Luís António Cajazeira Ramos

Luís António Cajazeira Ramos

n. 1956 PT PT

Luís António Cajazeira Ramos, mais conhecido como Luiz Cajazeira, foi um poeta e professor brasileiro. Destacou-se na poesia contemporânea com uma obra marcada pela reflexão sobre a condição humana, a metalinguagem e a crítica social. Sua escrita, muitas vezes experimental, explorou novas formas de expressão poética, dialogando com a tradição literária e as inquietudes do mundo moderno. Cajazeira também teve uma atuação relevante no campo educacional, sendo reconhecido por sua contribuição para a formação de leitores e escritores.

n. 1956-08-12, Salvador · m. , Boston

24 513 Visualizações

Nunca Mais Serei Eu Mesmo

Cada último poema é o último, pois
nada há mais a dizer depois, pra nunca mais,
que sempre, se me entrego ao verso, é totalmente
— mais nada sobra em mim, vazado, mais que sempre.

Toda em cada verso, a poesia (que mistério)
nunca se esgota ou esvai, pois, com seu próprio lastro,
está pra sempre inteira, pronta a um novo verso
— e cada novo poema é o novo! ... e eu sou o resto.

Se me dou por inteiro, o que sobra de mim?
Se me fluí no verso, perdi-me de vez...
— vez que, na alma do verso, só está quem o lê.

Sendo assim (que destino, esse meu!), pra me ter,
devo ler-me a mim mesmo no verso que fiz
— eu, que tenho essa imensa poesia a viver!...

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Luís António Cajazeira Ramos, amplamente conhecido pelo pseudônimo Luiz Cajazeira, foi um poeta e professor brasileiro. Sua obra se insere no contexto da poesia contemporânea do Brasil. Escreveu primariamente em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação não são amplamente divulgadas, mas sabe-se que teve uma educação que o preparou para a carreira acadêmica e literária.

Percurso literário

Luiz Cajazeira iniciou sua trajetória literária como poeta, destacando-se em meados do século XX. Sua obra evoluiu explorando diferentes facetas da linguagem poética, com um percurso que reflete uma busca constante por novas formas de expressão. Participou ativamente de círculos literários, contribuindo para a difusão da poesia.

Obra, estilo e características literárias

Entre suas obras mais conhecidas estão "O Canto do Elefante" (1981) e "A Metamorfose do Tempo" (1997). Seus temas recorrentes incluem a reflexão sobre a condição humana, a passagem do tempo, a metalinguagem e a crítica social. Cajazeira utilizava frequentemente o verso livre e experimentava com a forma, buscando uma linguagem poética densa e imagética. Seu tom poético podia variar do lírico ao reflexivo, com uma voz que muitas vezes se projetava para o universal. A linguagem era marcada pela precisão e pela capacidade de evocar múltiplas leituras.

Contexto cultural e histórico

Viveu em um período de efervescência cultural e política no Brasil, o que se reflete em sua obra, especialmente em sua crítica social e reflexão sobre a identidade. Dialogou com outros escritores de sua geração, participando de movimentos literários que buscavam renovar a linguagem poética.

Vida pessoal

Além de poeta, Luiz Cajazeira dedicou-se ao magistério, exercendo a profissão de professor. Sua vida pessoal, embora não detalhadamente explorada publicamente, certamente influenciou sua visão de mundo e sua produção literária.

Reconhecimento e receção

Luiz Cajazeira obteve reconhecimento no meio literário brasileiro, sendo considerado um nome importante da poesia contemporânea. Sua obra foi estudada e apreciada por críticos e leitores, consolidando seu lugar na literatura do país.

Influências e legado

Sua poesia é influenciada por autores que exploraram a profundidade da linguagem e a reflexão existencial. Cajazeira, por sua vez, influenciou gerações posteriores de poetas com sua abordagem experimental e temática.

Interpretação e análise crítica

A obra de Cajazeira tem sido objeto de análises críticas que exploram suas camadas metalinguísticas e filosóficas. A reflexão sobre a temporalidade e a existência humana são pontos centrais em muitas interpretações.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Detentor de um pensamento aguçado sobre a linguagem, Cajazeira demonstrava um profundo apreço pela palavra escrita e pela sua capacidade de transformar a realidade.

Morte e memória

Informações sobre as circunstâncias de sua morte e publicações póstumas não são amplamente disponíveis.

Poemas

22

Nunca Mais Serei Eu Mesmo

Cada último poema é o último, pois
nada há mais a dizer depois, pra nunca mais,
que sempre, se me entrego ao verso, é totalmente
— mais nada sobra em mim, vazado, mais que sempre.

Toda em cada verso, a poesia (que mistério)
nunca se esgota ou esvai, pois, com seu próprio lastro,
está pra sempre inteira, pronta a um novo verso
— e cada novo poema é o novo! ... e eu sou o resto.

Se me dou por inteiro, o que sobra de mim?
Se me fluí no verso, perdi-me de vez...
— vez que, na alma do verso, só está quem o lê.

Sendo assim (que destino, esse meu!), pra me ter,
devo ler-me a mim mesmo no verso que fiz
— eu, que tenho essa imensa poesia a viver!...

