Lista de Poemas

Poeta

- Poeta errante,
de olhar vago e distante
e azul,
o teu perfil singular
recorta-se angular
ao norte e ao sul.

- Os teus fatos coçados
bate-os o vento
e leva-os aos bocados...

E os sapatos gastos
pedem grandes repastos,
abrem bocas, esfomeados.

(Nos bolsos, imagino
asas de borboletas,
molhos de folhas secas,
poeiras e papéis...)

- Poeta errante,
caem por terra os livros e a estante,
e as torres esguias das igrejas,
e as paredes velhas dos bordéis!...

- Poeta errante,
vamos dormir na sombra dos vergéis!...
641

Amo-te Tanto

Amo-te tanto
nem sei porquê!
Que importa o quê
do meu espanto?

Que importa o riso
que me concedes?
Que me embebedes!
Que paraíso!

Indiferente
quero-te assim.
- Sê bem de mim,
de toda a gente...

Rasgou-se o véu
do temporal.
Nem bem nem mal.
Entras no céu.
700

Interrogação

Sim, preferi deixar-te,
abandonando
a dádiva de encontrar-te.

Quem eras afinal?
Qual a estrela que te guiava?
Qual a cor dos teus dias?
Qual o segredo que em ti eu tentei desvendar?

Abandonei-te.
No entanto,
na minha vida
talvez fosses o leite
capaz de me curar.
563

Desenho de rapariga

Corpo suave,
de traços finos,
modulados trinos
ao entardecer…

A linha esguia
que delimita
e acaricia
o braço de ave
é tão bonita…

Quase mulher…
Quase criança…
Toda pureza…

— Vede
a beleza
como se enlaça
na sua trança!
706

Nua

I
Nua
como Eva.
A cabeleira
beija-lhe o rosto oval e flutua;
o corpo
é água de torrente...

Eva adolescente,
com reflexos de lua
e tons de aurora...!

Roseira que enflora...!

Desflorada por tanta gente...

II
Teu corpo,
mal o toquei...

Só te abracei
de leve...

Foi todo neve
o sonho que alonguei...

Asas em voo,
quem, um dia, as teve?

Os sonhos que eu sonhei!

III
Jeito de ave
e criança,
suave
como a dança
do ramo de árvore
que o vento beija e balança!

Nave
de sonho
no temporal medonho
silvando agoiro!

Quem destrançou os teus cabelos de oiro?

IV
Corpo fino,
delicado,
sereno, sem desejos...

Tão macio,
tão modelado...

Beijos... Beijos... Beijos...

V
No meu sono
ela flutua
a cada passo...

Nua,
riscando o espaço
numa névoa de outono...

Apenas nos cabelos
um azulado laço...

E assim enlaço
a imagem sua...
694

Para Todo o Sempre

O Poeta morre,
mas não cessa de escrever.

Enquanto escreve,
vive
ressuscitando fugidias horas
mudadas em auroras...

Uma pequenina flor,
pisada por quem passa,
é agora
um milagre de cor,
uma negaça
de mil desejos...

E os beijos
que nunca foram dados,
tornados tão reais...

Aquela borboleta
arrasta
infindas primaveras
no seu voo fremente...

- Uma palavra mais,
Poeta!
Uma palavra quente!
Uma palavra para todo o sempre!
681

Amei-te

Amei-te
porque o teu olhar numa tarde se encheu de lágrimas,
e falaste em morrer, e tremeste de medo.

Contudo
não eras mais que uma flor corruta,
dessas que a vida enleia e usa
e depois atira para uma sarjeta lamacenta.

Mas, para mim, eras toda inocência, toda pureza branca.
Porque a inocência é um dom de Deus,
o dom só concedido
àqueles que mais ama.
Por isso, os homens só aparentemente sujam
as pequeninas rosas.

Ah! tivesse eu forças para seguir-te,
embora de longe, mas atentamente,
ajudando-te a subir o agreste calvário!
715

Ali

Ali sofreste. Ali amaste.
Ali é a pedra do teu lar.
Ali é o teu, bem teu lugar.
Ali a praça onde jogaste
o que o destino te quis dar.

Ali ficou tua pegada
impressa, firme, sobre o chão.
Ninguém a vê sob o montão
de cinza fria e poeirada?
Distingue-a, sim, teu coração.

Podem talvez o vento, a neve,
roubar a flor que tu criaste?
Ali sofreste. Ali amaste.
Ali sentiste a vida breve.
Ali sorriste. Ali choraste.
691

Sangue

Versos
escrevem-se
depois de ter sofrido.
O coração
dita-os apressadamente.
E a mão tremente
quer fixar no papel os sons dispersos...

É só com sangue que se escrevem versos.
763

Música

A doce, iriada melodia,
roxa sombra na tarde escarlate,
chorosa, ouço-a; bate
e verte quentura na minha alma fria.

