Malangatana Valente Ngwenya

Malangatana Valente Ngwenya

1936–2011 · viveu 74 anos MZ MZ

Malangatana Valente Ngwenya foi um proeminente artista plástico e poeta moçambicano, conhecido pela sua obra vibrante e multifacetada que explora as raízes culturais, a história de Moçambique e as lutas do seu povo. As suas pinturas, esculturas e poemas são marcados por uma forte expressividade, cores intensas e figuras estilizadas que evocam a espiritualidade, a ancestralidade e a realidade social. Malangatana dedicou a sua vida à arte como forma de expressão e intervenção, tornando-se um ícone cultural de Moçambique.

n. 1936-06-06, Marracuene · m. 2011-01-05, Matosinhos

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Pensar alto

Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar

fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra


mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer

mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor

enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Malangatana Valente Ngwenya, conhecido artisticamente como Malangatana, foi um pintor, escultor e poeta moçambicano. Nasceu em 6 de junho de 1936 e faleceu em 5 de janeiro de 2011. Filho de um trabalhador agrícola, cresceu num ambiente rural e humilde em Moçambique, então colónia portuguesa.

Infância e formação

A sua infância foi marcada pela pobreza e pelas dificuldades inerentes ao contexto colonial. A sua educação formal foi limitada, mas desde cedo demonstrou um talento natural para o desenho e a arte. Foi descoberto pelo artista espanhol Pancho Amado e pela crítica de arte moçambicana, que o incentivaram e apoiaram o seu desenvolvimento artístico. Absorveu influências da arte tradicional africana, da cultura macua e dos movimentos artísticos que lhe foram apresentados.

Percurso literário

Paralelamente à sua carreira nas artes plásticas, Malangatana desenvolveu uma obra poética significativa. Os seus poemas, tal como as suas pinturas, expressam a sua ligação à terra, à cultura moçambicana e às suas experiências de vida. A sua escrita reflete uma profunda sensibilidade e um forte sentido de identidade.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Malangatana, tanto nas artes plásticas como na poesia, é caracterizada por uma força expressiva notável. As suas pinturas são conhecidas pelas cores vibrantes, figuras antropomórficas e zoomórficas estilizadas, e pela exploração de temas como a mitologia, a luta pela liberdade, a espiritualidade e a vida quotidiana em Moçambique. O seu estilo é muitas vezes descrito como surrealista ou expressionista africano. Na poesia, utiliza uma linguagem direta e evocativa, abordando a ancestralidade, a natureza, a dor e a esperança.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Malangatana viveu e produziu a sua obra num período crucial da história de Moçambique, incluindo o período colonial, a luta pela independência e os anos pós-independência. A sua arte reflete as transformações sociais e políticas do país, o seu legado colonial e a busca por uma identidade nacional. Foi um artista profundamente ligado ao seu tempo e à sua terra, e a sua obra é um testemunho vivo da cultura moçambicana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Malangatana foi um defensor ativo da cultura moçambicana e um embaixador artístico do seu país. A sua vida foi dedicada à arte e à promoção da identidade cultural moçambicana. As suas experiências pessoais e a sua profunda ligação com o povo moçambicano moldaram a sua visão artística e poética.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Malangatana alcançou reconhecimento internacional pela sua obra artística. Exibiu as suas pinturas em diversas galerias e museus pelo mundo, recebendo inúmeros prémios e distinções. É considerado um dos mais importantes artistas africanos do século XX e um símbolo da arte moçambicana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Malangatana foi influenciado pela arte tradicional africana, pelas culturas locais e por movimentos artísticos internacionais. O seu legado é imenso, tendo inspirado gerações de artistas em Moçambique e em África. Contribuiu significativamente para a afirmação da arte africana no cenário mundial.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Malangatana tem sido analisada sob diversas perspetivas, destacando-se a sua capacidade de fundir elementos tradicionais com uma linguagem artística moderna, a sua crítica social implícita e a sua representação da alma moçambicana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Malangatana também trabalhou em projetos comunitários e de educação artística, acreditando no poder transformador da arte. A sua vasta produção artística inclui também murais e tapeçarias.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Malangatana Valente Ngwenya faleceu em 2011, deixando um vasto legado artístico e cultural. A sua memória é celebrada em Moçambique e internacionalmente como um dos maiores expoentes da arte africana contemporânea.

Poemas

4

Pensar alto

Sim
às marrabentas
às danças rituais
que nas madrugadas
criam o frenesi
quando os tambores e as flautas entram a fanfarrar

fanfarrando até o vermelho da madrugada fazer o solo sangrar
em contraste com o verdurar das canções dos pássaros
sobre o já verduzido manto das mangueiras
dos cajueiros prenhes
para em Dezembro seus rebentos
dançarem como mulheres sensualíssimas
em cada ramo do cajual da minha terra


mas, sim ao orgasmo
das mafurreiras
repletas de chiricos
das rolas ciosas pela simbiose que só a natureza sabe oferecer

mas sim
ao som estridente do kulunguana
das donzelas no zig-zague dos ritos
quando as gazelas tão belas
não suportam mais quarenta graus à sombra dos canhueiros em flor

enquanto as oleiras da aldeia, desta grande aldeia Moçambique
amassam o barro dos rios
para o pote feito ser o depositário
de todo o íntimo desse Povo que se não cala disputando
ecoosamente com os tambores do meu ontem antigo.
2 674

A mamã preocupada

Nos teus braços eu fiquei
quando me nasceste muito preocupada
quem estava aflita
naquela altura perigosa
com o receio de que Deus me vai levar?

Tudo em silêncio olhava
para ver se o parto corria bem
tudo lavava as mãos
para poder receber quem vinha dos Céus
e toda a mulher quieta e aflita

Mas quando afastei-me
do lugar em que me guardaste durante longo tempo
dei logo o primeiro respiro
tu gritaste logo de alegria
o primeiro beijo foi o da Avó

Que levou-me logo para o lugar
que me guardaram e é secreto
tudo foi proibido a entrar no meu quarto
porque tudo cheirava mal
e eu todo fresco, fresco
respirava finalmente dentro das minhas fraldas

Mas a Avó que se supunha doida
estava sempre ao meu lado
ver-me e rever-me sempre
porque as moscas vinham ter comigo
e os mosquitos inquietavam-me
Deus que revia-me também
era o amigo da minha Avó velhinha
1 839

Amor Verde

Porque o amor não é sempre verde
que bom quando verde é
nem quero que mudes de cor
ó amor verde, verde, verde
ele é tão bom, bom, bom

Na cama quando passei a primeira noite
senti-me feliz quando corria dentro dela
a lágrima que nos fez amigos infinitos
porque dela veio quem nos chama: Papá e Mamã
o nosso primeiro filho, tão lindo, lindo.
2 146

A Coruja

A coruja agoira-me
e diz-me que nunca chegarei
além onde o desejo me leva
e assim evapora-se o sonho;

O tambor foi tocado
na noite densa do feitiço
enquanto Kokwana* Muhlonga
apitava o Kulungwana* mortal;

Na noite sem estrelas
dois gatos pretos iluminaram
a cabana da Kokwana Hehlise
que morreu depois dos gatos terem miado.

Eu lutando comigo só
é impossível vencer as ondas
que feitiçeiramente me esboçam
as corujas, gatos e tambores.
2 356

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Eufrania
Eufrania

Excelente ajuda