Lista de Poemas

Na guerra, ou a mentira é uma embriaguez ou uma ciência. Esta última é mais prejudicial ao organismo.
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Talvez a guerra traga uma única mudança, mas uma mudança em razão da qual ela certamente não foi empreendida: as vítimas da psicanálise voltarão sadias para casa. Pois a guerra entende quase tão pouco de psicologia quanto a psicanálise, mas, diante do método individualizante desta, que na maioria dos casos se atém ao nada, a guerra pelo menos tem a vantagem de, na maioria dos casos, padronizar os indivíduos, e assim, proporcionar ao nada a sua verdadeira posição. É bom quando águas-vivas que nem sequer eram instrumentos sejam elevadas a tal condição.
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A quantidade diminui o lucro sob todos os aspectos. A atração que os trajes exercem sobre as mulheres diminuiu, e o que sobrou foi a desilusão erótica. Visto que às mulheres agrada apenas aquilo que chama a atenção, o homem que usa uma roupa civil voltou a ter hoje as melhores perspectivas, o que também vale para o trapalhão de quem se diz ter se destacado por uma covardia especial diante do inimigo; pois qualquer um pode ser herói. Ocorre exatamente o mesmo que nos bailes de máscaras, em que cada pessoa promete para si mesma causar a maior sensação; quando ele termina, porém, ela reconhece que se quisesse ter chamado a atenção deveria ter usado um fraque, pois o nariz postiço era comum a todos.
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A guerra só seria correta se apenas os não aptos fossem enviados para o campo de batalha.
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A diplomacia é um jogo de xadrez em que os povos são colocados em xeque.
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A guerra seria uma punição razoável se não fosse a continuação do delito.
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La bourse est la vie .
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Se alguém tivesse dito ao Diabo, para quem a guerra desde sempre foi uma pura paixão, que alguma vez haveria homens com um interesse comercial na continuação da guerra, que eles nem sequer se dariam ao trabalho de ocultá-lo e que seus lucros ainda lhes proporcionariam reconhecimento social, ele o mandaria contar essa história a outro. Porém, quando tivesse se convencido do fato, o Inferno enrubesceria de vergonha e ele teria de reconhecer que durante toda a sua vida foi um pobre diabo!
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O chiste abraça a realidade e a loucura salta sobre o mundo. Como ainda podemos inventar se atrás de cada carantonha surge um rosto que lhe é igual inclusive na fala? Como podemos exagerar se os fatos se transformam em caricatura do exagero? A e B estão em conflito. Diz-se que A praticou um ato ilegal. Porém, visto que por alguma razão não se pode dizer isso em voz alta, o que se diz em voz alta é o seguinte: “O senhor já sabe do ato ilegal que B cometeu mais uma vez?”. Quando se diz isso, não se pensa no fato de B realmente poder tê-lo cometido. Também não se acredita que A, consciente de seu próprio delito, alguma vez pudesse censurá-lo a B, caso este também o tivesse cometido. Não se acredita nisso, pelo menos nesse caso especialmente crítico. Apenas a experiência geral de que algo semelhante por certo já aconteceu, de que se imputou a B aquilo que somente A cometeu, justifica a jocosa confusão: “Imagine só o senhor do que B não é capaz!”. No dia seguinte, publica-se um protesto de A contra o procedimento de B. Este teria cometido exatamente aquele ato ilegal, o pior numa série de crimes semelhantes. Desse modo, o próprio A assume o método parodístico com o qual se atribui a B os pecados de A porque não se tem outra saída. Resta assim apenas a explicação de que ele sentiu remorsos e, na esperança de ser corretamente compreendido, confessou sua falta sob a forma de uma imputação a B. Caso B realmente tivesse cometido essa falta, A pelo menos deveria perceber a justa compensação e silenciar. O que constitui a comicidade do caso não é a indignação contra aquilo que também se fez, ou que se fez apenas sozinho, mas a exatidão com que A aproveita a distorção intencional empregada pela pessoa cautelosa que precisa dizer B quando se refere à A. Por conseguinte, não se evita apenas dizer a verdade; também se é cauteloso com a mentira, pois ela também é vã e serve no máximo para motivo de farsa.
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Muitas vezes arranho minha mão com a pena e só então sei que vivi aquilo que se encontra escrito.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.