Horácio Costa

Horácio Costa

n. 1954 BR BR

Horácio Costa é um poeta e ensaísta português, conhecido pela sua poesia que mescla erudição e sensibilidade, explorando temas como a memória, o tempo, a linguagem e a própria condição humana. A sua obra, marcada por uma rigorosa construção formal e um vocabulário rico, dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que se insere nas inquietações da contemporaneidade. Costa é também reconhecido pela sua atividade ensaística, onde aprofunda reflexões sobre literatura, arte e cultura.

n. 1954, São Paulo · m. , São Paulo

11 054 Visualizações

A rã

Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.

Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.

A Rã não me quer
E nem a ti
                   Nem a si
Nem ninguém.
                   Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
                   E desisto
Da água.
                   Creio que
Isto lhe faz gosto:


Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Horácio Costa. Nacionalidade: Portuguesa. Língua de escrita: Português.

Infância e formação

Informação não disponível.

Percurso literário

Início da escrita: A sua atividade literária manifesta-se tanto na poesia quanto no ensaio. Evolução ao longo do tempo: A sua obra poética é caracterizada por uma continuidade estilística e temática, marcada pela erudição e pela reflexão sobre a linguagem e a memória. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Reconhecido pela sua atividade ensaística e crítica.

Obra, estilo e características literárias

Obras principais com datas e contexto de produção: A sua poesia, que inclui títulos como "O Vento Suave" e "A Trama do Tempo", é marcada por uma profunda reflexão sobre a memória, a linguagem e a condição existencial. Temas dominantes: Memória, tempo, linguagem, identidade, a arte da poesia. Forma e estrutura: Rigor na construção formal, exploração de formas poéticas clássicas e experimentação métrica. Recursos poéticos: Uso de metáforas complexas, alusões literárias e filosóficas, musicalidade subtil. Tom e voz poética: Erudito, reflexivo, por vezes melancólico, mas sempre com um sentido de profundidade. Voz poética: Universalizante, que procura apreender as grandes questões da existência humana através da linguagem. Linguagem e estilo: Vocabulário erudito e preciso, densidade imagética, alusões intertextuais. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: A sua poesia insere-se numa linha de continuidade da poesia culta portuguesa, mas com uma abordagem contemporânea aos temas da memória e da linguagem. Relação com a tradição e com a modernidade: Diálogo constante com a tradição literária portuguesa e universal, mas com uma sensibilidade moderna. Movimentos literários associados: Pode ser associado a uma linha de poesia culta e reflexiva. Obras menos conhecidas ou inéditas: Informação não disponível.

Contexto cultural e histórico

O seu trabalho reflete um diálogo com a tradição literária portuguesa e europeia, inserindo-se num contexto de reflexão sobre a modernidade e a condição humana no século XX e XXI.

Vida pessoal

Informação não disponível.

Reconhecimento e receção

Reconhecido pela sua contribuição para a poesia e ensaísmo em Portugal.

Influências e legado

Autores que o influenciaram: A sua obra demonstra uma forte ligação a autores da tradição poética portuguesa e a pensadores da filosofia e crítica literária. Poetas e movimentos que influenciou: A sua obra continua a ser estudada e apreciada, influenciando gerações posteriores pela sua profundidade reflexiva e rigor formal.

Interpretação e análise crítica

Leituras possíveis da obra: A sua poesia convida a múltiplas leituras, centradas na exploração da memória, da passagem do tempo e da capacidade da linguagem em apreender a realidade. Temas filosóficos e existenciais: Aborda questões fundamentais sobre a existência, a finitude e o sentido da vida.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Informação não disponível.

Morte e memória

Informação não disponível.

