João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

1920–1999 · viveu 79 anos BR BR

João Cabral de Melo Neto foi um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX. Sua obra é marcada pela objetividade, pelo rigor formal e pela exploração da linguagem como matéria-prima. Abordou temas como a paisagem nordestina, a condição humana e a própria poesia, com um estilo frequentemente descrito como concreto e arquitetônico. Sua poesia busca a precisão, a clareza e a economia de meios, afastando-se de sentimentalismos e excessos retóricos.

n. 1920-01-09, Recife · m. 1999-10-09, Rio de Janeiro

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Tecendo a Manhã

1.
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.


Publicado no livro A educação pela pedra (1966).

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.345. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
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Biografia

Identificação e contexto básico

João Cabral de Melo Neto foi um poeta, contista, romancista e diplomata brasileiro. Nasceu no Recife, Pernambuco, em 1920, e faleceu em 1999. É considerado um dos grandes nomes da poesia brasileira do século XX, associado à chamada Geração de 45.

Infância e formação

Nasceu em uma família de classe média alta de Pernambuco. Passou a infância entre o Recife e a fazenda da família, experiências que marcaram profundamente sua obra, especialmente a paisagem e a realidade social do Nordeste. Sua formação foi sólida, tendo estudado em colégios tradicionais.

Percurso literário

Publicou seu primeiro livro, "O Menino Conduzido", em 1940. Ganhou notoriedade com "Pedra do Sono" (1942) e consolidou sua posição com "O Engenheiro" (1945), "Psicologia da Composição" (1947) e, principalmente, "Morte e Vida Severina" (1955), um poema épico que retrata a dura jornada de um retirante nordestino.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Cabral é caracterizada pela objetividade, pelo rigor formal e pela precisão vocabular. Evita o sentimentalismo e a subjetividade exacerbada, buscando uma poesia mais concreta e construtiva. Temas recorrentes incluem a seca, a paisagem nordestina, a condição humana, a memória e a própria poesia. Seu estilo é marcado pela métrica controlada, pela linguagem direta e pela ausência de adornos supérfluos, aproximando-se de uma arquitetura verbal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu em um período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil e no mundo. Sua obra dialoga com a realidade brasileira, especialmente a do Nordeste, e reflete um olhar crítico sobre as desigualdades sociais. Fez parte da Geração de 45, que buscava renovar a poesia brasileira, afastando-se dos excessos do modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Além de poeta, foi diplomata, servindo em diversos países, o que ampliou seu repertório cultural e sua visão de mundo. Sua vida pessoal manteve um certo distanciamento da vida pública, com foco em sua produção literária e na carreira diplomática.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção João Cabral de Melo Neto recebeu diversos prêmios literários e foi reconhecido como um dos principais poetas de língua portuguesa. Sua obra é amplamente estudada e admirada tanto no Brasil quanto no exterior.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua poesia influenciou gerações de escritores pela sua objetividade e pelo uso inovador da linguagem. É considerado um poeta com um legado duradouro na literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Cabral é frequentemente analisada sob a ótica da concretude, da materialidade da linguagem e da crítica social implícita em sua obra. Sua capacidade de transformar a realidade em imagens poéticas de grande força é um ponto central de sua análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua experiência como diplomata lhe proporcionou um contato intenso com outras culturas e realidades, que por vezes se refletem em sua obra de maneira sutil. Era conhecido por seu rigor e disciplina na escrita.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1999, deixando um legado poético inestimável. Sua obra continua a ser editada e estudada, mantendo sua relevância no panorama literário.

Poemas

52

Camarada diamante!

Não sou um diamante nato
nem consegui cristalizá-lo:
se ele te surge no que faço
será um diamante opaco
de quem por incapaz do vago
quer de toda forma evitá-lo,
senão com o melhor, o claro,
do diamante, com o impacto:
com a pedra, a aresta, com o aço
do diamante industrial, barato,
que incapaz de ser cristal raro
vale pelo que tem de cacto.

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Serventia das idéias fixas

Para Vinícius de Morais

Assim como uma bala
enterrada no corpo,
fazendo mais espesso
um dos lados do morto;

assim como uma bala
do chumbo mais pesado,
no músculo de um homem
pesando-o mais de um lado;

qual bala que tivesse
um vivo mecanismo,
bala que possuísse
um coração ativo

igual ao de um relógio
submerso em algum corpo,
ao de um relógio vivo
e também revoltoso,

relógio que tivesse
o gume de uma faca
e toda a impiedade
de lâmina azulada;

assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

A

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

Mas o que não está
nele está como bala:
tem o ferro do chumbo,
mesma fibra compacta.

Isso que não está
nele é como um relógio
pulsando em sua gaiola,
sem fadiga, sem ócios.

Isso que não está
nele está como a ciosa
presença de uma faca,
de qualquer faca nova.

Por isso é que o melhor
dos símbolos usados
é a lâmina cruel
(melhor se de Pasmado):

porque nenhum indica
essa ausência tão ávida
como a imagem da faca
que só tivesse lâmina,

nenhum melhor indica
aquela ausência sôfrega
que a imagem de uma faca
reduzido à sua boca;

que a imagem de uma faca
entregue inteiramente
à fome pelas coisas
que nas facas se sente.

B

Das mais surpreendentes
é a vida de tal faca:
faca, ou qualquer metáfora,
pode ser cultivada.

E mais surpreendente
ainda é a sua cultura:
medra não do que come
porém do que jejua.

