pessoal, relações afetivas ou convicções políticas e religiosas. A sua obra é, em si mesma, a principal porta de entrada para o seu universo interior, onde a experiência humana é explorada nas suas vertentes mais cruas e transcendentes.
Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção
Embora tenha mantido uma postura discreta, Herberto Helder conquistou um lugar de profundo respeito e admiração na literatura portuguesa. A sua obra é considerada de vanguarda e a sua influência tem vindo a crescer ao longo do tempo, sendo reconhecida por críticos, académicos e por um público cada vez mais alargado que se sente atraído pela sua radicalidade e originalidade.
Obra, estilo e características literárias
Influências e legado
As influências em Herberto Helder são vastas e diversificadas, abrangendo a literatura universal, a filosofia, a religião e as artes. O seu legado é o de um poeta que levou a linguagem poética a novos limites, que explorou a complexidade do ser e que ofereceu uma visão intransigente e visceral da existência. Influenciou uma nova geração de poetas com a sua audácia e a sua liberdade criativa.
Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica
A obra de Helder é um desafio constante para a crítica, dada a sua complexidade, a sua densidade e a sua natureza polissémica. As interpretações focam-se na sua exploração da alteridade, da transgressão, do corpo como lugar de revelação e da linguagem como matéria primordial. Debates sobre a sua posição na poesia portuguesa e o seu impacto na literatura contemporânea são recorrentes.
Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos
Um dos aspetos mais curiosos de Herberto Helder é o seu mistério. Viveu uma vida praticamente anónima, protegendo a sua privacidade com um rigor quase absoluto. A sua obra, no entanto, é de uma transparência e de uma visceralidade arrebatadoras, contrastando com o seu silêncio exterior.
Obra, estilo e características literárias
Morte e memória
Herberto Helder faleceu em Lisboa, deixando uma obra que continua a ser descoberta e a ser objeto de estudo. A sua memória é a de um poeta intransigente, um criador de mundos e um mestre da palavra que marcou indelevelmente a paisagem literária portuguesa.
Poemas
544
4A
Mulheres geniais pelo excesso da seda, mães do ouro vagaroso. Sopram a lua pela boca dos púcaros. A força de labareda, as porcelanas apuram-se, altas, nos dedos. E elas medem girassóis pupila a pupila, paisagens, rasgões da água. Entre os braços arrebatam-se cereais, fogo. A escrita suprema de imaginar por música as coisas: louças, comidas, roupas. Num inebriamento de beleza composta em número. Deitam leite nos cântaros. E inclinam a cara, vêem no precipício a altura voltada daquela arte da vertigem de que são o centro. Se mungem o gado, esplendem de pêlo e segredo, abaladas pelo bafo do fundo: uma vaca é um jarro sumptuoso com o rosto delas, oculto e húmido, o rosto movido a luz. Uma camélia soprada. E as mãos pensando sempre. Quem se banha nessas ribeiras fêmeas escoando-se nas imagens fica infuso, os membros em raio de estrela. Está molhado pelo coração dentro. Quando pelas suas ciências elas param na memória. Quando se abre uma ferida. Quando a ferida sangra. Não toques nos objectos imediatos. A harmonia queima. Por mais leve que seja um bule ou uma chávena, são loucos todos os objectos. Uma jarra com um crisântemo transparente tem um tremor oculto. É terrível no escuro. Mesmo o seu nome, só a medo o podes dizer. A boca fica em chaga.
14 801
Tríptico
Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima — eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. — E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo — não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço — e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer coisa extraordinária. Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961)
8 001
Tríptico - Ii
Não sei como dizer-te que minha voz te procura e a atenção começa a florir, quando sucede a noite esplêndida e vasta. Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos se enchem de um brilho precioso e estremeces como um pensamento chegado. Quando, iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado pelo pressentir de um tempo distante, e na terra crescida os homens entoam a vindima — eu não sei como dizer-te que cem ideias, dentro de mim, te procuram.
Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros ao lado do espaço e o coração é uma semente inventada em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia, tu arrebatas os caminhos da minha solidão como se toda a casa ardesse pousada na noite. — E então não sei o que dizer junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio. Quando as crianças acordam nas luas espantadas que às vezes se despenham no meio do tempo — não sei como dizer-te que a pureza, dentro de mim, te procura.
