Lista de Poemas

Um bom estilista deve sentir o prazer de um Narciso durante seu trabalho. Ele deve ser capaz de objetivar sua obra de tal maneira que se surpreenda com um sentimento de inveja e somente pela memória se aperceba que ele próprio é o criador. Em suma, ele deve dar provas daquela objetividade suprema que o mundo chama de vaidade.

 

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O imitador segue os passos do original e espera que em algum momento o segredo da originalidade lhe seja revelado. Porém, quanto mais se aproxima dele, tanto mais se afasta da possibilidade de aproveitá-lo.

 

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A ideia de que uma obra de arte possa ser alimento para o apetite do filisteu me enche de pavor. Recuso-me a ser digerido pelo burguês. Mas ficar em seu estômago também não é tentador. O melhor, talvez, seja não se servir a ele de forma alguma.

 

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Vi um poeta correndo atrás de uma borboleta num gramado. Ele pôs a rede sobre um banco em que um garoto lia um livro. É uma infelicidade que normalmente seja o contrário.

 

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A receptividade do homem produtivo é pequena. O poeta que lê se torna suspeito.

 

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Para que um artista deveria compreender o outro? O Vesúvio aprecia o Etna? No máximo, poderia se estabelecer uma relação feminina de comparação invejosa: quem cospe melhor?

 

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Obras de arte são supérfluas. É necessário criá-las, é verdade, mas não é necessário mostrá-las. Quem possui arte em si não necessita da ocasião externa. Quem não a possui vê apenas a ocasião. A um o artista se impõe, ao outro se prostitui. Em ambos os casos, deveria se envergonhar.

 

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Uns acham isso belo, outros acham aquilo. Mas eles precisam “achá-lo”. Procurar ninguém quer.

 

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A crítica nem sempre demonstra sua perspicácia habitual; com frequência, ignora os fenômenos mais insignificantes.

 

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Um esnobe não é confiável. A obra que ele elogia pode ser boa.

 

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Karl Kraus nasceu em 1874, em Jičín, no então Império Austro-Húngaro. Sua obra é marcada por um profundo ceticismo em relação à sociedade, à política e à cultura de sua época. Foi um crítico implacável da imprensa, da guerra e da hipocrisia burguesa, utilizando um estilo aforístico e um humor corrosivo. Além de ensaios e artigos, escreveu peças de teatro e poemas. Sua influência se estendeu por diversas áreas, inspirando movimentos de vanguarda e pensadores posteriores. Morreu em Viena em 1936.