Jaime Cortesão

Jaime Cortesão

1884–1960 · viveu 76 anos PT PT

Jaime Cortesão foi um historiador, professor universitário e político português. Destacou-se pela sua vasta obra historiográfica, centrada na história de Portugal e do Brasil, e pelo seu papel ativo na vida política e cultural do país. A sua investigação histórica abordou temas como os Descobrimentos Portugueses, a formação da identidade brasileira e a relação luso-brasileira. Foi também um defensor da democratização e do progresso social.

n. 1884-04-29, Ançã · m. 1960-08-14, Lisboa

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Romance do Homem da Boca Fechada

- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
- Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.

Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia...
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!

- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!

Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
Não deixa o Jaime Rebelo.
Pescador que se fez homem
Ao vento livre do Mar,
Traz sempre aquela visão
Na sombra dura do olhar,
Sempre de boca apertada,
Como quem não quer falar.

Este poema de Jaime Cortesão circulou clandestinamente nos anos trinta e foi publicado no Avante em 1937 . A publicação de um poema de um republicano sobre um anarquista no jornal comunista inseria-se nos esforços de Francisco Paula de Oliveira /"Pavel" para reforçar uma política de frente popular em Portugal . Sobre Jaime Rebelo veja-se a sua necrologia em Voz Anarquista 1 , 22/1/1975 e César Oliveira , "Jaime Rebelo : Um Homem Para Além do Tempo " , História , 6 , Março 1995
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Biografia

Identificação e contexto básico

Jaime Cortesão foi um proeminente historiador, professor universitário, político e ensaísta português. Nasceu a 13 de maio de 1884, em Gestaçô, Baião, e faleceu a 13 de fevereiro de 1960, em Lisboa. A sua obra abrangeu um vasto leque de temas, com especial incidência na história de Portugal e do Brasil, onde se destacou a sua investigação sobre os Descobrimentos Portugueses e a formação da identidade brasileira. Foi um intelectual de referência no seu tempo, interveniente na vida política e cultural portuguesa.

Infância e formação

Jaime Cortesão nasceu numa família de posses moderadas, em Gestaçô, numa região rural do norte de Portugal. Iniciou os seus estudos em Amarante e, posteriormente, frequentou a Universidade de Coimbra, onde se licenciou em História e Filosofia. Durante a sua formação académica, demonstrou um interesse precoce pela investigação histórica, sendo aluno de figuras de renome da historiografia portuguesa. A sua formação foi marcada por um espírito crítico e uma forte ligação às correntes intelectuais da época, que valorizavam o rigor científico e a análise aprofundada.