Durante a primavera inteira aprendo os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto correr do espaço— e penso que vou dizer algo cheio de razão, mas quando a sombra cai da curva sôfrega dos meus lábios, sinto que me faltam um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer coisa extraordinária. Porque não sei como dizer-te sem milagres que dentro de mim é o sol, o fruto, a criança, a água, o deus, o leite, a mãe, o amor,
que te procuram.
27 150
As Palavras 6
Ficarão para sempre abertas as minhas salas negras. Amarrado à noite, eu canto com um lírio negro sobre a boca. Com a lepra na boca, com a lepra nas mãos. Este mamífero tem sal à volta, este mineral transpira, a primavera precipita-se. Com a lepra no coração. Mais de repente, só chegar à janela e ver uma paisagem tremendo de medo. E uma vida mais lenta só com uma estrela às costas, uma tonelada de luz inquieta, uma estrela respirando como um carneiro vivo. Igual a esta espécie de festa dolorosa, apenas um ramo de cabelos violentos e o seu odor a pimenta, no lado escuro como se canta que as salas vão levantar o seu voo. Ficarão para sempre abertas estas mãos exageradas em dez dedos com sono, como uma rosa acima do pénis. Ao cimo do caule de sangue, essa flor confusa. Um equilíbrio igual, só a estrela ao cimo do êxtase. Só alguma coisa parada no cimo de uma visão tremente. A primavera, que eu saiba, tem o sal como cor imóvel. Por um lado entra a noite, assim de súbito negra. De uma ponta à outra enche-se o espaço aplainando tábuas. Rasga-se seda para aprender o ritmo. Abraço um corpo com as camélias a arder. Abertas para sempre as negras partes de mais uma estação. Semelhante a isto as mulheres andam pelas galerias transparentes, e o palácio queima a noite onde estou cantando. É possível ainda cortar ao meio o ofício de ver — e num lado há espelhos bêbedos, no outro um cardume ilegível de sons obscuros. Sabe-se então pelo silêncio em volta, sabe-se em volta que são lírios sonoros. Passando as mulheres colhem estes sons irrompentes, e as mãos ficam negras junto à beleza insensata. Elas sorriem depois com um talento terrível. Levamos às costas um carneiro palpitante. Pesa tanto uma estrela quando se acorda nas salas negras abertas de par em par, e as mãos agarram um ramo de cabelos dolorosos, e sobre a boca um lírio em brasa, branco, branco, que não nos deixa respirar. A lepra na boca, que não nos deixa respirar. Um ramo de lepra contra o corpo, como isto então só o movimento de águas obscuras pelos canais de um canto, como um palácio de salas negras abertas para sempre. Este animal respira como um espelho de pé, no ar, no ar.
15 515
Aos Amigos
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado. Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos, com os livros atrás a arder para toda a eternidade. Não os chamo, e eles voltam-se profundamente dentro do fogo. — Temos um talento doloroso e obscuro. Construímos um lugar de silêncio. De paixão.
20 315
1A
Com uma rosa no fundo da cabeça, que maneira obscura de morte. O perfume a sangue à volta da camisa fria, a boca cheia de ar, a memória ecoando com as vozes de agora. Onde está sentada brilha de tantas moléculas vivas, tanto hidrogénio, tanta seda escorregadia dos ombros para baixo. Toca em de onde rompe a rosa. Uma criança luciferina. A mãe fechava, abria em torno a torrente dos átomos sobre a cara. Aquilo que a estrangula dos pulmões à garganta é a rosa infundida. Leva um braço às costas, suando, raiando pelo sono fora. Está queimada onde lhe toca. Falaria alto se o peso a enterrasse à altura das vozes. Via a matéria radiosa de que é feito o mundo. A língua doce de leite, a mão direita na massa agre, o sexo banhado no manancial secreto. O dom que transtorna a criança ardente é leve como a respiração, leve como a agonia. Uma rosa no fundo da cabeça.
