Lista de Poemas

Pediram-me muitas vezes para ser justo e observar uma coisa de todos os lados. E fiz isso, na esperança de que uma coisa talvez pudesse se tornar melhor se eu a observasse de todos os lados. Mas cheguei ao mesmo resultado. De maneira que continuei a observar uma coisa apenas de um lado, poupando muito trabalho e desilusão. Pois é consolador considerar que uma coisa é ruim e, ao fazê-lo, poder se desculpar apelando a um preconceito.
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Woodie, um cãozinho de pelo longo que conheci pessoalmente — ele ria quando as pessoas conversavam com ele e chorava porque não podia conversar com elas, e seu olhar era em si e para elas a gratidão da criatura —, foi morto por um automóvel. Quem teria tanta pressa? Deveria o pouquinho de espaço entre os corpos humanos que um passante desses exigia — ele podia se encolher como uma cobra — ser melhor empregado? Os dignos pagam para que os outros continuem vivend o indignamente. E para quê, afinal, já que esse exemplo não melhora os ruins? Ele seguia seu caminho e morreu por isso. Quando a mulher se voltou, ele jazia ao sol. Quando a vida não tem palavras, resta tanto silêncio.
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Na maioria dos seres humanos não avanço até a alma, mas sou assaltado por dúvidas já nas entranhas. Pois não posso acreditar que esse magnífico mecanismo foi criado para compor um grande comerciante, e apenas por meio da autópsia me deixo convencer de que um agiota tem um baço.
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Conheci um cão que era tão grande quanto uma pessoa, tão ingênuo quanto uma criança e tão sábio quanto um ancião. O tempo que parecia ter era tanto que não caberia numa vida humana. Quando ele tomava sol e observava alguém enquanto isso, era como se quisesse dizer: “Por que vocês têm tanta pressa?”. E ele certamente o diria; bastaria que se esperasse.
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No caminho pelo qual chegamos a nós mesmos também encontramos uma inoportuna fileira de curiosos que gostariam de saber como são as coisas por lá.
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Preciso estar outra vez entre seres humanos. Pois neste verão, em meio às abelhas e aos dentes-de-leão, minha misantropia degenerou gravemente.
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Eros tem sorte no amor. O desperdício lhe proporciona crescimento; a ofensa, honra. Magoe-o, e isso lhe será um prazer; difame-o, e isso lhe será útil. Podes lhe fazer de tudo, só não dizer tua opinião na sua cara. Ele não é queixoso, mas também não é ávido de saber. Ele só é curioso, e quer descobrir as coisas por conta própria. Ainda que saibas tudo melhor do que ele, saiba disso: ele toma parte de tudo no mundo, só não toma parte no tédio. O que dele escondes, ele partilhará contigo; mas ele desdenha tua ciência.
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O dono não suporta tão dignamente a dignidade quanto o cavalo suporta o ultraje.
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O defeito que consiste no fato de o gênio provir de uma família apenas pode ser reparado por ele ao não formar nenhuma.
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O incompreensível na arte da palavra — nas outras artes também não compreendo o compreensível — não deve tocar o sentido exterior. Este deve ser mais claro do que aquilo que fulano e sicrano têm a dizer um ao outro. O misterioso se encontra atrás da clareza. A arte é algo tão claro que ninguém compreende. Qualquer alemão entende que sobre todos os cimos há paz 3 ; todavia, n ão há um que já tenha apreendido isso.
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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.