1 145

O Canto do Cisne

Quando me vi no instante derradeiro,
a musa das vontades (ela existe!),
num tom que é quase sempre terno e triste,
ofereceu-me o último desejo.

Não sei dizer que brumas me envolveram
nas lembranças de amores que não tive.
Que saudade me deu!... Desde as raízes,
degredos mal guardados soergueram.

Momento de magia e plenitude,
fremi no ardor de lívidos enlevos;
meu sonho se elevou que a mais nem pude.

Qual desejo matar?... Qual liberdade?...
Ó musa maga! música sem medos!
Na dúvida, Beethoven-me! Vivaldi-me!

1 229

O Jogo das Contas de Vidro

Aos poetas que li.

Qual alvo tisne, a lua tinge a noite
em tons argênteos, grises, plúmbeos, brancos.
A escuridão se esquina e cinge os flancos,
mal traçando o recanto em que se acoite.

O luar, com mãos de seda, audácia e zelo,
retira à noite o véu que a cobre espúrio;
e ilumina, de lilás a purpúreo,
tudo o que ao sol vai do azul ao vermelho.

À lua, o chão rural é mais bucólico
e o mundo urbano é um tanto mais insólito
do que revelam ser à luz do sol?

Talvez... Assim, qual lua, sem luz própria,
do corpo da poesia o poeta é cópia
— sinal especulado do farol.

1 000

Deus e o Diabo

(no círculo vicioso da terra do sol)

Virou-se o diabo pra deus e disse:
— Quem sou eu, demônios! se não sou deus?
E deus, bondoso, respondeu, qual prece:
— Oh, céus! você é o que não quero meu.

O demo, esperto, retrucou, de pronto:
— Que não sou deus? que me fizeste resto
de ti? deixaste todo o mal pra mim?
Pronto, que o resto, em mim, te diminui.

Potência, ciência e presença, em ti,
não são totais, tu não és mais perfeito
... e fim de papo. E sumiu, a seu jeito.

Mas deus se arrependeu e, desde então,
corre atrás do diabo, feito um cão
caçando o rabo... (E o cão diz: — Nem te ligo!)

919

Quo Vadis?

Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.

O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.

Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...

Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...

759

Anátema

Vogo na idéia vaga e vã do eu,
como se houvesse em mim um ser e um cerne,
uma alma inominada, em corpo inerme,
amálgama de fiat lux et breu.

Mimo a mim mesmo com um mimoso engano:
que o mundo existe como um fato meu;
que a vida é a imagem de ilusório véu,
tecido por mim (fio) o mundo (pano).

Fio-me que penso e existo e assim sou algo;
desfio meus véus, em busca de meu âmago,
mas desconfio que apenas seja imago...

Meu sumo é um oco totem hamletiano.
Do imane e ameno cenho, emana a senha:
a senda é ser não sendo (ou seja eu sonho).

954

Na Véspera

... rasga-me o peito a chama murmurada.
Soares Feitosa

Os dragões da verdade e da mentira
(não de uma ou de outra: de ambas), diante o dia
do juízo final, em louca lira,
viram, na luz do fundo da bacia

da dor, em pedra e goma, em sombra e lume,
despido de semblante, indubitável,
vindo do mais recôndito improvável,
um corpo envolto em cúmulo: o ciúme.

Eram dragões de vasta peripécia:
de infeliz, um queimava a Capadócia;
de tristeza, um lavava o chão da Grécia.

No mar febril de lama transbordada,
sob os barris de júbilo da Escócia,
rasga-me o peito a chama murmurada.

934

Breu em Chamas

A não ser pelo fato de ser
meu melhor amigo, você
não me conhece. Ninguém me conhece.

Mas cê está tão perto!
Desde ontem que o olho há horas para sempre,
e você nem percebe o quanto estou distante...
eu dentro de meu próprio ventre.

São quilômetros de distâncias milimétricas
que nos separam,
eu e meu ventre,
do mais próximo sol poente de um olhar apaixonado.

E eu não vejo mais emoções
dentro de qualquer ventre,
pois o amor, pouco provável, esqueceu o caminho,
deitou em minha cama e dormiu,
fazendo uma fogueira de todas as minhas veleidades.

936

A Estrela de Davi

(salmo do bom pastor)

A estrela de Davi me ilumina
a cada entardecer, no crepúsculo,
quando há escuridão nas esquinas,
e a noite cai num véu que é só luto.

A estrela de que falo é do mar,
achada por Davi nas areias
onde ele se deitou, a sonhar
com as ondas que sopravam sereias.

O menino Davi, de quem falo,
é o bom filho de Sara. Tão raro
alguém ser bom assim: deu-me a estrela!

E a estrela de Davi me ilumina,
pois ela é tal e qual lamparina,
se lhe enfio dentro, acesa, uma vela.

1 603

Ai, Cais!

Ah, todo o cais é uma saudade de pedra!
Fernando Pessoa, in Ode Marítima
... o tempo (...) essa angústia máxima...
Soares Feitosa, dOs Poemas da Besta,
in Psi, a Penúltima.

Cais, saudade em pedra.
Zarpam lábios na memória.
Tempo: angústia máxima.

Para Soares Feitosa, zarpando do Salvador
ao Siarah, de volta-volta...

1 073

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.