Podes abandoná-la
essa faca intestina:
jamais a encontrarás
com a boca vazia.

Do nada ela destila
a azia e o vinagre
e mais estratagemas
privativos dos sabres.

E como faca que é,
fervorosa e energética,
sem ajuda dispara
sua máquina perversa:

a lâmina despida
que cresce ao se gastar,
que menos dorme
quanto menos sono há,
cujo muito cortar
lhe aumenta mais o corte
e se vive a se parir
em outras, como fonte.
(Que a vida dessa fac
se mede pelo avesso:
seja relógio ou bala,
ou seja faca mesmo.)

C

Cuidado com o objeto,
com o objeto cuidado,
mesmo sendo uma bala
desse chumbo ferrado,

porque seus dentes já
a bala os traz rombudos
e com facilidade
se em botam mais no músculo.

Mais cuidado porém
quando for um relógio
com o seu coração
aceso e espasmódico.

É preciso cuidado
por que não se acompasse
o pulso do relógio
com o pulso do sangue,

e seu cobre tão nítido
não confunda a passada
com o sangue que bate
já sem morder mais nada.

Então se for faca,
maior seja o cuidado:
a bainha do corpo
pode absorver o aço.

Também seu corte às vezes
tende a tornar-se rouco
e há casos em que ferros
degeneram em couro.

O importante é que a faca
o seu ardor não perca
e tampouco a corrompa
o cabo de madeira.

D

Pois essa faca às vezes
por si mesma se apaga.
É a isso que se chama
maré baixa da faca.

Talvez que não se apague
e somente adormeça.
Se a imagem é relógio,
a sua abelha cessa.

Mas quer durma ou se apague:
ao calar tl motor,
a alma inteira se torna
de um alcalino teor

bem semelhante à neutra
substância, quase feltro,
que é a das almas que não
têm facas-esqueleto.

E a espada dessa lâmina,
sua chama antes acesa,
e o relógio nervoso
e a tal bala indigesta,

tudo segue o processo
de lâmina que cega:
faz-se faca, relógio
ou bala de madeira,

bala de couro ou pano,
ou relógio de breu,
faz-se faca sem vértebras,
faca de argila ou mel.

(Porém quando a maré
já nem se espera mais,
eis que a faca ressurge
com todos seus cristais.)

E

Forçoso é conservar
a faca bem oculta
pois na umidade pouco
seu relâmpago dura

(na umidade que criam
salivas de conversas,
tanto mais pegajosas
quanto mais confidências).

Forçoso é esse cuidado
mesmo se não é faca
a brasa que te habita
e sim relógio ou bala.

Não suportam também
todas as atmosferas:
sua carne selvagem
quer câmaras severas.

Mas se deves sacá-los
para melhor sofrê-los,
que seja algum páramo
ou agreste de ar aberto.

Mas nunca seja ao ar
que pássaros habitem.
Deve ser a um ar duro,
sem sombra e sem vertigem.

E nunca seja à noite,
que estas têm as mãos férteis,
Aos ácidos do sol
seja, ao sol do Nordeste,

à febre desse sol
que faz de arame as ervas,
que faz de esponja o vento
e faz de sede a terra.

F

Quer seja aquela bala
ou outra qualquer imagem,
seja esmo um relógio
a ferida que guarde,

ou ainda uma faca
que só tivesse lâmina,
de todas as imagens
a mais voraz e gráfica,

ninguém do próprio corpo
poderá retirá-la,
não importa se é bala
nem se é relógio ou faca,

nem importa qual seja
a raça dessa lâmina:
faca mansa de mesa,
feroz pernambucana.

E se não a retira
quem sofre sua rapina,
menos pode arrancá-la
nenhuma mão vizinha.

Não pode contra ela
a inteira medicina
de facas numerais
e aritméticas pinças.

Nem ainda a polícia
com seus cirurgiões
e até nem mesmo o tempo
como os seus algodões.

E nem a mão de quem
sem o saber plantou
bala, relógio ou faca,
imagens de furor.

G

Essa bala que um homem
leva às vezes na carne
faz menos rarefeito
todo aquele que a guarde

O que um relógio implica
por indócil e inseto,
encerrado no corpo
faz este mais desperto.

E se é faca a metáfora
do que leva no músculo,
facas dentro de um homem
dão-lhe maior impulso.

O fio de uma faca
mordendo o corpo humano,
de outro corpo ou punhal
tal corpo vai armando,

pois lhe mantendo vivas
todas as molas da alma
dá-lhes ímpeto de lâmina
e cio de arma branca,

além de ter o corpo
que a guarda crispado,
insolúvel no sono
e em tudo quanto é vago,

como naquela história
por alguém referida
de um homem que se fez

memória tão ativa
que pôde conservar
treze anos na palma
o peso de uma mão,
feminina, apertada.

H

Quando aquele que os sofre
trabalha com palavras,
são úteis o relógio,
a bala e, mais, a faca.

Os homens que em geral
lidam nessa oficina
têm no almoxarifado
só palavras extintas:

umas que se asfixiam
por debaixo do pó
outras despercebidas
em meio a grandes nós;

palavras que perderam
no uso todo o metal
e a areia que detém
a atenção que lê mal.

Pois somente essa fraca
dará a tal operário
olhos mais frescos para
o seu vocabulário

e somente essa faca
e o exemplo de seu dente
lhe ensinará a obter
de um material doente
o que em todas as facas é
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