Lista de Poemas

Madrugada

Sucos do céu molham a madrugada da cidade violenta.
Ela respira por nós.

Somos os que acendemos o amor para que dure,
para que sobreviva a toda a solidão.

Queimamos o medo, olhamos frente a frente a dor
antes de merecer esta esperança.

Abrimos as janelas para lhes dar mil rostos.
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Chuva

hoje chove muito, muito,
dir-se-ia que estão a lavar o mundo.
o meu vizinho do lado vê a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher com quem vive
e lhe faz a comida e lava a roupa e faz amor com ele
e se parece com a sua sombra
o meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta entra-se em muitos sítios
no trabalho, no quartel, na prisão,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e só a alma sabe onde as duas se encontram
e quando / e como
mas que pode a alma explicar

por isso o meu vizinho tem tempestades na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na
mesma noite em que ele amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que existe entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para regressar
ao meu vizinho que vê a chuva
e à chuva
ao meu coração desterrado
3 676

Amar-te é isto...

Amar-te é isto:
uma palavra que está por dizer
uma árvore sem folhas
que dá sombra
2 278

o jogo que jogamos

Se me dessem para escolher, eu escolheria
Esta saúde de saber que estamos muito enfermos,
Esta dita de andar tão infelizes.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
Esta inocência de não ser um inocente,
Esta pureza em que ando por ser impuro.

Se me dessem para escolher, eu escolheria
este amor com o qual odeio,
esta esperança que come pães desesperados.

Acontece, senhores, que aqui
aposto a minha morte.
2 230

Semper

Teu corpo é alto como os pátios da infância
doce como a luz dos crepúsculos
e triste
teu corpo dura como o sol
2 463

Epitáfio

Um pássaro vivia em mim.
Uma flor viajava em meu sangue.
Meu coração era um violino.

Quis ou não quis. Mas às vezes
me quiseram. Também me
alegravam: a primavera,
as mãos juntas, o feliz.

Digo que o homem deve sê-lo!

Aqui jaz um pássaro.
Uma flor.
Um violino.
2 247

gotán

Essa mulher se parecia à palavra nunca,
de sua nuca subia um encanto particular
uma espécie de esquecimento onde guardar os olhos,
essa mulher se instalava em meu lado esquerdo.

Atenção atenção eu gritava atenção
mas ela invadia como o amor, como a noite,
os últimos sinais que fiz para o outono
deitaram-se tranquilos debaixo da maré de suas mãos.

Dentro de mim explodiram ruídos secos,
caíam aos pedaços a fúria, a tristeza,
a senhora chovia docemente
sobre meus ossos parados na solidão.

Quando partiu eu tiritava feito um condenado,
com um punhal brusco me matei,
vou passar a morte inteira estendido com seu nome,
ele moverá minha boca pela última vez.
2 428

Oração

Habita-me, penetra-me.
Seja teu sangue um como meu sangue.
Tua boca entre em minha boca.
Teu coração aumente o meu até estalar.
Desgarra-me.
Caias inteira em minhas entranhas.
Andem tuas mãos em minhas mãos.
Teus pés caminhem em meus pés, teus pés.
Arde-me, arde-me.
Cobre-me com tua doçura.
Banha-me tua saliva o paladar.
Estejas em mim como está a madeira no palito.
Que já não posso mais assim, com esta sede
queimando-me.
Com esta sede queimando-me.
A solidão, seus corvos, seus cães, seus pedaços.
2 116

a mão

não ponha a mão na água
porque se vai como peixe
não ponha a água em sua mão
porque virá o oceano
e a margem depois
 
deixa sua mão assim
em seu ar
nela
sem começo
nem fim.

(tradução de Leo Gonçalves e Andityas Soares de Moura)


la mano

no pongas la mano en el agua
porque se irá de pez/
no pongas agua en tu mano
porque vendrá el océano
y la orilla después/
 
dejá tu mano así/
en su aire
en ella/
sin comienzo/
ni fin
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Limites

Quem disse alguma vez: até aqui a sede,
até aqui a água?

Quem disse alguma vez: até aqui o ar,
até aqui o fogo?

Quem disse alguma vez: até aqui o amor,
até aqui o ódio?

Quem disse alguma vez: até aqui o homem,
até aqui não?

Somente a esperança tem joelhos nítidos.
Sangram.

(tradução de Antonio Miranda)

:

Límites

¿Quién dijo alguna vez: hasa aquí la sed,
hasta aquí el agua?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el aire,
hasta aquí el fuego?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el amor,
hasta aquí el odio?

¿Quién dijo alguna vez: hasta aquí el hombre,
hasta aquí no?

