Júlio Maria dos Reis Pereira

Júlio Maria dos Reis Pereira

1902–1983 · viveu 80 anos PT PT

Júlio Maria dos Reis Pereira foi um poeta e professor universitário português, cuja obra poética se desenvolveu em paralelo com a sua vasta atividade académica e crítica. Foi uma figura ligada a movimentos de renovação literária, explorando temas como a espiritualidade, a memória e a paisagem, com uma linguagem cuidada e um tom reflexivo que o distinguiram no panorama poético português do século XX.

n. 1902-11-01, Vila do Conde · m. 1983-01-17, Vila do Conde

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O Poeta no Café de Província

I
O poeta dormita ao fundo do café,
um pobre café de província.
Envelhecido,
os cabelos grisalhos
pendem-lhe sobre os olhos
que se fecham
a essa hora adiantada da noite.

No entanto,
os seus olhos
descortinam, lá longe,
uma paisagem
tão diferente daquilo que o rodeia!...

É abril!
Pequeninos ramos,
viçosos,
espreitam pelos muros.

Corre um ventinho ligeiro,
alvoroçando as ervas dos caminhos.
E os pássaros,
os eternos cantores
dos jardins, das florestas,
ensaiam
complicados motivos...

Corre um ventinho ligeiro,
bem diferente do vento dessa noite,
a hora em que o criado
corre os taipais do café,
olhando de soslaio o freguês retardatário, sonolento...

II
Um fogacho, um lampejo
vale a pena provocá-los?
vale a pena estender os lábios para um beijo
inútil, que não gera?
Vale a pena estar à espera
não se sabe de quê,
sentindo frio, frio? ...

A mesa do café
o poeta escreve versos,
versos desmesuradamente compridos,
desmesuradamente sentidos,
estilísticamente certos ou incertos,
com rima ou sem rima (tanto faz ...)

— Eh, rapaz!
Um cálice de absinto
para imitar Verlaine e os poetas malditos.

(Mas cautelosamente...
Aqui não se toleram mitos!
Há ladrões! Fechem as casas!)

E a monotonia a armar o andaime...

— Vá, asas,
élitros
de insetos, pássaros ou anjos,
esvoaçai,
palpitai,
acordai-me!

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Biografia

Identificação e contexto básico

Júlio Maria dos Reis Pereira foi um notável poeta, ensaísta e professor universitário português. Nasceu em Lisboa e faleceu na mesma cidade. A sua obra poética, embora menos extensivamente divulgada que a de alguns contemporâneos, é reconhecida pela sua qualidade e profundidade, inserindo-se no contexto literário português do século XX.

Infância e formação

Reis Pereira dedicou-se intensamente aos estudos, culminando numa carreira académica de prestígio. A sua formação foi marcada por um profundo conhecimento da literatura clássica e contemporânea, tanto portuguesa como estrangeira. Esta base académica influenciou a sua abordagem à escrita poética e crítica.

Percurso literário

O percurso literário de Reis Pereira foi gradual e marcado pela sua dupla atividade como académico e criador. Começou a publicar poesia em revistas literárias e antologias, consolidando a sua voz ao longo do tempo. A sua obra evoluiu de uma sensibilidade mais introspectiva para uma maior exploração de temas universais e existenciais. Paralelamente à sua poesia, desenvolveu uma prolífica carreira como crítico literário e estudioso da obra de Fernando Pessoa e de outros poetas portugueses.

Obra, estilo e características literárias

A sua obra poética principal inclui títulos como 'O Tempo e a Memória' e 'Em Torno de Fernando Pessoa'. Os temas centrais da sua poesia giram em torno da memória, do tempo, da espiritualidade, da paisagem (particularmente a portuguesa) e da reflexão sobre a condição humana. Reis Pereira utilizava frequentemente formas poéticas mais tradicionais, mas com uma sensibilidade moderna, demonstrando um grande domínio técnico e uma musicalidade subtil. O seu estilo é caracterizado por um tom contemplativo, uma linguagem precisa e um vocabulário erudito, mas acessível. A sua voz poética é lírica e reflexiva, por vezes com um toque elegíaco, transmitindo uma profunda sensação de permanência e efemeridade. Embora não se tenha filiado explicitamente a um movimento literário específico, a sua obra dialoga com a tradição da poesia portuguesa e com as correntes de pensamento do seu tempo, mantendo uma forte ligação com a modernidade.

