Noémia de Sousa

Noémia de Sousa

1926–2002 · viveu 76 anos MZ MZ

Noémia de Sousa é uma das vozes mais importantes da poesia moçambicana e africana de língua portuguesa. Sua obra, fortemente marcada pela experiência do colonialismo, pela identidade moçambicana e pela condição da mulher negra, expressa um profundo sentimento de revolta, amor pela terra e desejo de liberdade. Com uma linguagem direta e emotiva, ela deu voz a temas sociais e existenciais, tornando-se um símbolo da resistência e da busca por autodeterminação.

n. 1926-09-20, Distrito Municipal de KaTembe · m. 2002-12-04, Cascais

84 582 Visualizações

Negra

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Noémia Gonçalves Pereira de Sousa **Data e local de nascimento:** 25 de novembro de 1926, Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique **Data e local de morte:** 4 de dezembro de 2002, Cascais, Portugal **Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem:** Filha de pai moçambicano (de ascendência africana e europeia) e mãe portuguesa, cresceu numa sociedade colonial marcada pela segregação racial e pela desigualdade social. Essa dualidade familiar e a vivência da opressão colonial moldaram profundamente sua identidade e sua obra. **Nacionalidade e língua(s) de escrita:** Moçambicana, escreveu em português. **Contexto histórico em que viveu:** Viveu o período colonial português em Moçambique, a luta pela independência do país (que ocorreu em 1975) e os anos posteriores à libertação. Sua obra reflete as tensões e as aspirações desse período histórico.

Infância e formação

**Origem familiar e ambiente social:** Cresceu em um ambiente onde as diferenças raciais e sociais eram palpáveis. Sua origem mestiça a colocou em uma posição singular, permitindo-lhe observar as dinâmicas coloniais com uma perspectiva crítica. **Educação formal e autodidatismo:** Frequentou o Liceu Salazar, em Lourenço Marques. Sua formação literária foi enriquecida pela leitura de autores africanos, portugueses e brasileiros, além de sua própria sensibilidade e vivência. **Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política):** Influenciada pela poesia de amor e de protesto, e pela necessidade de afirmar a identidade moçambicana. Autores como Oswald de Andrade e a poesia negra brasileira também podem ter sido fontes de inspiração. A atmosfera de efervescência política e cultural que precedeu a independência de Moçambique foi crucial. **Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu:** Ligada ao movimento da "Mensagem" e a outras manifestações culturais que buscavam a afirmação da identidade africana e a luta contra o colonialismo. Sua obra dialoga com o que viria a ser a literatura de protesto africana e com as discussões sobre negritude. **Eventos marcantes na juventude:** A vivência da opressão colonial, o despertar da consciência política e a efervescência cultural que culminariam na luta pela independência.