Sólo la esperanza tiene las rodillas nítidas.
Sangran.

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Identificação e contexto básico

Juan Gelman foi um poeta, jornalista e tradutor argentino, amplamente considerado um dos maiores poetas em língua espanhola do século XX e início do século XXI. Nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 3 de junho de 1930, e faleceu na Cidade do México, México, em 14 de janeiro de 2014. É conhecido pela sua vasta obra poética, que aborda temas como a memória, a identidade, a política, a paternidade, a perda e a busca pela linguagem. Gelman escreveu em espanhol.

Infância e formação

Filho de imigrantes judeus russos, Gelman cresceu num ambiente familiar que valorizava a cultura e a leitura. Iniciou a sua atividade literária muito jovem, publicando o seu primeiro livro, "El viaje", em 1953. Formou-se em jornalismo e a sua carreira profissional esteve sempre ligada à escrita e à comunicação, influenciando o seu estilo direto e engajado.

Percurso literário

O percurso literário de Juan Gelman é extenso e diversificado. Começou a publicar poesia na década de 1950, estabelecendo-se rapidamente como uma voz importante na poesia argentina. Ao longo das décadas, a sua obra evoluiu, refletindo as suas experiências pessoais e o contexto político e social da Argentina e da América Latina. Gelman também se destacou como jornalista, crítico literário e tradutor de autores como Bertolt Brecht e Pier Paolo Pasolini.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais significativas estão "Gotán" (1962), "Los poemas de Juan sin Nada" (1967), "Ni el sol ni la sombra" (1977), "Com/posiciones" (1983), "La sal de la tierra" (1985), "Mantra" (1991) e "País que anhelas" (2001). Os temas centrais da sua obra incluem a memória pessoal e coletiva, a identidade fragmentada, a crítica social e política, o amor, a morte e a busca pela palavra justa. O seu estilo é marcado pela clareza, pela força expressiva, pela ironia e por uma profunda reflexão existencial e social. Gelman utilizou frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade e um ritmo próprios. A sua linguagem é ao mesmo tempo acessível e densa, capaz de evocar imagens poderosas e emoções profundas. É frequentemente associado à poesia social e de testemunho, mas a sua obra transcende rótulos, explorando a complexidade da condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Gelman viveu e escreveu num período de grande efervescência cultural e política na Argentina e na América Latina, incluindo as ditaduras militares e os períodos de transição democrática. A sua obra reflete as angústias, as esperanças e as desilusões de uma geração marcada pela instabilidade política e social. Foi um intelectual comprometido, cuja poesia se tornou um veículo de denúncia e reflexão sobre a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Juan Gelman foi marcada por experiências pessoais profundas, incluindo a perda de filhos e netos em circunstâncias trágicas relacionadas com a ditadura argentina. Essas perdas tiveram um impacto significativo na sua obra, especialmente na sua reflexão sobre a memória e a justiça. A sua experiência como exilado e a sua luta pela recuperação da identidade de um neto desaparecido são testemunhos da sua resiliência e do seu compromisso com a verdade e a memória.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Juan Gelman é amplamente reconhecido como um dos poetas mais importantes da literatura em língua espanhola. Recebeu inúmeros prémios e distinções ao longo da sua carreira, incluindo o Prémio Cervantes em 2007, o mais importante galardão literário em língua espanhola. A sua obra é estudada e admirada em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas como Pablo Neruda e César Vallejo, Gelman, por sua vez, deixou uma marca indelével na poesia latino-americana. O seu legado reside na sua capacidade de conjugar lirismo e engajamento social, na sua exploração profunda da memória e da identidade, e na sua incansável busca pela palavra que possa dar conta da complexidade da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Gelman é frequentemente interpretada como um testemunho da história recente da América Latina, mas também como uma exploração universal da condição humana. A sua poesia convida à reflexão sobre a fragilidade da memória, a persistência da dor e a necessidade de justiça e de reconhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma das facetas mais marcantes da vida de Gelman foi a sua busca incansável pelo seu neto, Macarena Gelman, sequestrado com a sua mãe grávida durante a ditadura argentina. Este episódio pessoal tornou-se um símbolo da luta pela memória e pela justiça na Argentina. Gelman também foi um ávido leitor e tradutor, enriquecendo o panorama literário com as suas traduções e os seus ensaios.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Juan Gelman faleceu em 2014, no México, onde residia. A sua morte foi lamentada por toda a comunidade literária e cultural. A sua memória é mantida viva através da sua obra imensa e do impacto que teve na poesia contemporânea, bem como pela sua importância como voz de denúncia e de esperança.