Lista de Poemas

É de bom tom não falar sobre uma má ação. Se um patife te confia a intenção de trair teu amigo, a discrição é uma questão de honra.

 

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A honra é o apêndice do organismo psíquico. Sua função é desconhecida, mas pode provocar inflamações. Nas pessoas inclinadas a se sentirem ofendidas, devemos extirpá-la sem receio.

 

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O cão é fiel, não há dúvida. Mas será por isso que devemos tomá-lo como exemplo? Afinal, ele é fiel ao homem e não ao cão.

 

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Nada é mais caro ao caixeiro do que sua palavra de honra. Comprando um lote grande, porém, há desconto.

 

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A estupidez também possui honra em suas veias, e inclusive se defende do escárnio com maior energia do que a baixeza se defende da censura. Pois esta sabe que a crítica tem razão; aquela, porém, se recusa a acreditar.

 

38

Com que soberania um imbecil trata o tempo! Ele simplesmente o mata. E o tempo tolera isso. Pois nunca ouvimos falar que o tempo tenha matado um imbecil.

 

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A religião, a moral e o patriotismo são sentimentos que só se manifestam quando feridos. Quando se diz de alguém que se ofende facilmente que ele “gosta” de se ofender, tal expressão está correta. Esses sentimentos nada amam tanto quanto serem magoados, e se revigoram a valer na queixa contra ateus, amorais e apátridas. Tirar o chapéu diante do ostensório não é de longe uma satisfação tão grande quanto arrancá-lo da cabeça daqueles que têm outra crença ou que são míopes.

 

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Nada é mais tacanho do que o chauvinismo ou o ódio racial. Para mim, todos os seres humanos são iguais; há idiotas em toda parte e tenho o mesmo desprezo por todos. Nada de preconceitos mesquinhos!

 

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Observe-se uma vez como os senhores respeitáveis cumprimentam uma mulher da qual “se fala”. No cumprimento se unem o orgulho reservado do pilar da sociedade e o olhar cúmplice, de conhecedor, do ajudante de feira. As duas coisas nos dão vontade de esganá-los.

 

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Maldita lei! A maioria de meus próximos é a triste consequência de um aborto não feito.

 

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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.