8 871
90
Li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua pa:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecei
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a
paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega
14 581
Poemacto - Ii
Minha cabeça estremece com todo o esquecimento. Eu procuro dizer como tudo é outra coisa. Falo, penso. Sonho sobre os tremendos ossos dos pés. E sempre outra coisa, uma só coisa coberta de nomes. E a morte passa de boca em boca com a leve saliva, com o terror que há sempre no fundo informulado de uma vida.
Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas. As pessoas imaginam seus próprios campos de rosas. E às vezes estou na frente dos campos como se morresse; outras, como se agora somente eu pudesse acordar.
Por vezes tudo se ilumina. Por vezes sangra e canta. Eu digo que ninguém se perdoa no tempo. Que a loucura tem espinhos como uma garganta. Eu digo: roda ao longe o outono, e o que é o outono? As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento. Deito coisas vivas e mortas no espirito da obra. Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.
— Era uma casa — como direi? — absoluta.
Eu jogo, eu juro. Era uma casinfância. Sei como era uma casa louca. Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava. Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.
Apalpo agora o girar das brutais, líricas rodas da vida. Há no meu esquecimento, ou na lembrança total das coisas, uma rosa como uma alta cabeça, um peixe como um movimento rápido e severo. Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada. Há copos, garfos inebriados dentro de mim. — Porque o amor das coisas no seu tempo futuro é terrivelmente profundo, é suave, devastador.
As cadeiras ardiam nos lugares. Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento como seres pasmados. Às vezes riam alto. Teciam-se em seu escuro terrífico. A menstruação sonhava podre dentro delas, à boca da noite. Cantava muito baixo. Parecia fluir. Rodear as mesas, as penumbras fulminadas. Chovia nas noites terrestres. Eu quero gritar paralém da loucura terrestre. — Era húmido, destilado, inspirado.
Havia rigor. Oh, exemplo extremo. Havia uma essência de oficina. Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras, com suas maçãs centrípetas e as uvas pendidas sobre a maturidade. Havia a magnólia quente de um gato. Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura. Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa. As mãos tocavam por cima do ardor a carne como um pedaço extasiado.
Era uma casabsoluta — como direi? — um sentimento onde algumas pessoas morreriam. Demência para sorrir elevadamente. Ter amoras, folhas verdes, espinhos com pequena treva por todos os cantos. Nome no espírito como uma rosapeixe. — Prefiro enlouquecemos corredores arqueados agora nas palavras. Prefiro cantar nas varandas interiores. Porque havia escadas e mulheres que paravam minadas de inteligência. O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar. O leite cantante.
Eu agora mergulho e ascendo como um copo. Trago para cima essa imagem de água interna. — Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema. Ou o poema subindo pela caneta, atravessando seu próprio impulso, poema regressando. Tudo se levanta como um cravo, uma faca levantada. Tudo morre o seu nome noutro nome.
Poema não saindo do poder da loucura. Poema como base inconcreta de criação. Ah, pensar com delicadeza, imaginar com ferocidade. Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia, com furibunda concepção. Com alguma ironia furibunda.
Sou uma devastação inteligente. Com malmequeres fabulosos. Ouro por cima. A madrugada ou a noite triste tocadas num trompete. Sou alguma coisa audível, sensível. Um movimento. Cadeira congeminando-se na bacia, feita o sentar-se. Ou flores bebendo a jarra. O silêncio estrutural das flores. E a mesa por baixo. A sonhar.
12 951
O Poema - I
Um poema cresce inseguramente na confusão da carne. Sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto, talvez como sangue ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência ou os bagos de uva de onde nascem as raízes minúsculas do sol. Fora, os corpos genuínos e inalteráveis do nosso amor, rios, a grande paz exterior das coisas, folhas dormindo o silêncio — a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema. Insustentável, único, invade as casas deitadas nas noites e as luzes e as trevas em volta da mesa e a força sustida das coisas e a redonda e livre harmonia do mundo. — Em baixo o instrumento perplexo ignora a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra a carne e o tempo.
14 584
Lugar - Ii
Há sempre uma noite terrível para quem se despede do esquecimento. Para quem sai, ainda louco de sono, do meio de silêncio. Uma noite ingénua para quem canta. Deslocada e abandonada noite onde o fogo se instalou que varre as pedras da cabeça. Que mexe na língua a cinza desprendida.