Poemas

13

RETRATO DE FAMÍLIA EM CAMBUQUIRA

Observai, ninguém escapa à gravidade
ao lidar com os mortos, o tom cai
ao profeta, ao poeta, como uma luva, uma uva,
observai enfim, desde a infância soubemos
que meditar acerca de mortos
nos lava a alma e prepara para a vida,
observai enfim os mortos,
reunidos não frente à sanha de algum especialista,
os nervos retesados, mas melhor dito
relaxados: vieram de São Paulo para tratar-se
com águas, o mais insípido, o mais velho
dos tratamentos, quando já fazia mesmo falta
algum que desse a Osório
a esperança de viver que, depois
de inumeráveis consultas, os doutores
já lhe haviam por bem suprimido, ou
diminuído, algo que os fotógrafos,
que jamais mentem, apenas confirmavam:
posa então, pai Osório, parece dizer a foto,
antes que anoiteça e que fotógrafo nenhum
possa jamais captar-te em sua câmara,
em seu escrutínio: abre-te à luz,
ainda tens vida, mesmo que aparentes
setenta aos teus quarenta e tantos,
bonacheirão, como tu habituaste a ser,
mesmo contra vento e maré:
senta-te frente à perscrutação de tuas rugas,
de tua pele precocemente escurecida
devido à taxa do ferro em teu corpo,
ninguém o descobriria até o final,
especialista nenhum até à hora da morte, quase.
Posa junto à tua mulher e à tua progênie,
já mortos tu e ela, e distantes uns dos outros
os que advieram desta, organiza os teus
para a posteridade, na frente os pais,
detrás os filhos, em perfeita escadinha,
do menor ao maior, da esquerda à direita.
Sempre ao alcance da vista, por décadas
mamãe teria esta foto sobre a lareira;
o seu significado último,
o que terá epitomizado,
morreu com ela.
Trinta e cinco anos depois,
os filhos três vivem em três continentes,
entre si não baralham velhas fotos
como cartas de um tarot fanado:
comunicam-se por fax e fone, quem diria que
compartilharam segredos, o da genética
e outros, a que ralos tempos foram dar
esses devires, tais estaturas? Escrevemos
como se fôssemos Tibério Cláudio Druso Nero,
de quem se disse que parecia uma abóbora togada
e algo sublime. Senta, nada lamentes:
nada sabes sobre o que passará a esta platéia
do teu sentar, ver o futuro só aos deuses é dado,
ou a Tirésias, e nada mais longe de ti:
as mordeduras da vaidade, bem, as desconheces,
e jamais experimentarás em vida a entropia
que as famílias provam depois que o fundador
desaparece. O teu sorriso brasileirão
exclui pendências, e confiado, só desconfia
de preocupações. No além, quem sabe a tua mulher
te contará tudo, todo o havido e o por haver,
que ela sim, devido a seu gênero e às naturais
proclividades, sempre foi futurante,
te falará sobre os limites entre as terras de cultivo
no momento de dividi-las, sobre as audiências e os juízes
e a estâmina que se deve ter, e quase sempre falta,
frente às decisões. Depois da tua morte
ela alugaria um apartamento no Rio de Janeiro,
na praça dita do Lido, sombreada por figueiras,
para pensar, dizia, face à incompreensão geral;
os móveis eram Luís XV, da Maison Jensen,
mas as esquadrias das janelas, das quais se descortinava
de perfil a cornija do Copacabana Palace,
estavam tomadas de salitre e os vidros tinham, parecia,
um bafo que só anos de ausência consegue nos trópicos juntar:
neste espaço elle ferait son deuil ; também tivemos direito
a um Cadillac rabo de peixe negro, com chofer.
Visitaríamos o Redentor, o Quitandinha, o mítico
Cassino da Urca, já então afundado numa decadência
muda e desbotada em sua pequena calheta
e onde vocês se conheceram em plena Era Vargas,
vivas ainda aquelas manhãs e aquelas noites
na memória dela e nos trinados de uma cultura
que languescia. Nessas excursões
Beatriz usava alpargatas negras, já então
lhe doíam os pés, e estamos falando de 1965.
Jamais chegaste a ver a tua viúva
subir pela escadaria da Penha de joelhos
e chorar agarrada ao filho menor no Jardim Botânico,
estás aí nesta foto prenhe de ti mesmo
e ignorante de que para ti no ano seguinte
não haveria a mesma data novamente.
Não sabemos qual será o dia
da nossa morte, é piedoso o Criador;
mas frente a meus olhos mortuórios
não espero outra imagem que não seja
a do meu amante adormecido, que a tua,
Osório, já se fez tarde, e velha como um bom
conhaque. Não há muito mais a dizer,
Maria Beatriz parecia uma ninfa em sua
roupa adolescente e ria para a ocasião,
mamãe estava um pouco gorda
e trazia estranhas meias de seda no clima estival
e o meu irmão, Osòrinho,
não olhava para a câmara: seus olhos buscavam
um distante horizonte quiçá inexistente.
Aí estávamos nós, os cinco, a família
au grand complet , gozando de uma salutar
estação de águas em -pasmo- Cambuquira.
Bossuet, o francês que imitou Vieira,
ao proferir a sua famosa nênia, contava
com o Louvre, com a Cour Carrée,
para louvar Henriette Stuart, dita
Madame, morta na juventude.
Com o que contarei eu além de meu próprio olhar
nesta foto? Inaugural, de água,
ele substitui os damascos cortesãos,
as corbeilles fúnebres, a música de órgão,
e através da câmara do fotógrafo
olha sempre ao futuro,
melancolicamente cristalino.
640

Três laranjas

vida maior que eu próprio
anárquico proliferante alfabeto
que se detém como um gato rebelde
sobre a face sem fim desta laranja
sobre a mesa da sala pousada
asteróide abandonado ao próprio eixo
no crepúsculo explodido desde adentro

vida cristalizada num salto
sobre o verbo que encolhe as garras
sobre a pauta do minuto calmo
onde nesta pele ao azar incidem
as demais por nascer e as já pulsadas
poros espelhos de vulcões irradiantes
fruto estático, padrão concêntrico

reflexo amarelo de uma vida em transe
apetecível gota de um orgasmo cósmico
animal demais que se esconde em si
pelo prazer de dar-se e consumir-se inteiro
sob a urgência de meus sentidos turvos
vida que degusto e não compreendo
teu sumo é pouco para matar a sede
711

DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA

Para João Silvério Trevisan

pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:

o dulcímero

e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:

queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira

e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito

porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos

então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo

a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí

porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como

faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:

agora só há verba para estudar
o dulcímero
579

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.