Lista de Poemas

Oh deleite das experiências da língua, devorador da medula! O perigo da palavra é o prazer do pensamento. O que foi que dobrou a esquina ali adiante? Ainda não divisada e já amada! Lanço-me nessa aventura.

 

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Que a palavra mais velha seja desconhecida nas redondezas, recém-nascida e inspire dúvidas sobre se vai viver. Então ela viverá. Ouvimos o coração da língua batendo.

 

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Na Alemanha, bastam duas pessoas e temos uma associação. Morre uma delas, a outra levanta de seu lugar em sinal de luto.

 

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Prússia: liberdade de ir e vir usando focinheira. Áustria: solitária com permissão para gritar.

 

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A polícia vigia com rigor para que apenas a velhice e a feiura se entreguem ao vício. Só é aceita num bordel aquela cuja corrupção datar de uma era policial anterior e cuja virtude tenha caído mais ou menos na mesma época em que caíram as muralhas da cidade. Ela precisa ser uma emeretriz... As inválidas cantam: “Eles nos sustentaram!”.

 

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Num domingo de inverno à tarde, num café de Viena, encurralados entre pais que jogam cartas, mulheres que berram e crianças que leem revistas humorísticas, podemos ser tomados por tal sentimento de solidão que ansiamos pela vida agitada que deve reinar por essa hora na Baía do Advento.

 

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A aglomeração: e depois que o acidente aconteceu, “apareceram muitos curiosos para ver o local”. E então o acidente já estava tão insensível às provocações da curiosidade que se contentou com o desprezo calado.

 

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As camas de Hamburgo têm bordas altas. Estamos seguros de que não cairemos quando o mar estiver agitado. Um uso sem sentido, com o qual o povo conserva a tradição do camarote. O enjoo do mar se reproduz em terra firme por gerações de marceneiros, e nada é mais doloroso ao acordar do que a recordação de que os hamburgueses são um povo de navegadores.

 

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A beleza imerecida dessa cidade! Mas aqueles que a animam à chamada seriedade do trabalho são tão tolos quanto seus bajuladores e folhetinistas. Não é lamentável que seus habitantes não trabalhem, mas que não pensem. Chega a ser meritório contar com o fato de que o céu é azul e o prado é verde. Quem diz que não se pode viver disso é um filisteu. Mas quem diz que é triste viver disso quando não se é um artista, diz a verdade.

 

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Seu marido permite que ela faça teatro — a boemia não teria permitido que ela se casasse. Portanto, na sociedade ainda há mais liberdade do que na boemia, que tem suas normas imutáveis.

 

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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.