Quantos anos galgaram lépidos,
furtivos, maldosos, sobre a minha cabeça!
E não há tempo que, húmido, arrefeça
a toada suave de tons tépidos...

Remédio para as minhas feridas,
para os nervos pacífico brometo,
quando eu seguir no caixão preto,
entre velas e ladainhas,

meus ouvidos tapados a algodão
hão-de ouvi-la, tal como nessa tarde,
tão discreta, suave e sem alarde,
sobrepondo-se ao cantochão...
698

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Identificação e contexto básico

Júlio Maria dos Reis Pereira foi um notável poeta, ensaísta e professor universitário português. Nasceu em Lisboa e faleceu na mesma cidade. A sua obra poética, embora menos extensivamente divulgada que a de alguns contemporâneos, é reconhecida pela sua qualidade e profundidade, inserindo-se no contexto literário português do século XX.

Infância e formação

Reis Pereira dedicou-se intensamente aos estudos, culminando numa carreira académica de prestígio. A sua formação foi marcada por um profundo conhecimento da literatura clássica e contemporânea, tanto portuguesa como estrangeira. Esta base académica influenciou a sua abordagem à escrita poética e crítica.

Percurso literário

O percurso literário de Reis Pereira foi gradual e marcado pela sua dupla atividade como académico e criador. Começou a publicar poesia em revistas literárias e antologias, consolidando a sua voz ao longo do tempo. A sua obra evoluiu de uma sensibilidade mais introspectiva para uma maior exploração de temas universais e existenciais. Paralelamente à sua poesia, desenvolveu uma prolífica carreira como crítico literário e estudioso da obra de Fernando Pessoa e de outros poetas portugueses.

Obra, estilo e características literárias

A sua obra poética principal inclui títulos como 'O Tempo e a Memória' e 'Em Torno de Fernando Pessoa'. Os temas centrais da sua poesia giram em torno da memória, do tempo, da espiritualidade, da paisagem (particularmente a portuguesa) e da reflexão sobre a condição humana. Reis Pereira utilizava frequentemente formas poéticas mais tradicionais, mas com uma sensibilidade moderna, demonstrando um grande domínio técnico e uma musicalidade subtil. O seu estilo é caracterizado por um tom contemplativo, uma linguagem precisa e um vocabulário erudito, mas acessível. A sua voz poética é lírica e reflexiva, por vezes com um toque elegíaco, transmitindo uma profunda sensação de permanência e efemeridade. Embora não se tenha filiado explicitamente a um movimento literário específico, a sua obra dialoga com a tradição da poesia portuguesa e com as correntes de pensamento do seu tempo, mantendo uma forte ligação com a modernidade.

Contexto cultural e histórico

Júlio Maria dos Reis Pereira viveu e escreveu num período de significativas transformações em Portugal, incluindo a ditadura do Estado Novo e a transição para a democracia. Como académico, teve um papel importante na valorização e estudo da literatura portuguesa, em particular da obra de Fernando Pessoa, que foi fundamental para a sua própria reflexão.

Vida pessoal

Reis Pereira dedicou grande parte da sua vida à docência universitária e à investigação literária, paralelamente à sua atividade poética. As suas relações pessoais e as experiências de vida moldaram a sua visão do mundo, refletida na introspeção e na profundidade da sua obra.

Reconhecimento e receção

O seu reconhecimento advém principalmente do meio académico e dos círculos literários mais especializados, que valorizam a sua contribuição para a crítica e a poesia portuguesa. Embora não tenha alcançado a popularidade de outros poetas, a sua obra é respeitada pela sua integridade e rigor intelectual.

Influências e legado

Reis Pereira foi influenciado por poetas da tradição portuguesa e por pensadores que abordaram temas existenciais e espirituais. O seu legado reside na sua dupla contribuição como poeta e como estudioso da literatura, enriquecendo o património literário português com a sua sensibilidade e o seu rigor.

Interpretação e análise crítica

A poesia de Reis Pereira é frequentemente analisada sob a perspetiva da sua relação com a tradição literária, a sua exploração do tempo e da memória, e a sua busca por uma dimensão espiritual na experiência humana. As suas análises críticas sobre Fernando Pessoa são marcos importantes nos estudos pessoanos.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

O seu trabalho como professor universitário e a sua dedicação ao estudo aprofundado de autores como Fernando Pessoa revelam uma faceta de intelectual dedicado e um profundo amor pela palavra escrita e pela sua análise.

Morte e memória

Júlio Maria dos Reis Pereira faleceu em Lisboa. A sua memória é mantida viva através da sua obra poética e dos seus estudos críticos, que continuam a ser referências importantes para a compreensão da literatura portuguesa.