A Estrela de Davi
(salmo do bom pastor)
A estrela de Davi me ilumina
a cada entardecer, no crepúsculo,
quando há escuridão nas esquinas,
e a noite cai num véu que é só luto.
A estrela de que falo é do mar,
achada por Davi nas areias
onde ele se deitou, a sonhar
com as ondas que sopravam sereias.
O menino Davi, de quem falo,
é o bom filho de Sara. Tão raro
alguém ser bom assim: deu-me a estrela!
E a estrela de Davi me ilumina,
pois ela é tal e qual lamparina,
se lhe enfio dentro, acesa, uma vela.
Entre o Sono e a Vigília
(soneto sonolento, ao dormir)
Na indolência do tempo, as horas morrem,
a madrugada avança seu crepúsculo,
um silêncio selvagem rasga o mundo,
e a vigília se abriga sob as pálpebras.
Um frio silente e aflito, quase um susto,
tão lépido quão lívido, perpassa,
que a imensidão do instante se revela,
e os abraços desfazem-se inconclusos.
Entre luzes e sombras vacilantes,
o assombro de mil séculos desvai-se,
e o espírito gazeia e se dissipa.
No espasmo mais recôndito do sonho,
o pássaro se furta da gaiola,
e o gato esconde o pulo entre almofadas.
Luz e Breu
(soneto sonolento, ao acordar)
Quando a luz da manhã penetra pelas fímbrias
da cortina, eu percebo a escuridão de tudo
sumindo pouco a pouco; em pouco tempo, o mundo
invade a solidão e rouba ao sonho a vida.
Quando a sombra de tudo assoma e expõe o corpo
e a mente ao modo cru, entre o sono e a vigília,
não há nada a versar, pois que já testa a língua
o amargo amanhecer para um poema roto.
Na sombra-e-luz do dia, a escuridão se abriga
sob os meus olhos, livre e plena de sentidos,
embora nem eu saiba o que isto significa.
À luz do dia, fecho os olhos, sonho e vejo:
se este verso pudesse, enfim, levar-me além
de mim, a escuridão saciaria o desejo.
Quo Vadis?
Amigos não resolvem minha solidão.
Amores não penetram em meu coração.
Assuntos não ocupam minha vastidão.
Nada na vida dá vazão a minha vida.
O leite derramado talha em desperdício.
O bicho aprisionado míngua em sacrifico
O passo compassado marcha ao precipício.
Tudo na vida é só senão a minha vida.
Enquanto abato o tronco e moldo a cruz dos ombros,
o mato toma conta do jardim dos sonhos.
Tanto na vida dá razão a minha morte! ...
Por quanto tempo um grito ecoa pelo vácuo?
Pra que defuntos faz sentido o fogo-fátuo?
Quanto na morte vale o vão de minha sorte? ...
Soneto Contemporâneo
Aos coeternos.
Penetra surdamente no reino das palavras,
que outro valor mais alto se alevanta.
Drummond/Camões
Que vem a ser fazer poesia de seu tempo?
Eu faço a do momento, a poesia de hoje.
Eu faço sempre hoje, pois meu tempo é hoje.
Toda a poesia é hoje, pois hoje é seu tempo.
Hoje é sempre o momento de fazer poesia.
Choveu hoje? faz sol hoje? que dia é hoje?
Meteorologia e calendário não, hoje.
Hoje não! Hoje é dia de fazer poesia.
De hoje que Camões é de hoje também!
Carlos Drummond de Andrade é de hoje também.
Todos são de hoje, destacados do tempo.
Não me venham com necessidade de ser
linguagem nova, tudo novo, tudo a ser,
pois na poesia estou destacado do tempo.
Poema Inédito
Canto de Sereia
A Propósito de Lágrima Súbita
Da face do prazer, surgiu a lágrima,
como se fora mágica o viver.
Do riso e da alegria, veio o pranto
— testemunha de um canto de poesia.
Mas hoje, tão sozinha e triste, a gota
singelamente solta, assim... caminha
por sobre o corpo nu, livre de obstáculo
— só dor! — sem sustentáculo nenhum...
Vem do mar uma brisa de carícia
que beija sem malícia a pele e criva
em sal a solidão deste mergulho...
No solitário pulo, uma fusão
de lágrimas do rio com o vasto mar,
num encontro invulgar de dor e cio...
Angústia Precipícia
Como posso estar só, se estou sempre comigo?
Minha ausência é a presença que tanto persigo.
Quero estar só, sem mim, pra não ter um motivo
pra tentar escapar do desgosto em que vivo.
Tenho lágrimas metafísicas — eu sei
que há muito que não choro, desde que gostei,
há pouco, quando alguém me disse que não vem
mais agora, e agora eu não quero mais ninguém.
Queria a solidão mais rústica e absorta,
como um coral num mar sem onda que o revolva
— e eu, sem jeito, sem fim, consumindo a revolta...
Revolta que é de mim, de estar preso a mim mesmo,
como um coral num mar sem fim — e eu, sem desejo,
sem revolta, sem nada que me traga apego.
Soneto Áspero
(poema augusto / poesia dos anjos)
Noite de natal, e o mundo é piedoso.
Eu, estou só, no quarto de dormir.
A intermitente (ano não, dia sim)
bondade e caridade é-me demais.
Um papai-noel pousou-me na sorte,
e eu lhe disse, então: — Buuh, você é um saco!
Todos são felizes (na solidão,
eu velo o fim da neve de algodão).
Cheguei até aqui vivo — não sei
se sou melhor ou sou pior por isso.
Apenas, eu cheguei. De qualquer jeito,
hoje sei se ontem amei: não amei.
Burocraticamente, amei amém.
(Nisso, cheguei ao limite do spray.)
Memórias da Casa dos Mortos
Mais parece um túmulo esse meu corpo de pedra.
Túmulo de tantas sensações.
Pedra sem vida — pedra.
Mais parece um túmulo esse meu coração de pedra.
Túmulo de tantas paixões.
Pedra sem amor — pétrea.
Mais parece um túmulo esse meu espírito de pedra.
Túmulo de tantas idéias.
Pedra sem razão — petrificada.
Em visita a esse cemitério de jazigos e lápides,
levei uma pedrada,
e o único sangue possível foi
a palavra.
Soneto Patético
Acordo para um mundo novo no jornal.
Notícias junto ao hálito acre da manhã.
Espreguiçadamente explode a realidade.
O sonho se desfaz nas cores do papel.
Refaço o mundo com exercício matinal.
Lavo os dentes, sorrio, a vida fica sã.
Precipito-me às ruas e ganho a cidade.
Refugio-me no trabalho — há paz como um véu.
As horas vão... e a tarde cinza fica escura.
O dia chega compassadamente ao fim.
A vida, que gritava, agora só murmura.
Tranco-me em casa, e o mundo sangra na TV.
Sangue do meu sangue, tudo se esvai. Enfim,
durmo, não sei quem te viu, não sei quem me vê.