Juan Gelman

Juan Gelman

1930–2014 · viveu 83 anos AR AR

Juan Gelman foi um dos mais importantes poetas argentinos do século XX e XXI, conhecido pela sua obra densa, política e profundamente humana. A sua poesia, marcada pela busca incessante da linguagem e pela reflexão sobre a memória, a perda e a justiça, atravessou diferentes fases, desde o lirismo inicial até uma expressão mais engajada e filosófica. Gelman foi também jornalista e tradutor, e a sua vida esteve intrinsecamente ligada às convulsões políticas da Argentina e da América Latina.

n. 1930-05-03, Buenos Aires · m. 2014-01-14, Cidade do México

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Madrugada

Sucos do céu molham a madrugada da cidade violenta.
Ela respira por nós.

Somos os que acendemos o amor para que dure,
para que sobreviva a toda a solidão.

Queimamos o medo, olhamos frente a frente a dor
antes de merecer esta esperança.

Abrimos as janelas para lhes dar mil rostos.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Juan Gelman foi um poeta, jornalista e tradutor argentino, amplamente considerado um dos maiores poetas em língua espanhola do século XX e início do século XXI. Nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 3 de junho de 1930, e faleceu na Cidade do México, México, em 14 de janeiro de 2014. É conhecido pela sua vasta obra poética, que aborda temas como a memória, a identidade, a política, a paternidade, a perda e a busca pela linguagem. Gelman escreveu em espanhol.

Infância e formação

Filho de imigrantes judeus russos, Gelman cresceu num ambiente familiar que valorizava a cultura e a leitura. Iniciou a sua atividade literária muito jovem, publicando o seu primeiro livro, "El viaje", em 1953. Formou-se em jornalismo e a sua carreira profissional esteve sempre ligada à escrita e à comunicação, influenciando o seu estilo direto e engajado.

Percurso literário

O percurso literário de Juan Gelman é extenso e diversificado. Começou a publicar poesia na década de 1950, estabelecendo-se rapidamente como uma voz importante na poesia argentina. Ao longo das décadas, a sua obra evoluiu, refletindo as suas experiências pessoais e o contexto político e social da Argentina e da América Latina. Gelman também se destacou como jornalista, crítico literário e tradutor de autores como Bertolt Brecht e Pier Paolo Pasolini.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas mais significativas estão "Gotán" (1962), "Los poemas de Juan sin Nada" (1967), "Ni el sol ni la sombra" (1977), "Com/posiciones" (1983), "La sal de la tierra" (1985), "Mantra" (1991) e "País que anhelas" (2001). Os temas centrais da sua obra incluem a memória pessoal e coletiva, a identidade fragmentada, a crítica social e política, o amor, a morte e a busca pela palavra justa. O seu estilo é marcado pela clareza, pela força expressiva, pela ironia e por uma profunda reflexão existencial e social. Gelman utilizou frequentemente o verso livre, mas com uma musicalidade e um ritmo próprios. A sua linguagem é ao mesmo tempo acessível e densa, capaz de evocar imagens poderosas e emoções profundas. É frequentemente associado à poesia social e de testemunho, mas a sua obra transcende rótulos, explorando a complexidade da condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Gelman viveu e escreveu num período de grande efervescência cultural e política na Argentina e na América Latina, incluindo as ditaduras militares e os períodos de transição democrática. A sua obra reflete as angústias, as esperanças e as desilusões de uma geração marcada pela instabilidade política e social. Foi um intelectual comprometido, cuja poesia se tornou um veículo de denúncia e reflexão sobre a realidade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Juan Gelman foi marcada por experiências pessoais profundas, incluindo a perda de filhos e netos em circunstâncias trágicas relacionadas com a ditadura argentina. Essas perdas tiveram um impacto significativo na sua obra, especialmente na sua reflexão sobre a memória e a justiça. A sua experiência como exilado e a sua luta pela recuperação da identidade de um neto desaparecido são testemunhos da sua resiliência e do seu compromisso com a verdade e a memória.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Juan Gelman é amplamente reconhecido como um dos poetas mais importantes da literatura em língua espanhola. Recebeu inúmeros prémios e distinções ao longo da sua carreira, incluindo o Prémio Cervantes em 2007, o mais importante galardão literário em língua espanhola. A sua obra é estudada e admirada em todo o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por poetas como Pablo Neruda e César Vallejo, Gelman, por sua vez, deixou uma marca indelével na poesia latino-americana. O seu legado reside na sua capacidade de conjugar lirismo e engajamento social, na sua exploração profunda da memória e da identidade, e na sua incansável busca pela palavra que possa dar conta da complexidade da experiência humana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Gelman é frequentemente interpretada como um testemunho da história recente da América Latina, mas também como uma exploração universal da condição humana. A sua poesia convida à reflexão sobre a fragilidade da memória, a persistência da dor e a necessidade de justiça e de reconhecimento.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma das facetas mais marcantes da vida de Gelman foi a sua busca incansável pelo seu neto, Macarena Gelman, sequestrado com a sua mãe grávida durante a ditadura argentina. Este episódio pessoal tornou-se um símbolo da luta pela memória e pela justiça na Argentina. Gelman também foi um ávido leitor e tradutor, enriquecendo o panorama literário com as suas traduções e os seus ensaios.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Juan Gelman faleceu em 2014, no México, onde residia. A sua morte foi lamentada por toda a comunidade literária e cultural. A sua memória é mantida viva através da sua obra imensa e do impacto que teve na poesia contemporânea, bem como pela sua importância como voz de denúncia e de esperança.

