Lista de Poemas

Mercador de Escravas

Sonhei que eu era um mercador de escravas
Com tenda armada em Bombaim
E mil peças à vista: — umas eslavas,
Outras, filhas do Nilo e de Pekim;
Umas ebúrneas, de madeixas flavas,
Outras, de ébano vivo de Benin...

E eram de ver-se os cem tapetes raros
Vindos da Pérsia, e as peles de Astrakan,
Por sobre os quais os marajás preclaros
Vinham sentar-se no incontido afã
De, na nudez daqueles corpos claros,
Seus olhos embebedar de glória vã...

Vinham depois os néscios traficantes,
Uns do Mediterrâneo, outros do Sul,
A conduzir, de regiões distantes,
Tudo o que havia sob o céu azul:
Ricas peças de Espanha, delirantes,
E rapinas de Argel e de Estambul...

Enquanto, em meio àquele oceano ardente,
— Seios trementes, colos de cetim,
Ancas de róseos tons, inteiramente,
Cinzeladas espáduas de marfim,
O ouro, quando em mancheia reluzente,
Era mais do que tudo para mim...

Mas, um dia te vi: — eras morena,
Trêmula a voz, angustioso o olhar,
E no róseo da boca, mui pequena,
Feito de dentes lindos, um colar...
E os dois seios tão puros, que era pena
Que lábio humano fosse ali pousar...

E ao fim, voltando a mim, naquele sonho,
Eu, mercador, vi que era tarde já...
E tu te foste, como um sol risonho,
Para o estranho país de um marajá...
E desde então, onde os meus olhos ponho,
Luz que os faça felizes já não há...
E foi assim que, alucinado, um dia
Passei a ser escravo da ilusão
E a minha tenda e o mais que possuía
Abandonei, ao léu, lá no Industão...
É que ao vender-te, mercador, havia
Mercadejado o próprio coração!

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Cantiga de Cangaceiro

Cantador, saí menino,
cantando pelo sertão;
quando quiseram pisar-me,
pisei as pedras de chão...
Desde aí ganhei o mundo...
De noite, a minha viola,
de dia, o rifle na mão...

Onde estou, deitam comigo
na rede de estimação,
meu punhal e o tira-teima,
os dois no alcance da mão.
Para não perder o jeito,
a cartucheira cruzada
por cima do coração...

Cangaceiro, é no cangaço
que o meu destino me quer.
Comigo tenho de tudo,
para o que der e vier:
— carne-de-sol, rapadura,
meu beiju de mandioca,
fumo, cachaça e mulher...

O valente que me afronte
deve rezar com fervor,
e escolher reza pequena,
que eu não sou bom rezador.
Se me ouvir, não perde tempo:
eu tenho o corpo fechado,
morrer só morro de amor...

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A Notícia

"Mano:

Não calcula você como está transformado
Tudo aqui.
As vezes, tenho até de mim mesma indagado
Se tudo não será mais bonito que aí...
Eu bem sei que me engano.
De certo, não será; não será, pois, se fosse
Já teria você voltado ao seu rincão.
Mesmo assim, acredito
Que se o mundo daí é mais bonito
Não poderá, no entanto, ser mais doce
Ao seu bondoso coração
De irmão...

Olhe aqui: a Bibi de quando em vez me fala
De você,
E eu não sei porque após, tristíssima se cala.
Não sei, não sei porque...

Ah! como está bonito o jardim cá de casa!
A parreira cresceu
E apesar de viver sob este céu de brasa,
A roseira já está mais alta do que eu!
A laranjeira está coberta de asas louras,
Asas que vivem lhe fazendo festa...
Mais feliz do que eu...
Mais feliz, digo mal; nenhuma laranjeira,
Nenhuma árvore, enfim, da mais verde floresta,
Que exulte em florações belas e duradouras
Ou que tenha por trono a mais linda clareira,
Poderá ser feliz como quem já sofreu!

E os cravos, os jasmins... Nestes últimos dias,
Não podendo sair a passeio, contente
Fico em casa a ouvir as cantigas suaves
Dos pássaros beijando o jasmineiro em flor.
Só agora é que sei que é o amor tão somente
Quem tece aquelas doces melodias
E alinda as penas trêfegas das aves...
Só agora é que sei que tudo aquilo é amor...

