Manuel António Pina

Manuel António Pina

1943–2012 · viveu 68 anos PT PT

Manuel António Pina foi um poeta, escritor, dramaturgo e ensaísta português, figura proeminente da literatura contemporânea. Sua obra, caracterizada pela simplicidade aparente, profundidade filosófica e um olhar aguçado sobre a condição humana, explora temas como a infância, a memória, a linguagem e a transcendência. Reconhecido pela sua originalidade e pela sua capacidade de reinventar a forma poética, Pina deixou um legado significativo, marcado pela reflexão sobre a existência e a arte de escrever.

n. 1943-11-18, Sabugal · m. 2012-10-19, Porto

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O pássaro da cabeça (versos para crianças)

Sou o pássaro que canta
dentro da tua cabeça
que canta na tua garganta
canta onde lhe apeteça

Sou o pássaro que voa
dentro do teu coração
e do de qualquer pessoa
mesmo as que julgas que não

Sou o pássaro da imaginação
que voa até na prisão
e canta por tudo e por nada
mesmo com a boca fechada

E esta é a canção sem razão
que não serve para mais nada
senão para ser cantada
quando os amigos se vão

e ficas de novo sozinho
na solidão que começa
apenas com o passarinho
dentro da tua cabeça.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Manuel António Pina nasceu em Coimbra, Portugal, em 18 de novembro de 1943, e faleceu na mesma cidade em 19 de outubro de 2012. É amplamente reconhecido como um dos mais importantes poetas portugueses da segunda metade do século XX, com uma obra multifacetada que inclui poesia, prosa, teatro e ensaio. Pertenceu a uma geração de escritores que, após o período do Modernismo e do Neorrealismo, buscaram novas formas de expressão poética e narrativa, dialogando com a tradição e a contemporaneidade.

Infância e formação

Manuel António Pina teve uma infância em Coimbra, cidade que marcou profundamente a sua obra e a sua identidade. Frequentou o Colégio das Caldinhas e, posteriormente, estudou Direito na Universidade de Coimbra, embora não tenha concluído o curso. A sua formação foi rica em leituras diversas, abrangendo literatura, filosofia e artes visuais. O ambiente intelectual de Coimbra, com a sua história e tradição, exerceu uma influência decisiva sobre a sua sensibilidade e visão de mundo, evidenciada desde cedo na sua produção literária.