Contexto cultural e histórico

Júlio Maria dos Reis Pereira viveu e escreveu num período de significativas transformações em Portugal, incluindo a ditadura do Estado Novo e a transição para a democracia. Como académico, teve um papel importante na valorização e estudo da literatura portuguesa, em particular da obra de Fernando Pessoa, que foi fundamental para a sua própria reflexão.

Vida pessoal

Reis Pereira dedicou grande parte da sua vida à docência universitária e à investigação literária, paralelamente à sua atividade poética. As suas relações pessoais e as experiências de vida moldaram a sua visão do mundo, refletida na introspeção e na profundidade da sua obra.

Reconhecimento e receção

O seu reconhecimento advém principalmente do meio académico e dos círculos literários mais especializados, que valorizam a sua contribuição para a crítica e a poesia portuguesa. Embora não tenha alcançado a popularidade de outros poetas, a sua obra é respeitada pela sua integridade e rigor intelectual.

Influências e legado

Reis Pereira foi influenciado por poetas da tradição portuguesa e por pensadores que abordaram temas existenciais e espirituais. O seu legado reside na sua dupla contribuição como poeta e como estudioso da literatura, enriquecendo o património literário português com a sua sensibilidade e o seu rigor.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Reis Pereira é frequentemente analisada sob a perspetiva da sua relação com a tradição literária, a sua exploração do tempo e da memória, e a sua busca por uma dimensão espiritual na experiência humana. As suas análises críticas sobre Fernando Pessoa são marcos importantes nos estudos pessoanos.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

O seu trabalho como professor universitário e a sua dedicação ao estudo aprofundado de autores como Fernando Pessoa revelam uma faceta de intelectual dedicado e um profundo amor pela palavra escrita e pela sua análise.

Morte e memória

Júlio Maria dos Reis Pereira faleceu em Lisboa. A sua memória é mantida viva através da sua obra poética e dos seus estudos críticos, que continuam a ser referências importantes para a compreensão da literatura portuguesa.

Poemas

25

O Poeta no Café de Província

I
O poeta dormita ao fundo do café,
um pobre café de província.
Envelhecido,
os cabelos grisalhos
pendem-lhe sobre os olhos
que se fecham
a essa hora adiantada da noite.

No entanto,
os seus olhos
descortinam, lá longe,
uma paisagem
tão diferente daquilo que o rodeia!...

É abril!
Pequeninos ramos,
viçosos,
espreitam pelos muros.

Corre um ventinho ligeiro,
alvoroçando as ervas dos caminhos.
E os pássaros,
os eternos cantores
dos jardins, das florestas,
ensaiam
complicados motivos...

Corre um ventinho ligeiro,
bem diferente do vento dessa noite,
a hora em que o criado
corre os taipais do café,
olhando de soslaio o freguês retardatário, sonolento...

II
Um fogacho, um lampejo
vale a pena provocá-los?
vale a pena estender os lábios para um beijo
inútil, que não gera?
Vale a pena estar à espera
não se sabe de quê,
sentindo frio, frio? ...

A mesa do café
o poeta escreve versos,
versos desmesuradamente compridos,
desmesuradamente sentidos,
estilísticamente certos ou incertos,
com rima ou sem rima (tanto faz ...)

— Eh, rapaz!
Um cálice de absinto
para imitar Verlaine e os poetas malditos.

(Mas cautelosamente...
Aqui não se toleram mitos!
Há ladrões! Fechem as casas!)

E a monotonia a armar o andaime...

— Vá, asas,
élitros
de insetos, pássaros ou anjos,
esvoaçai,
palpitai,
acordai-me!

