Lista de Poemas

A perspicácia da polícia consiste no dom de considerar todas as pessoas capazes de um roubo e na sorte de a inocência de algumas não poder ser provada.

 

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Ouvi um alemão ligeiramente bêbado gritar as seguintes palavras atrás de uma garota que dobrou a esquina, declamando-as humoristicamente: “Lá vai ela, a vadiazinha!”. Não se pode supor que algum dia se aprove uma lei que permita abater a tiros os alemães que tenham provado com uma só frase a sua completa inutilidade neste planeta.

 

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Em caso de igual estupidez, importa a diferença de volume corporal. Um imbecil não deveria ocupar espaço demais.

 

21

Toda a vida no Estado e na sociedade repousa sobre o pressuposto tácito de que o homem não pensa. As coisas são bem difíceis para uma cabeça que, em qualquer situação, não representa um espaço oco e receptivo.

 

40

O homem pensa e o próximo dispensa. Este nem sequer pensa o suficiente para pensar que outro possa pensar.

 

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Se alguém quer me dirigir a palavra, ainda espero até o último momento que o medo de se comprometer o impeça de fazê-lo. Mas as pessoas são corajosas.

 

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Se o convite de um cocheiro para andar em seu coche apenas se chocasse com o nosso desejo de não andar com ele, a vida seria fácil. Mas às vezes ele se choca com pensamentos melhores, e os destrói. Quem, afinal, pensa sempre em não andar de coche?

 

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Olho por uma janela e o horizonte é obstruído por uma cara de basbaque. Isso é trágico. Nada tenho contra o fato de existirem caras repugnantes. Mas por que a óptica dispôs as coisas de tal modo que uma pessoa possa encobrir um bosque? Podemos, por certo, encobrir a pessoa com um porrete. Mas, em todo caso, saímos prejudicados com a ilusão de óptica. E assim os raios luminosos servem para aumentar a misantropia.

 

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Gostaria muito de requerer a concessão para a operação manual de uma guilhotina. Mas o imposto sobre o lucro que eu teria de pagar!

 

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Muitos têm o desejo de me matar. Muitos, o desejo de ter dois dedos de prosa comigo. Daqueles a lei me protege.

 

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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.