Percurso literário

O percurso literário de Manuel António Pina iniciou-se formalmente na década de 1970, com a publicação de "Odxáleq'a" (1971). Contudo, a sua obra ganhou maior visibilidade e reconhecimento a partir dos anos 1980, com a publicação de livros como "A Louva-a-Deus" (1980) e "Ter Lugares" (1982). Pina desenvolveu uma carreira singular, marcada pela produção consistente e pela experimentação contínua. Além de poeta, foi dramaturgo, tendo colaborado com o Teatro O Bando, e ensaísta, refletindo sobre a linguagem, a criação e a literatura. A sua obra evoluiu para uma maturidade estilística que o tornou uma referência inquestionável.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Manuel António Pina é marcada por uma profunda reflexão sobre a linguagem, a memória, a infância, a cidade e a própria condição de ser. A sua poesia é frequentemente descrita como de "simplicidade aparente", mas de grande densidade conceptual e emocional. Utilizou frequentemente o verso livre, com uma musicalidade subtil e um ritmo cadenciado, e explorou a prosa poética com grande maestria. Temas como a inocência perdida, a transitoriedade do tempo, a busca por um sentido e a relação entre o real e o imaginário são recorrentes. A sua linguagem é precisa, lírica e, por vezes, fragmentada, refletindo uma visão complexa da existência. O seu estilo é inconfundível, evocando um tom confessional e, ao mesmo tempo, universal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Manuel António Pina viveu e produziu a maior parte da sua obra após o 25 de Abril de 1974, num Portugal em transição democrática. O seu trabalho dialoga com as inquietações de uma sociedade que buscava novas identidades e formas de expressão. Ele integrou-se num grupo de escritores que, afastados de grandes manifestos, optaram por uma investigação mais íntima e formal da linguagem e da experiência. Sua obra é um reflexo das transformações culturais e existenciais do final do século XX e início do XXI.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Manuel António Pina manteve uma ligação profunda com a cidade de Coimbra, onde viveu e trabalhou grande parte da sua vida. A sua discrição quanto à vida privada era notória, mas as suas relações pessoais e familiares, bem como as experiências vividas, transparecem na sua obra, muitas vezes de forma subtil. A sua dedicação à escrita e à reflexão sobre a arte foram centrais na sua existência. Não há registos de grandes controvérsias na sua vida pessoal, mas sim de uma dedicação intensa ao ofício literário.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Manuel António Pina recebeu diversos prémios e distinções ao longo da sua carreira, tanto em Portugal como no estrangeiro, atestando o reconhecimento da sua obra. Destacam-se o Prémio da Associação Portuguesa de Escritores (APE) e o Prémio Camões em 2011, o mais prestigiado galardão da língua portuguesa. A sua receção crítica tem sido consistentemente elogiosa, valorizando a originalidade, a profundidade e a qualidade estética da sua poesia. É considerado um dos poetas fundamentais da literatura portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências em Manuel António Pina são diversas, incluindo poetas como Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Walt Whitman, e a tradição literária portuguesa em geral. O seu legado é marcado pela renovação da linguagem poética, pela profundidade das suas reflexões sobre a existência e pela sua capacidade de transmitir uma visão única do mundo. Influenciou uma geração de poetas e escritores pela sua autenticidade e pela sua exploração das potencialidades da palavra. A sua obra continua a ser objeto de estudo e admiração, consolidando o seu lugar no cânone da literatura em língua portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Manuel António Pina convida a múltiplas leituras, explorando a relação entre o tempo e a memória, a efemeridade da vida e a permanência da arte. As análises críticas destacam a sua capacidade de articular o quotidiano com o transcendente, o concreto com o abstrato. A linguagem, em si, é um tema central, sendo questionada e reinventada nos seus poemas. As interpretações filosóficas da sua obra frequentemente abordam a busca por sentido num mundo fragmentado, a importância da infância como estado primordial e a essência da criação artística.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto interessante da obra de Pina é a sua relação com a infância, vista não apenas como um período da vida, mas como uma dimensão da consciência. A sua forma de escrever, por vezes fragmentada e com um tom quase coloquial, escondia uma profunda laboração formal e conceptual. Os seus ensaios sobre a escrita são igualmente reveladores da sua forma de pensar a arte. Os seus diários e correspondência, se existirem em grande volume, poderiam oferecer mais insights sobre o seu processo criativo e a sua personalidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Manuel António Pina faleceu em 2012, após uma longa doença. A sua morte deixou um vazio na literatura portuguesa, mas o seu legado poético e literário permanece vivo. As suas obras continuam a ser lidas, estudadas e celebradas, confirmando a sua importância na história da literatura em língua portuguesa. Publicações póstumas e edições críticas da sua obra continuam a surgir, assegurando a preservação e a difusão do seu trabalho para as futuras gerações.

Poemas

98

Escrito de memória

1. Um pequeno depósito de incredulidade
no fundo dos teus olhos.

2. Um breve estremecimento no movimento
do coração (do meu coração).

3. A impressão de alguém olhando-
te atrás de ti.

4. Uma voz familiar
num sítio cheio de gente.
(que só tu ouves dentro de ti).

5. Um súbito silêncio entre as
sílabas de certas palavras
que fica depois a pairar perto dos lábios.

6. A ignorância de alguma coisa
que ainda não sabes que não sabes.

7. Uma palavra só, aguardando,
uma palavra que basta dizer ou não dizer,
abrindo caminho entre ser e possibilidade.

8. O que não sou capaz de dizer dizendo-me.

9. Eu (um lugar vazio) para sempre; tu para sempre.

10. Outras duas pessoas
de que outras duas pessoas se lembram.

11. Esse país estrangeiro, o tempo.
1 569

Na biblioteca

O que não pode ser dito
guarda um silêncio feito
de primeiras palavras
diante do poema, que chega sempre demasiado tarde,

quando já a incerteza
e o medo se consomem
em metros alexandrinos.
Na biblioteca, em cada livro,

em cada página sobre si
recolhida, às horas mortas em que
a casa se recolheu também
virada para o lado de dentro,

as palavras dormem talvez,
sílaba a sílaba,
o sono cego que dormiram as coisas
antes da chegada dos deuses.

Aí, onde não alcançam nem o poeta
nem a leitura,
o poema está só.
E, incapaz de suportar sozinho a vida, canta.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 181 | Assírio & Alvim, 2012
2 640

Lugares da infância

Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.

Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?

Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.

O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.

Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.

A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.

Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.

E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.
2 538

O lado de fora

Eu não procuro nada em ti,
nem a mim próprio, é algo em ti
que procura algo em ti
no labirinto dos meus pensamentos.

Eu estou entre ti e ti,
a minha vida, os meus sentidos
(principalmente os meus sentidos)
toldam de sombras o teu rosto.