Percurso literário

**Início da escrita (quando e como começou):** Começou a escrever poesia ainda jovem, em meados da década de 1940, como forma de expressar seus sentimentos sobre a terra natal, a condição do povo moçambicano e a injustiça do sistema colonial. **Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo):** Sua poesia, embora consistente em seu tom de protesto e amor pela terra, evoluiu da expressão mais lírica e individual para uma voz coletiva e engajada, refletindo as lutas sociais e políticas de Moçambique. **Evolução cronológica da obra:** Sua produção poética concentra-se principalmente entre as décadas de 1940 e 1950. Seu primeiro e único livro publicado em vida, "Sangue Negro", saiu em 1951. Muitos poemas foram divulgados em jornais e revistas e posteriormente em antologias. **Colaborações em revistas, jornais e antologias:** Publicou poemas em jornais como "Notícias" e "Diário de Moçambique", além de revistas literárias e culturais, tanto em Moçambique quanto em Portugal. Sua obra foi incluída em importantes antologias de poesia africana e moçambicana. **Atividade como crítico, tradutor ou editor:** Não se dedicou proeminentemente a essas atividades, focando sua produção na poesia.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais com datas e contexto de produção:** - "Sangue Negro" (1951): Seu único livro publicado em vida, um marco da poesia moçambicana, reunindo poemas de forte teor lírico e de protesto social. **Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, pátria, espiritualidade, etc.:** O amor pela terra moçambicana (a "terra-mãe"), a identidade africana e moçambicana, a revolta contra o colonialismo e a opressão racial, a condição da mulher, a saudade da terra natal (durante seu exílio), a busca pela liberdade e pela dignidade humana. **Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica:** Utilizou predominantemente o verso livre, permitindo uma maior espontaneidade e expressividade. Sua estrutura poética é marcada pela força do discurso e pela clareza das imagens. **Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade):** Emprego de metáforas fortes e imagens impactantes (como "sangue negro", "chão batido", "pátria ausente"). O ritmo é muitas vezes vigoroso e com sonoridade que remete à oralidade africana, ao passo que a musicalidade surge da cadência e da emoção. **Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional:** Predominantemente lírico e confessional em suas expressões de amor e saudade, e revoltado e de protesto em seus poemas de denúncia social. Há um tom épico na defesa da pátria e da liberdade. **Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.):** Sua voz é profundamente pessoal, mas ao expressar as dores e aspirações de seu povo, torna-se universal. É uma voz que se ergue contra a injustiça e em defesa da dignidade. **Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos:** Linguagem direta, apaixonada e emotiva. Vocabulário que mescla termos cotidianos com uma rica imagética ligada à terra e à cultura moçambicana. Recursos como a enumeração, a apóstrofe e a antítese são utilizados para reforçar a força do seu discurso. **Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura:** Introduziu a perspectiva da mulher moçambicana e da mestiçagem na poesia de protesto, trazendo uma voz singular para as discussões sobre identidade e colonialismo. **Relação com a tradição e com a modernidade:** Sua obra é um marco de transição entre a poesia lírica mais tradicional e a poesia de intervenção social, fundindo lirismo com engajamento político e cultural, em sintonia com as aspirações modernas de emancipação. **Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo):** Poesia de protesto africana, poesia de afirmação da negritude. **Obras menos conhecidas ou inéditas:** Muitos poemas foram publicados em jornais e antologias e, embora não reunidos em livros, circulam e são referenciados.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico **Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes):** Sua obra é um reflexo direto do período colonial, da luta pela independência e das tensões raciais e sociais em Moçambique. Ela deu voz às aspirações de liberdade do povo moçambicano. **Relação com outros escritores ou círculos literários:** Convivência e intercâmbio com outros escritores e intelectuais que buscavam a afirmação da identidade moçambicana, como o poeta Rui de Noronha, o escritor Chico d'Assis e o pintor Chissano. Esteve ligada à revista "Moçambique". **Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo):** Considerada parte da "Geração de 50" ou do grupo de escritores que impulsionaram a literatura de intervenção em Moçambique. **Posição política ou filosófica:** Posicionou-se firmemente contra o colonialismo e a favor da independência de Moçambique. Defendeu a igualdade racial e a dignidade humana. **Influência da sociedade e cultura na obra:** A sociedade colonial, a cultura moçambicana, as paisagens, os costumes e as injustiças sociais são a matéria-prima de sua poesia. **Diálogos e tensões com contemporâneos:** Dialogou com poetas e escritores que compartilhavam o desejo de afirmar a identidade moçambicana, mas sua voz se distinguiu pela força lírica e pela perspectiva feminina. **Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo:** Teve reconhecimento em vida, especialmente com "Sangue Negro", que se tornou um livro de referência. O reconhecimento póstumo consolidou sua importância como precursora da literatura moçambicana moderna e como uma voz fundamental na literatura africana de língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal **Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra:** A relação com sua terra natal e com seu povo foi o motor principal de sua poesia. O exílio forçado intensificou seus sentimentos de saudade e de identidade. **Amizades e rivalidades literárias:** Manteve amizades com outros intelectuais moçambicanos da época, compartilhando anseios culturais e políticos. **Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos:** O exílio em Portugal, após 1950, foi uma experiência marcante, vivida com profunda saudade da terra natal. A perda da cidadania moçambicana também foi um golpe. **Profissões paralelas (se não viveu só da poesia):** Trabalhou como jornalista e funcionária pública. **Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas:** Sua obra revela uma profunda espiritualidade ligada à terra e à ancestralidade, mais imanente do que transcendente. **Posições políticas e envolvimento cívico:** Foi uma defensora ativa dos direitos humanos e da causa da independência de Moçambique, participando ativamente do movimento cultural e político.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção **Lugar na literatura nacional e internacional:** É uma das figuras centrais da literatura moçambicana moderna e uma referência na poesia africana de língua portuguesa. **Prémios, distinções e reconhecimento institucional:** Recebeu diversas homenagens e condecorações, especialmente após a independência de Moçambique, e a sua obra é amplamente reconhecida pela crítica e pelo meio académico. **Receção crítica na época e ao longo do tempo:** "Sangue Negro" foi um sucesso em sua época, elogiado pela força poética e pelo engajamento social. A crítica posterior a consolidou como obra fundadora da literatura moçambicana. **Popularidade vs reconhecimento académico:** É popular entre leitores que buscam poesia com forte conteúdo social e identidade moçambicana, e é figura de estudo obrigatório em cursos de literatura africana e moçambicana.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado **Autores que o influenciaram:** Autores da poesia de protesto, da negritude, e escritores que abordaram a temática da identidade africana e da luta anticolonial. **Poetas e movimentos que influenciou:** Influenciou gerações de poetas moçambicanos e africanos que encontraram em sua obra um modelo de expressão da identidade e de luta pela liberdade. É considerada uma precursora da literatura moçambicana moderna. **Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas:** Seu impacto na literatura moçambicana é inegável, abrindo caminho para novas vozes e temáticas. Sua poesia de protesto e sua afirmação identitária ecoaram por outros países lusófonos e africanos. **Entrada no cânone literário:** Figura consolidada no cânone da literatura moçambicana e africana de língua portuguesa. **Traduções e difusão internacional:** Sua obra "Sangue Negro" foi traduzida para diversas línguas, alcançando um público internacional. **Adaptações (música, teatro, cinema):** Alguns de seus poemas foram musicados e sua obra tem sido objeto de estudos e performances artísticas. **Estudos académicos dedicados à obra:** Inúmeros estudos analisam sua poesia, sua relação com o contexto histórico-social, sua temática e sua importância como voz feminina e africana.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica **Leituras possíveis da obra:** A obra de Noémia de Sousa pode ser lida como um grito de liberdade, uma ode à terra natal, um manifesto feminista africano, ou uma meditação sobre a identidade em um contexto de opressão colonial. **Temas filosóficos e existenciais:** A busca pela identidade em um contexto de hibridismo cultural e racial; a dor da separação da pátria; a força da esperança em meio à adversidade; a afirmação da dignidade humana e africana. **Controvérsias ou debates críticos:** O debate sobre sua posição como mulher mestiça na poesia de protesto e sua relação com a diáspora africana são temas recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos **Aspetos menos conhecidos da personalidade:** Apesar da força de seu protesto poético, Noémia de Sousa era descrita como uma pessoa com uma sensibilidade profunda e um amor imenso pela sua terra. **Contradições entre vida e obra:** A vivência do exílio e a saudade da pátria, que marcaram sua vida, alimentaram a força e a autenticidade de sua poesia sobre a terra moçambicana. **Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor:** Sua decisão de publicar "Sangue Negro" em Portugal, por não haver condições editoriais em Moçambique, reflete as dificuldades do período colonial para os artistas locais. **Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética:** A paisagem de Moçambique, o mar, as cores da terra, os sons e os cheiros de sua infância. A escrita era seu refúgio e sua forma de resistência. **Hábitos de escrita:** Escrevia com paixão e urgência, impulsionada pela necessidade de dar voz aos sentimentos reprimidos pela opressão. **Episódios curiosos:** A saudade de Moçambique foi tão intensa que ela descreveu em seus poemas lugares e sensações que guardava na memória, recriando o ambiente de sua terra natal. **Manuscritos, diários ou correspondência:** Sua correspondência, especialmente com outros escritores e ativistas culturais, revela a amplitude de suas conexões e seu engajamento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória **Circunstâncias da morte:** Faleceu em Cascais, Portugal, em 2002. **Publicações póstumas:** Sua obra completa, incluindo poemas inéditos ou dispersos, tem sido objeto de edições e estudos póstumos, reafirmando seu legado.