E alguém me pede: canta. Alguém diz, tocando-me com seu livre delírio: canta até te mudares em azul, ou estrela electrocutada, ou em homem nocturno. Eu penso também que cantaria para além das portas até raízes de chuva onde peixes cor de vinho se alimentam de raios, raios límpidos. Até à manhã orçando pedúnculos e gotas ou teias que balançam contra o hálito. Até à noite que retumba sobre as pedreiras. Canta — dizem em mim — até ficares como um dia órfão contornado por todos os estremecimentos. E eu cantarei transformando-me em campo de cinza transtornada. Em dedicatória sangrenta.
Há em cada instante uma noite sacrificada ao pavor e à alegria. Embatente com suas morosas trevas. Desde o princípio, uma onda que se abre no corpo, degraus e degraus de uma onda. E alaga as mãos que brilham e brilham. Digo que amaria o interior da minha canção, seus tubos de som quente e soturno. Há uma roda de dedos no ar. A língua flamejante. Noite, uma inextinguível inexprimível noite. Uma noite máxima pelo pensamento. Pela voz entre as águas tão verdes no sono. Antiguidade que se transfigura, ladeada por gestos ocupados no lume.
Pedem tanto a quem ama: pedem o amor. Ainda pedem a solidão e a loucura. Dizem: dá-nos a tua canção que sai da sombra fria. E eles querem dizer: tu darás a tua existência ardida, a pura mortalidade. Às mulheres amadas darei as pedras voantes, uma a uma, os pára- -raios altíssimos da voz. As raízes afogadas no nascimento. Darei o sono onde um copo fala fusiforme batido pelos dedos. Pedem tudo aquilo em que respiro. Dá-nos tua ardente e sombria transformação. E eu darei cada uma das minhas semanas transparentes, lentamente uma sobre a outra. Quando se esclarecem as portas que rodam para o lugar da noite. Noite de uma voz humana. De uma acumulação atrasada e sufocante. Há sempre sempre uma ilusão abismada numa noite, numa vida. Uma ilusão sobre o sono debaixo do cruzamento do fogo. Prodígio para as vozes de uma vida repentina.
E se aquele que ama dorme, as mulheres que ele ama sentam-se e dizem: ama-nos. E ele ama-as. Desaperta uma veia, começa a delirar, vê dentro de água os grandes pássaros e o céu habitado pela vida quimérica das pedras. Vê que os jasmins gritam nos galhos das chamas. Ele arranca os dedos armados pelo fogo e oferece-os à noite fabulosa. Ilumina de tantos dedos a cândida variedade das mulheres amadas. E se ele acorda, então dizem-lhe que durma e sonhe. E ele morre e passa de um dia para outro. Inspira os dias, leva os dias para o meio da eternidade, e Deus ajuda a amarga beleza desses dias. Até que Deus é destruído pelo extremo exercício da beleza.
Porque não haverá paz para aquele que ama. Seu ofício é incendiar povoações, roubar e matar, e alegrar o mundo, e aterrorizar, e queimar os lugares reticentes deste mundo. Deve apagar todas as luzes da terra e, no meio da noite aparecente, votar a vida à interna fonte dos povos. Deve instaurar o corpo e subi-lo, lanço a lanço, cantando leve e profundo. Com as feridas. Com todas as flores hipnotizadas. Deve ser aéreo e implacável.
Sobre o sono envolvida pelas gotas abaladas, no meio de espinhos, arrastando as primitivas pedras. Sobre o interior da respiração com sua massa de apagadas estrelas. Noite alargada e terrível terrível noite para uma voz se libertar. Para uma voz dura, uma voz somente. Uma vida expansiva e refluída.
Se pedem: canta, ele deve transformar-se no som. E se as mulheres colocam os dedos sobre a sua boca e dizem que seja como um violino penetrante, ele não deve ser como o maior violino. Ele será o único único violino. Porque nele começará a música dos violinos gerais e acabará a inovação cantada. Porque aquele que ama nasce e morre. Vive nele o fim espalhado da terra.