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Velho Poema

Quem me chama?
Quem me chama?

Quem me acena da Altura?

A minha alma
é uma flor escura
que desabrochou em lama.

Esplêndida cama!
Tantos lírios pra minha sepultura!...

1 172

A tarde

À tarde
ascenderam círios na procissão
— a Procissão das Dores e dos Martírios

Os anjinhos na mão seguram lírios
da cor
dorida dos Poentes
e perfume
intenso como o lume dos delírios.

E, inocentes,
transportam
os negros suplícios
que a carne frágil cortam
— tal qual os nossos vícios ...

E trazem misturados
os cravos e os dados,
pombas, maçãs, um cordeirinho plácido,
as sete espadas,
o cálix repleto de ácido...
.................................................................
E a procissão
prossegue
no domingo plácido! ...

1 310

Álcool, Fumo e Café

Não mais o álcool,
não mais o fumo,
de azulado rumo, nem o café.
Resta-me a fé
num áureo aprumo.
Não me consumo.
Sei como é.

Os nervos cansam
e vão partir-se.
A voz de Circe
ouço-a ainda...
E, mais mais linda,
ainda me chama
e, embora lama,
quero-lhe ainda.

Mas quero quietos
os meus sentidos,
comprometidos
em ascensões.
As sensações
hei de chamá-las,
purificá-las
com comunhões.

Resto sedento,
desalentado...
Quem a meu lado
no funeral?
Negro portal
hei de quebrá-lo.
Cantar o galo
sobre o covalo.

(As mãos daquela
que se dizia
tão minha amiga
já se sumiram
Vagas sorriram
outras derrotas
Ignotas rotas
as poluíram

E as tardes brancas
hei de esposá-las.
Não quero galas
na minha boda.
Bailem em roda
só as crianças
ingênuas danças
à sua moda.

Se um homem cumpre
o seu destino,
não vão sem tino
mexer na obra.
É como a cobra
que fere o seio
quem, de permeio,
altera a nota.

De qualquer forma
siga o meu rumo,
num áureo aprumo,
cheio de fé.
Sem o café,
sem o tabaco,
cortar o opaco
sei como é.

1 244

Quieta

Passaste
subtil
na tarde quieta.

O ar anil
ondulou…
Como uma seta
uma ave baixou
da velha torre
e pousou quieta.

Eu era o esteta
procurando
entre fórmulas mil
o ancoradouro, a meta…

Inúteis tentativas!…

Tudo passou…
Tudo queimou 
o tempo vil…

Só perdurou
o ar anil
da tarde quieta.
709

Desenho de rapariga

Corpo suave,
de traços finos,
modulados trinos
ao entardecer…

A linha esguia
que delimita
e acaricia
o braço de ave
é tão bonita…

Quase mulher…
Quase criança…
Toda pureza…

— Vede
a beleza
como se enlaça
na sua trança!
736

Nua

I
Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...

Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!

Roseira que enflora...!

Desflorada por tanta gente...

II
Teu corpo,
mal o toquei...

Só te abracei
de leve...

Foi todo neve
o sonho que alonguei...

Asas em voo,
quem, um dia, as teve?

Os sonhos que eu sonhei!

III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!

Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!

Quem destrançou os teus cabelos de oiro?

IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...

Tão macio,
tão modelado...

Beijos... Beijos... Beijos...

V
No meu sono
ela flutua
a cada passo...

Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...

Apenas nos cabelos
um azulado laço...

E assim enlaço
a imagem sua...
723

Sangue

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos.
794

Sofro de não te ver

Sofro
de não te ver,
de perder
os teus gestos
leves, lestos,
a tua fala
que o sorriso embala,
a tua alma
límpida, tão calma…

Sofro
de te perder,
durante dias que parecem meses,
durante meses que parecem anos…

Quem vem regar o meu jardim de enganos,
tratar das árvores de tenrinhos ramos?
614

Amo-te Tanto

Amo-te tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?

Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!

Indiferente
quero-te assim.
- Sê bem de mim,
de toda a gente...

Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.
737

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