Horácio Costa

Horácio Costa

n. 1954 BR BR

Horácio Costa é um poeta e ensaísta português, conhecido pela sua poesia que mescla erudição e sensibilidade, explorando temas como a memória, o tempo, a linguagem e a própria condição humana. A sua obra, marcada por uma rigorosa construção formal e um vocabulário rico, dialoga com a tradição literária, ao mesmo tempo que se insere nas inquietações da contemporaneidade. Costa é também reconhecido pela sua atividade ensaística, onde aprofunda reflexões sobre literatura, arte e cultura.

n. 1954, São Paulo · m. , São Paulo

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O Retrato de D. Luís de Gôngora

cara de vampiro, nariz boxeado pela vida,
stiffness, teu legendário orgulho desmesurado,
sem ironia ou sorriso a boca nos cantos desce,
não vejo tuas mãos, estarão escrevendo,
estarão manipulando o ábaco da sintaxe,
preocupado te vejo em encontrar tesouros
dormentes, na folha branca brilham larvais,
e já fixos me perfuram teus olhos de esfinge,
que imitam tuas orelhas em leque, teu manteau
absoluto, mole de lã ou veludo, sempre Diretor
dum hospital barroco antes do Grand Renfermement,
para quem posas, cantas o Esgueva do pensamento
dos teus contemporâneos, o radical suspiro da Natureza
em cio profundo, linguagem láctea, campo blau,
e me avalias, por fora Ácis, por dentro Polifemo,
assim é o mundo Dom Luís, para mim estás posando,
pré-kafkiana barata insigne vai de ante em ante-sala,
paciente expõe seu elástico decoro enfático, tanto
tens que suportar, por fora Hyde, por dentro tão menino,
pois és menino e para lá da moldura deste quadro
como os negros falas –é de noite que em pérola
se transforma a banalidade, e tua calva preenche
o céu, cede o vazio, e tua palavra uma berceuse escapa.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Horácio Costa. Nacionalidade: Portuguesa. Língua de escrita: Português.

Infância e formação

Informação não disponível.

Percurso literário

Início da escrita: A sua atividade literária manifesta-se tanto na poesia quanto no ensaio. Evolução ao longo do tempo: A sua obra poética é caracterizada por uma continuidade estilística e temática, marcada pela erudição e pela reflexão sobre a linguagem e a memória. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Reconhecido pela sua atividade ensaística e crítica.

Obra, estilo e características literárias

Obras principais com datas e contexto de produção: A sua poesia, que inclui títulos como "O Vento Suave" e "A Trama do Tempo", é marcada por uma profunda reflexão sobre a memória, a linguagem e a condição existencial. Temas dominantes: Memória, tempo, linguagem, identidade, a arte da poesia. Forma e estrutura: Rigor na construção formal, exploração de formas poéticas clássicas e experimentação métrica. Recursos poéticos: Uso de metáforas complexas, alusões literárias e filosóficas, musicalidade subtil. Tom e voz poética: Erudito, reflexivo, por vezes melancólico, mas sempre com um sentido de profundidade. Voz poética: Universalizante, que procura apreender as grandes questões da existência humana através da linguagem. Linguagem e estilo: Vocabulário erudito e preciso, densidade imagética, alusões intertextuais. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: A sua poesia insere-se numa linha de continuidade da poesia culta portuguesa, mas com uma abordagem contemporânea aos temas da memória e da linguagem. Relação com a tradição e com a modernidade: Diálogo constante com a tradição literária portuguesa e universal, mas com uma sensibilidade moderna. Movimentos literários associados: Pode ser associado a uma linha de poesia culta e reflexiva. Obras menos conhecidas ou inéditas: Informação não disponível.

Contexto cultural e histórico

O seu trabalho reflete um diálogo com a tradição literária portuguesa e europeia, inserindo-se num contexto de reflexão sobre a modernidade e a condição humana no século XX e XXI.

Vida pessoal

Informação não disponível.

Reconhecimento e receção

Reconhecido pela sua contribuição para a poesia e ensaísmo em Portugal.

Influências e legado

Autores que o influenciaram: A sua obra demonstra uma forte ligação a autores da tradição poética portuguesa e a pensadores da filosofia e crítica literária. Poetas e movimentos que influenciou: A sua obra continua a ser estudada e apreciada, influenciando gerações posteriores pela sua profundidade reflexiva e rigor formal.

Interpretação e análise crítica

Leituras possíveis da obra: A sua poesia convida a múltiplas leituras, centradas na exploração da memória, da passagem do tempo e da capacidade da linguagem em apreender a realidade. Temas filosóficos e existenciais: Aborda questões fundamentais sobre a existência, a finitude e o sentido da vida.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Informação não disponível.

Morte e memória

Informação não disponível.

Poemas

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História Natural

Detrás do taxidermista, há a palha,
detrás do rinoceronte, a savana,
detrás desta escritura só a noite,
a noite que galopa até o fronte.

Na asa da mariposa assoma a lua,
na cabeça do alfinete brilha o sol,
nestas linhas reverbera um sol negro,
o astro que ora sobe no horizonte.

O animal dissecado da sintaxe
provê o verbo, o bastidor e a legenda
duma coleção mais morta que os mortos.

No gabinete de história natural
o visitante-leitor detém-se face
a mamíferos e insetos reluzentes.
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A rã

Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.

Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.

A Rã não me quer
E nem a ti
                   Nem a si
Nem ninguém.
                   Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
                   E desisto
Da água.
                   Creio que
Isto lhe faz gosto:


Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
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DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA

Para João Silvério Trevisan

pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:

o dulcímero

e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:

queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira

e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito

porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos

então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo

a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí

porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como

faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:

agora só há verba para estudar
o dulcímero
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