Poemas

27

a mão

não ponha a mão na água
porque se vai como peixe
não ponha a água em sua mão
porque virá o oceano
e a margem depois
 
deixa sua mão assim
em seu ar
nela
sem começo
nem fim.

(tradução de Leo Gonçalves e Andityas Soares de Moura)


la mano

no pongas la mano en el agua
porque se irá de pez/
no pongas agua en tu mano
porque vendrá el océano
y la orilla después/
 
dejá tu mano así/
en su aire
en ella/
sin comienzo/
ni fin
1 290

todo o dia vivi com tua ausência

todo o dia vivi com tua ausência melhor dizendo
todo o dia vivi da tua ausência já que os
terramotos
e outros desastres internacionais
não me distraíram de ti

eu sou um homem do mundo interessa-me
a revolução no Paquistão a falta
de revolução no Yorkshire onde
vi uma vez gente a chorar
de fome ou de raiva nem mais

como é então possível
entre as tempestades ou calmarias
que vêm a dar no mesmo em
certo ponto de vista eu

não esquecer a tua firmeza
a aparência suave que tens
e tudo ser como o teu cheiro depois de amar
em vez de amar ser como o teu cheiro?
1 473

Os iludidos

a esperança fracassa muitas vezes, a dor jamais, por isso alguns crêem que mais vale dor conhecida que dor por conhecer, crêem que a esperança é ilusão, são os iludidos da dor.
1 953

Mulheres

dizer que essa mulher era duas mulheres é dizer pouquinho
devia haver umas 12397 mulheres em sua mulher
era difícil alguém saber com quem se tratava
nesse povo de mulheres
por exemplo:
estávamos deitados em um leito de amor
ela era uma alvorada de algas fosforescentes
quando a fui abraçar
se converteu em singapura repleta de cães que uivavam
recordo
quando apareceu envolta em rosas de agadir
parecia uma constelação na terra
parecia que o cruzeiro do sul havía baixado à terra
essa mulher brilhava como a lua de sua voz clara
como o sol que se punha em sua voz
nas rosas estavam escritas todos os nomes dessa mulher menos um
e quando se virou
sua nuca era o plano econômico
tinha milhares de cifras e a balança de mortes favoráveis à ditadura militar
ninguém nunca sabia aonde ia parar essa mulher
eu estava ligeiramente desconcertado
uma noite a toquei no ombro para ver quem era
e vi em seus olhos desertos um camelo
às vezes
essa mulher era a banda municipal de meu povo
tocava doces valsas até que o trombone começava a desafinar
e os demais desafinavam com ele
essa mulher tinha a memória desafinada
você podia amá-la até o delírio
fazer crescer dias de sexo trêmulo
fazer voar como passarinho de savana
no dia seguinte se despertava falando de malevich
a memória lhe andava como um relógio com raiva
às três da tarde acordava da carga
que lhe pisoteou a infância numa noite do ser
era muitas coisas essa mulher e
era uma banda municipal
a devoraram todos os fantasmas que pude alimentar
com suas milhares de mulheres
e era uma banda municipal desafinada
indo-se pelas sombras da pracinha de meu povo
eu
companheiros
uma noite como esta
que nos embebem os rostos e em que provavelmente morremos
montei no camelinho que esperava em seus olhos
e me fui das costas tíbias dessa mulher
calado como um menino debaixo dos gordos abutres
que me comem inteiro
menos o pensamento
de quando ela se unia como um ramo
de doçura e o lançava pela tarde
2 169

Poema XXXIII

Basta
Não quero mais morte
Não quero mais dor ou sombras basta
Meu coração é esplêndido como a palavra
 
Meu coração tornou-se belo como o sol
Que sai voa canta meu coração
De manhã cedo é um passarinho
E depois é teu nome
 
Teu nome sobe todas as manhãs
Aquece o mundo e se põe
Só em meu coração
Sol em meu coração
 
Amor que serena, termina?
1 400

Opiniões

Um homem desejava violentamente uma mulher
a algumas pessoas não lhes parecia bem
Um homem desejava loucamente voar
a algumas pessoas lhes parecia mal
Um homem desejava ardentemente a Revolução
E contra a opinião da grande maioria
Subiu pelos muros secos do devido
Abriu o peito e retirando os arredores de seu coração
Agitava violentamente uma mulher
Voava loucamente pelo tecto do mundo
E os povos ardiam, as bandeiras
1 456

Pouco se sabe

Eu não sabia que
não te ter podia ser doce como
nomear-te para que venhas ainda que
não venhas e não haja senão
tua ausência tão
dura como o golpe que
me dei na cara pensando em ti
1 488

Sefini

Basta
por esta noite fecho a porta
no saco onho
guardo os papelitos
onde não faço senão falar de ti
mentir sobre teu paradeiro
corpo que me faz tremer
1 713

Arte Poética

Entre tantos ofícios exerço este que não é meu, 

como um amo implacável
obriga-me a trabalhar de dia, de noite,
com dor, com amor,
sob a chuva, na catástrofe,
quando se abrem os braços da ternura ou da alma,
quando a enfermidade afunda as mãos.

A este ofício obrigam-me as dores alheias,
as lágrimas, os lenços saudadores,
as promessas em meio ao outono ou ao fogo,
os beijos de encontro, os beijos de adeus,
tudo me obriga a trabalhar com as palavras, com o sangue.

Nunca fui o dono de minhas cinzas, meus versos,
rostos obscuros escrevem-nos como atirar contra a morte.
1 194

Costumes

não é para ficar em casa que fazemos uma casa
não é para ficar no amor que amamos
e não morremos para morrer
temos sede e
paciências de animal
1 909

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