Poemas

9

Negra

Gentes estranhas com seus olhos cheios doutros mundos
quiseram cantar teus encantos
para elas só de mistérios profundos,
de delírios e feitiçarias...
Teus encantos profundos de Africa.

Mas não puderam.
Em seus formais e rendilhados cantos,
ausentes de emoção e sinceridade,
quedas-te longínqua, inatingível,
virgem de contactos mais fundos.
E te mascararam de esfinge de ébano, amante sensual,
jarra etrusca, exotismo tropical,
demência, atracção, crueldade,
animalidade, magia...
e não sabemos quantas outras palavras vistosas e vazias.

Em seus formais cantos rendilhados
foste tudo, negra...
menos tu.

E ainda bem.
Ainda bem que nos deixaram a nós,
do mesmo sangue, mesmos nervos, carne, alma,
sofrimento,
a glória única e sentida de te cantar
com emoção verdadeira e radical,
a glória comovida de te cantar, toda amassada,
moldada, vazada nesta sílaba imensa e luminosa: MÃE

13 987

Moças das Docas

Somos fugitivas de todos os bairros de zinco e caniço.
Fugitivas das Munhuanas e dos Xipamanines,
viemos do outro lado da cidade
com nossos olhos espantados,
nossas almas trançadas,
nossos corpos submissos e escancarados.
De mãos ávidas e vazias,
de ancas bamboleantes lâmpadas vermelhas se acendendo,
de corações amarrados de repulsa,
descemos atraídas pelas luzes da cidade,
acenando convites aliciantes
como sinais luminosos na noite.

Viemos ...
Fugitivas dos telhados de zinco pingando cacimba,
do sem sabor do caril de amendoim quotidiano,
do doer espáduas todo o dia vergadas
sobre sedas que outras exibirão,
dos vestidos desbotados de chita,
da certeza terrível do dia de amanhã
retrato fiel do que passou,
sem uma pincelada verde forte
falando de esperança.
(Excerto)

10 450

Magaíça

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.

Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualque City.
10 837

Magaíça 

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando,
oh nhanisse, voltou,
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.

Às costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
à cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone.

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.

.
.
.
2 859

Teias da memória

Na baça melancolia do tecto
bilros de teia bordam solidão
enquanto meigos sussurros de sombra
no brilhante mutismo do espelho
recitam estrofes de poeira.

3 395

Aforismo

Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.

4 211

A minha dor

Dói
a mesmíssima angústia
nas almas dos nossos corpos
perto e à distância.
E o preto que gritou
é a dor que se não vendeu
nem na hora do sol perdido
nos muros da cadeia.
5 461

Grão d'areia

Um só ínfimo grão d'areia
nunca imaginei
pesar tanto.

--------------

eu depondo
no clássico ritual
sobre o nosso adeus
constrangidos torrões
a mancheias.

3 078

Te Deum

Opressiva
a inquietude
no carrilar dos bronzes.

Libreto
de mil cactos
em mudo refrão dos desertos.

Dobre
de sinos
em solene Te Deum
de graças pela Maria.

2 464

Videos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Anacleto
Anacleto

com toda gentiliza e respei