Percurso literário

O percurso literário de Jaime Cortesão está intrinsecamente ligado à sua carreira como historiador. A sua escrita é caracterizada pela profundidade da investigação e pela clareza expositiva. Iniciou a sua atividade pública com a publicação de trabalhos históricos e ensaísticos que rapidamente lhe granjearam reconhecimento. Ao longo da sua vida, colaborou com diversas revistas científicas e culturais, onde publicou artigos sobre história, política e educação. Foi também um ativo membro de instituições culturais e académicas, contribuindo para a divulgação do conhecimento histórico.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Jaime Cortesão é vasta e diversificada, com destaque para os seus estudos sobre a expansão marítima portuguesa e a formação do Brasil. Entre as suas obras mais importantes contam-se "A Carta de Pero Vaz de Caminha" (1922), "Descobrimentos Portugueses" (1937), e "História de Portugal" (vários volumes). O seu estilo é marcado pela erudição, pela rigorosa investigação documental e por uma linguagem clara e acessível, procurando tornar a história compreensível para um público alargado. Os temas centrais da sua obra incluem a identidade nacional portuguesa e brasileira, a importância dos Descobrimentos e a relação entre Portugal e o Brasil. Cortesão não se cingiu à mera exposição factual, procurando interpretar os processos históricos e as suas consequências sociais e políticas. Embora não seja primariamente um poeta, a sua prosa possui uma qualidade literária notável, com um sentido narrativo apurado e uma profunda reflexão sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Jaime Cortesão viveu um período de intensas transformações políticas e sociais em Portugal e no mundo. Presenciou o fim da Monarquia, a I República, a Ditadura Militar e o Estado Novo. A sua obra reflete um profundo interesse pelas questões da identidade nacional e da soberania, especialmente no que diz respeito à relação entre Portugal e o Brasil. Foi um intelectual interventivo, defendendo posições democráticas e progressistas num contexto político por vezes adverso. A sua geração foi marcada pela busca de um sentido para a identidade portuguesa num mundo em mudança, e Cortesão contribuiu significativamente para esse debate através da sua reinterpretação da história.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Jaime Cortesão teve uma vida dedicada ao estudo e à intervenção cívica. Foi casado e teve filhos, mas a sua vida pública e académica ocupou grande parte do seu tempo. Teve amizades importantes no meio intelectual e político, e também enfrentou oposições e críticas devido às suas posições ideológicas. A sua dedicação à investigação histórica e à defesa dos valores democráticos moldou a sua trajetória pessoal. Manteve uma forte ligação ao Brasil, onde viveu durante o exílio, e a sua obra reflete essa dualidade de influências.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Jaime Cortesão obteve um reconhecimento considerável em vida, tanto em Portugal como no Brasil, como um dos mais importantes historiadores do seu tempo. As suas obras foram amplamente divulgadas e estudadas, e ele recebeu diversas distinções académicas e honoríficas. Foi membro de importantes instituições científicas e culturais. A sua obra continua a ser fundamental para o estudo da história de Portugal e do Brasil, sendo citada e debatida por gerações de historiadores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Jaime Cortesão foi influenciado por historiadores como Oliveira Martins e Alexandre Herculano, mas desenvolveu um estilo próprio, marcado por uma abordagem mais crítica e pela exploração de novas fontes. O seu legado reside na forma como redefiniu a compreensão da história de Portugal e do Brasil, destacando a importância da dimensão atlântica e da relação luso-brasileira. Influenciou gerações de historiadores, tanto em Portugal como no Brasil, e a sua obra é um marco incontornável nos estudos sobre a expansão marítima e a formação da identidade brasileira. A sua obra permanece como um pilar para a compreensão da história dos dois países.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Jaime Cortesão tem sido objeto de inúmeras análises críticas. Alguns estudiosos realçam a sua capacidade de síntese e a sua visão panorâmica da história, enquanto outros apontam para uma certa subjetividade nas suas interpretações, influenciada pelas suas próprias convicções políticas e ideológicas. No entanto, a sua contribuição para a historiografia é inquestionável, especialmente no que diz respeito à desmistificação de certos aspetos da história colonial e à valorização das relações luso-brasileiras. A sua interpretação da história como um processo dinâmico e multifacetado continua a inspirar debates.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua obra historiográfica, Jaime Cortesão foi também um apaixonado pela arte e pela cultura. Possuía uma vasta biblioteca pessoal, repleta de obras raras e manuscritos. Um aspeto menos conhecido é o seu envolvimento na defesa do património histórico e artístico de Portugal. A sua dedicação à investigação era notória, passando longas horas em arquivos e bibliotecas. A sua intervenção política, embora discreta em certos períodos, foi sempre pautada por um forte sentido de justiça social.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Jaime Cortesão faleceu em Lisboa, em 1960, deixando uma obra vasta e um legado intelectual de grande importância. Após a sua morte, continuaram a ser publicados alguns dos seus escritos e estudos, mantendo viva a sua memória. A sua figura é lembrada como a de um dos maiores historiadores portugueses do século XX, um intelectual comprometido com o seu tempo e um defensor intransigente da verdade histórica. As suas obras continuam a ser consultadas e estudadas, garantindo a sua perenidade na história do pensamento.

Poemas

1

Romance do Homem da Boca Fechada

- Quem é esse homem sombrio
Duro rosto, claro olhar,
Que cerra os dentes e a boca
Como quem não quer falar?
- Esse é o Jaime Rebelo,
Pescador, homem do mar,
Se quisesse abrir a boca,
Tinha muito que contar.

Ora ouvireis, camaradas,
Uma história de pasmar.

Passava já de ano e dia
E outro vinha de passar,
E o Rebelo não cansava
De dar guerra ao Salazar.
De dia tinha o mar alto,
De noite, luta bravia,
Pois só ama a Liberdade,
Quem dá guerra à tirania.
Passava já de ano e dia...
Mas um dia, por traição,
Caiu nas mãos dos esbirros
E foi levado à prisão.

Algemas de aço nos pulsos,
Vá de insultos ao entrar,
Palavra puxa palavra,
Começaram de falar
- Quanto sabes, seja a bem,
Seja a mal, hás de contá-lo,
- Não sou traidor, nem perjuro;
Sou homem de fé: não falo!
- Fala: ou terás o degredo,
Ou morte a fio de espada.
- Mais vale morrer com honra,
Do que vida deshonrada!

- A ver se falas ou não,
Quando posto na tortura.
- Que importam duros tormentos,
Quando a vontade é mais dura?!

Geme o peso atado ao potro
Já tinha o corpo a sangrar,
Já tinha os membros torcidos
E os tormentos a apertar,
Então o Jaime Rebelo,
Louco de dor, a arquejar,
Juntou as últimas forças
Para não ter que falar.
- Antes que fale emudeça! -
Pôs-se a gritar com voz rouca,
E, cerce, duma dentada,
Cortou a língua na boca.

A turba vil dos esbirros
Ficou na frente, assombrada,
Já da boca não saia
Mais que espuma ensanguentada!

Salazar, cuidas que o Povo
Te suporta, quando cala?
Ninguém te condena mais
Que aquela boca sem fala!

Fantasma da sua dor,
Ainda hoje custa a vê-lo;
A angústia daquelas horas
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