O meu rosto não reflecte a tua imagem
o meu silêncio não te deixa falar,
o meu corpo não deixa que se juntem
as partes dispersas de ti em mim.

Eu sou talvez
aquele que procuras,
e as minhas dúvidas a tua voz
chamando do fundo do meu coração.
1 711

O quarto

Quem te pôs a mão no ombro,
a faca que te atravessou o coração,
são feridas alheias, talvez algo que leste;
entretanto partiste
para lugares menos iluminados
e corações menos vulneráveis,
pode perguntar-se é o que fazes ainda aqui
se já cá não estás.
A hora havia de chegar em que
nos perderíamos um do outro.
E acabaríamos necessariamente assim,
mortos inventariando mortos.
Morrer, porém, não é fácil,
ficam sombras nem sequer as nossas,
e a nossa voz fala-nos
numa língua estrangeira.
Apaga a luz e vira-te para o outro lado
e acorda amanhã como novo,
barba impecavelmente feita,
o dia um sonho sólido onde a noite se limpa e se deita.
2 399

A mensagem do teu

A mensagem do teu lábio superior

salta bip o parapeito que nos separa

e habita urgentemente nos meus olhos

e repetidamente e urgentemente convoca os meus olhos

para a saudade publicada na tua cara

com slogans de néon interior

Sei que sabes uma palavra indecente

e que tens vergonha dela como se essa palavra fosse

a tua roupa de dentro


Sei o que pensas sei o que fazes

sei coisas que tu mesma não sabes

Sabes, por exemplo, que estás noiva? E que o malandrim

afinal de contas é sargento de infantaria?

Mas deixa lá homens é o que há mais

E (sabes?) os oficiais


O morse lábio bip bip noticia:

ATENÇÃO ATENÇÃO ESTOU QUASE SOZINHA

E sei pormenores da tua respiração

concretos, fotografias



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 51 | Assírio & Alvim, 2012

1 237

Se falo

Se falo falta-me um

silêncio rápido no papel: entre as pernas.

Oh, nesse lugar me comovo! Perverso percurso

do corpo, aqui é a cama, o congresso.


Venais movimentos do corpo na cama; o peso.

Eu falo de mais. Não tenho palavras para isto.

Breve morte que sobre o coração

páras tua mortal perversão, a tua morte,


falta-me subitamente com a tua

mão e que eu morra como um corpo

dentro do coração da luz do silêncio

que me cale que não viva nem esteja morto.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 28 | Assírio & Alvim, 2012

1 144

Silêncio e escuridão e nada mais

(Amor cidade aberta; lugar comum;)

Edificarei a minha igreja sobre as tuas ruínas

Tenho um coração mortal um coração

fora de si como um marido irado

Dentro da casa se instala

a descomunal traição.

Eu sou aquele que rouba, o marido,

o caluniador, abri-vos portas de ouro...

Que deus me perdoará os meus erros humanistas?

Quebrada a espada já, rota

a Armadura, a Beleza, a Regra (Ó Ciência! Ó Cólera!)

Como escreverei? Sem que palavras? Quem? Qual?



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 20 | Assírio & Alvim, 2012

1 264

Passagem

Com que palavras ou que lábios

é possível estar assim tão perto do fogo,

e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,

tão sem peso por cima do pensamento?


Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,

e não só uma voz de ninguém.

Onde, porém? Em que lugares reais,

tão perto que as palvras são de mais?


Agora que os deuses partiram,

e estamos, se possível, ainda mais sós,

sem forma e vazios, inocentes de nós,

como diremos ainda margens e como diremos rios?


Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 378 | Assírio & Alvim, 2012

3 720

Palavras

Palavras perpetradas em silêncio

na cama, lugar de assassinos.

Escondo-me para morrer. Nenhuma lógica é mais mortal

que esta estúpida perversão, esta morte.

Estúpidos lençóis; escrita de

corpos grosseiros; crimes passionais.

Falta-me uma palavra essencial,

um som perverso para morrer; um sonho.


Contraem-se os músculos na vigília.

Preciso do sono e do movimento dos corpos

para dirigir devidamente o pequeno crime

da tua morte. Agora calo-me um pouco.



Manuel António Pina | "Todas as palavras - poesia reunida 1974-2011", pág. 27 | Assírio & Alvim, 2012

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Fernanda
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João
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O livro é muito bom

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gostei

euskadia

In: de Os Livros.... Isto é, palavras, formas indecisas procurando um eixo que lhes dê peso, um sentido capaz de conter a sua inocência uma voz (uma palavra) a que se prender antes de se despedaçarem contra tanto silêncio