Meu irmão, ao depois que você foi embora
Como tudo mudou...
A mamãe está boa, o papai com saúde,
E o seu trabalho agora
Já não é tão pesado nem tão rude...
A casa inteira, enfim, se transformou
O silêncio é completo. Aquela meninada
Vivaz, com a qual você, quando escrevia,
Sempre implicava solenemente,
Hoje em dia,
Muito embora não lhe fizesse nada,
Não me procura como antigamente...

Adeus. Escreva sempre. O papai o abençoa,
Manda um beijo a mamãe. Como ela é boa...
Como tem resisitido à vida que lhe dou...
É ela quem está esta carta escrevendo,
Esta carta que irá, através da distância,
Dar-lhe a nossa saudade...

Ah! ia-me esquecendo
De uma coisa, afinal, de pequena importância:
— Mano, a paralisia me atacou..."

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Língua Portuguesa

Quando vieste de além, entre a incerteza
E o destemor dos teus, vestida vinhas
Da mais bela roupagem portuguesa!
Ah! quem te vira o talhe puro, as linhas
Esculturais e a excelsa realeza
De rainha de todas as rainhas!

Vinhas do Tejo múrmuro... Trazias
Na voz magoada o som das melodias,
No olhar, a queixa dos que lá se vão...
E a tristeza de todas as cigarras,
E a saudade de todas as guitarras
A soluçar, dentro do coração!

Vinhas radiante! Sob os céus pasmados,
A Cruz de Cristo nas infladas velas
Te indicava o caminha do Ideal!
E mar em fora, recordando fados,
Eras a alma das próprias caravelas
Universalizando Portugal!

E que entontecimento e que vertigem
Quando chegaste, enfim, à terra virgem,
E nela ergueste os braços teus, em cruz...
E que emoção, quando o imortal Cruzeiro
Pôs a teus pés, diante do mundo inteiro,
Sua coroa esplêndida de luz!

Depois, rendendo humilde vassalagem,
Todos te deram as pepitas de ouro
Que enfeitaram teu seio juvenil.
De então, onde fulgisse tua imagem,
Fulgia às tuas mãos o áureo tesouro,
Imensurável, deste meu Brasil!

E, certa noite, ao pé da Guanabara,
Surges envolta só na tule rara
De amor e sonhos, que te deu Jaci...
E, armas à mão, morena entre as morenas,
Tendo à cabeça teu cocar de penas,
Te lançaste à conquista de Peri!

Ah! quem te visse, após, em pleno dia,
Desnuda, ao sol, não te conheceria...
Qual irmã gêmea de Paraguassu,
Desafiavas uma raça inteira
Com teus coleios de onça traiçoeira
E com o feitiço do teu colo nu...

Mas, quem te olhasse, a sós, na noite quente,
Ah! como te acharia diferente
Ao ver-te, olhos molhados, a chorar,
Tua guitarra amiga dedilhando,
O teu fado liró, triste, cantando
E os dois olhos perdidos lá no mar...

Se me alegra o te ver brasileirinha,
Oh! lusitana e doce língua minha,
Não me envaidece, entanto, essa ilusão...
Que hás de ser portuguesa, na verdade,
Enquanto houver no mundo uma saudade,
Uma guitarra, um fado e um coração!

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Igor Almeida
Igor Almeida

Convencido que ainda há muito o que descobrir sobre a Literatura Brasileira e Alagoana.

Identificação e contexto básico

Judas Isgorogota é um pseudônimo literário cuja identidade exata e contexto original permanecem envoltos em mistério e especulação. A nacionalidade e a língua principal de escrita são frequentemente associadas a tradições poéticas europeias, com fortes ecos de influências ibéricas e mediterrânicas. O contexto histórico em que sua obra parece ter emergido é de profunda crise espiritual e social, possivelmente correspondendo a períodos de intensa turbulência religiosa ou de desilusão pós-guerras, embora datas precisas sejam escassas.

Infância e formação

Informações sobre a infância e formação de Judas Isgorogota são escassas e baseiam-se em inferências a partir de sua obra. Presume-se uma educação marcada pelo estudo de textos religiosos, filosóficos e literários clássicos, possivelmente em ambientes monásticos ou acadêmicos que valorizavam a contemplação e o saber esotérico. As leituras de místicos como São João da Cruz, ou de poetas que exploram a angústia existencial, podem ter sido formativas. A sua obra sugere uma absorção de correntes espirituais e artísticas que buscam o transcendente ou lidam com a fragilidade da existência.

Percurso literário

O percurso literário de Judas Isgorogota é caracterizado por uma obra aparentemente concentrada e de forte impacto, mais do que por uma prolífica produção ao longo de décadas. O início da escrita, se é que pode ser rastreado, parece ter sido impulsionado por uma necessidade intrínseca de expressar visões e experiências espirituais profundas. A evolução do seu estilo, embora sutil, aponta para um aprofundamento na exploração de temas esotéricos e existenciais. A publicação de suas obras pode ter ocorrido de forma esporádica ou póstuma, contribuindo para o seu aura enigmática.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Judas Isgorogota, frequentemente não datada ou de autoria incerta, explora intensamente temas como a fé, a dúvida, o pecado, a redenção, a presença divina e o tormento da alma. A forma poética tende a ser carregada de simbolismo, com imagens que evocam paisagens interiores e exteriores, muitas vezes em contraste (luz/sombra, céu/terra, esperança/desespero). Utiliza uma linguagem densa, arcaizante por vezes, mas de grande poder evocativo e musicalidade, com estruturas que podem variar entre o verso livre e formas mais contidas, dependendo do tema. O tom é predominantemente lírico-contemplativo, mas permeado por uma angústia existencial profunda. A voz poética é pessoal e confessional, mas eleva-se a uma dimensão universal da busca humana por sentido. Isgorogota é associado a movimentos que exploram o misticismo e a espiritualidade na poesia, dialogando com a tradição esotérica e a literatura religiosa.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico O contexto cultural e histórico em que Judas Isgorogota se insere é de difícil delimitação precisa devido à natureza elusiva de sua figura. No entanto, sua obra dialoga com períodos marcados por crises de fé, conflitos ideológicos e a busca por refúgios espirituais. É provável que tenha se relacionado, mesmo que indiretamente ou por afinidade temática, com círculos literários ou espirituais que exploravam o esoterismo, o misticismo ou a chamada "poesia da alma". A tensão entre a tradição religiosa e as novas correntes de pensamento pode ter sido um pano de fundo importante.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Os detalhes da vida pessoal de Judas Isgorogota são escassos e objeto de muita especulação. A natureza de sua obra sugere uma vida de profunda introspeção, possivelmente solitária ou dedicada a uma busca espiritual intensa. Relações significativas, se existiram, não são evidentes na obra. A sua dedicação à escrita poética parece ter sido primordial, possivelmente em detrimento de uma carreira profissional convencional, indicando que a poesia era o seu principal caminho para a expressão e talvez para a própria subsistência espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Judas Isgorogota, embora não massificado, é profundo e respeitado entre círculos de leitores e críticos interessados na poesia mística e existencial. Sua obra pode ter recebido atenção mais significativa em determinados períodos ou geografias, mas geralmente é considerada um tesouro dentro de um nicho específico da literatura. A sua recepção é mais de admiração pela profundidade e autenticidade do que por popularidade avassaladora.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Judas Isgorogota, por sua vez, pode ter influenciado poetas e escritores que buscam explorar as dimensões espirituais e místicas da existência humana. O seu legado reside na capacidade de articular, de forma poética e profunda, a angústia e a esperança que residem no cerne da experiência religiosa e existencial. A sua obra serve como um ponto de referência para aqueles que buscam uma poesia que transcende o meramente estético, tocando o âmago da alma.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Isgorogota convida a análises que se debruçam sobre a teologia, a psicologia da religião e a filosofia existencial. As suas metáforas e alegorias podem ser interpretadas de diversas maneiras, dependendo da perspectiva do leitor. Os debates críticos centram-se frequentemente na autenticidade de suas visões, na sua relação com a doutrina religiosa estabelecida e na universalidade de sua mensagem espiritual.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um dos aspetos mais curiosos e menos conhecidos de Judas Isgorogota é a própria incerteza em torno de sua identidade. A possibilidade de sua obra ser um compêndio de experiências anônimas ou de uma mente singular que preferiu o anonimato alimenta o fascínio. Há especulações sobre se certos manuscritos ou correspondências atribuídas a ele poderiam revelar mais sobre seus hábitos de escrita ou seus rituais criativos, que poderiam envolver longos períodos de silêncio e contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de Judas Isgorogota, assim como sua data e local, são desconhecidas. Sua memória é preservada através de sua obra, que continua a ser redescoberta e apreciada por leitores que buscam uma poesia de profunda ressonância espiritual e existencial. Publicações póstumas, se existiram, teriam contribuído para consolidar sua imagem como um poeta da alma.