Manuel da Fonseca

Manuel da Fonseca

1911–1993 · viveu 81 anos PT PT

Manuel da Fonseca foi um escritor português cuja obra se destacou pelo realismo cru e pela profunda atenção às condições de vida das populações rurais do Alentejo, especialmente a classe trabalhadora e os camponeses. A sua escrita, marcada pela linguagem vincada da terra e pela denúncia social, retrata a luta pela sobrevivência, a exploração e a dignidade humana em meio a adversidades. Foi também poeta, com uma obra lírica que complementa a sua prosa, explorando temas existenciais e a relação do homem com a natureza e a terra.

n. 1911-10-15, Santiago do Cacém · m. 1993-03-11, Lisboa

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Ruas da Cidade

Na noite calada e quieta como um grande segredo,
andando ao deus-dará nestas ruas desertas,
saio lá do fundo do meu sonho
e olho ao redor de mim.

Cá fora há tudo o que não é do meu sonho:
o frio, e os altos prédios fechados,
e as ruas mortas como paisagem de cemitérios.

E a claridade fugidia dos candeeiros cansados,
como pálpebras que se vão fechar.
E o torpor saindo de todas as coisas
e pairando no ar, como um desmaio iminente...

Só eu ainda tenho passos para andar
e uma não sei que ternura
para todos que estão, para lá das paredes
adormecidos e descuidados
à morte que espreita escondida no mistério da noite...

Em que casa e andar estará dormindo
aquela de quem não sei o nome nem a vida,
mas descobri a cor dos cabelos e a melodia do corpo
quando nos cruzamos esta manhã?
Nesse momento,
ou fosse porque chovia sol sobre a algazarra de gestos
das gentes que iam e vinham e se falavam e continuavam
ou porque nos olhássemos de certa maneira que não saberei contar,
mesmo de longe, dissemos com os olhos, um para o outro
— Hoje é um dia de glória!
Mas tão estranho me pareceu
aquele milagre entre dois desconhecidos,
que nem voltei a cabeça para trás...
Agora este desânimo sem nome
de quem traiu um dia inteiro de vida
e teima ir pela noite dentro
à espera nem sabe de quê ...

De tantas horas iguais estou farto!

Mas ao fim e sempre a mesma esperança:
"um dia virá..."
E eu que tenho a vida desarrumada
como se fosse um milionário bêbado,
ergo-me e saio para a rua deslumbrado
e ressuscitado, todos os dias, ao amanhecer.
E vai a coisa tão certa como uma religião,
quanto pressinto que me olham de todas as caras
como se espiassem um louco...
Onde estão ouvidos que entendam as minhas falas?

E a noite vem encontrar-me deserto e abandonado...
Ah, um dia, quando a morte chegar,
hei de erguer para ela os meus olhos molhados,
e hei de contar-lhe a indiferença do mundo
e a amargura dos altos sonhos desfeitos...
— assim como um menino fazendo queixas a sua mãe.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Manuel Ribeiro da Fonseca Data e local de nascimento: 15 de novembro de 1921, Santiago do Cacém Data e local de morte: 23 de setembro de 1993, Lisboa Nacionalidade: Português Língua de escrita: Português Contexto histórico em que viveu: Viveu a maior parte da sua vida sob o regime do Estado Novo em Portugal, um período de censura e repressão, mas também de grandes transformações sociais e económicas, incluindo a emigração e as lutas sociais no campo. A sua obra reflete as realidades cruas desse período, especialmente no contexto rural.

Infância e formação

Nasceu e cresceu no Alentejo, uma região que marcou profundamente a sua obra. A sua infância e juventude foram passadas em contacto direto com o mundo rural, as suas tradições e as dificuldades da vida dos trabalhadores do campo. A sua formação, embora não especificamente literária de início, foi moldada pela observação atenta da realidade e pela leitura de autores que o inspiraram a escrever.

Percurso literário

O percurso literário de Manuel da Fonseca começou com a poesia, mas foi na prosa que alcançou maior reconhecimento. Iniciou a publicação de poemas em revistas e antologias. A sua transição para a escrita em prosa foi motivada pela necessidade de retratar com maior profundidade e realismo as realidades sociais que o rodeavam. A sua obra evoluiu para um realismo social pungente, denunciando as injustiças e as condições de vida precárias, especialmente no meio rural alentejano.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais conhecidas incluem o romance "Cerro Negro" (1944) e as coletâneas de contos "O Fogo e a Cinza" (1953) e "Vento do Norte" (1957), além da poesia "Mar Português" (1945). Os temas dominantes na sua obra são a vida no Alentejo, a exploração dos trabalhadores rurais, a dignidade humana, a luta pela terra e a relação do homem com a natureza. O seu estilo é marcadamente realista, com uma linguagem crua, direta e impregnada da oralidade alentejana. Utiliza um vocabulário rico em termos regionais e descreve com detalhe as paisagens e os costumes do Alentejo. A sua voz poética é muitas vezes a do povo, dos oprimidos e dos esquecidos, com um tom de denúncia, mas também de esperança e de resiliência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Manuel da Fonseca é um dos expoentes do chamado Neorrealismo português, embora a sua obra transcenda as fronteiras estritas do movimento. Viveu num período de forte intervenção política e social por parte de muitos intelectuais, e a sua escrita insere-se nessa vontade de dar voz aos marginalizados e de denunciar as mazelas sociais. Foi contemporâneo de outros escritores que abordaram temáticas semelhantes, dialogando e, por vezes, divergindo sobre as formas de representação.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A sua ligação ao Alentejo foi fundamental em toda a sua vida e obra. As suas experiências pessoais e a sua observação direta da vida rural moldaram a sua escrita. As suas convicções sociais e políticas refletiram-se na sua obra, que se tornou um veículo para a denúncia das injustiças sociais. Profissionalmente, dedicou-se a diversas atividades, mas sempre com um forte pendor para a escrita e a intervenção.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Manuel da Fonseca é amplamente reconhecido como um dos grandes prosadores do século XX em Portugal. A sua obra recebeu elogios pela sua autenticidade, pela sua força expressiva e pela sua importância como testemunho das realidades sociais portuguesas. O seu nome está solidamente firmado no cânone da literatura portuguesa, sendo objeto de estudo e admiração.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado por autores que retrataram a vida do campo e a condição humana em contextos de dificuldade. O seu legado reside na sua capacidade de dar voz ao Alentejo e aos seus trabalhadores, na sua escrita realista e na sua profunda humanidade. Influenciou gerações de escritores que viram nele um modelo de compromisso literário e social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Manuel da Fonseca é frequentemente analisada sob a ótica do realismo social, da denúncia da exploração e da valorização da resistência e da dignidade humana. A sua escrita convida a uma reflexão sobre as estruturas sociais, a relação do homem com a terra e a busca pela justiça.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Manuel da Fonseca tinha uma forte ligação com a terra alentejana, que não era apenas um cenário, mas uma entidade viva na sua obra. Era conhecido pela sua modéstia e pelo seu profundo respeito pelas gentes do campo. Os seus hábitos de escrita eram marcados pela imersão no ambiente que retratava.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Lisboa, mas o seu espírito e a sua obra permanecem intrinsecamente ligados ao Alentejo. As suas obras continuam a ser lidas e estudadas, mantendo viva a memória de um dos mais importantes cronistas da realidade social portuguesa.

Poemas

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Ruas da Cidade

Na noite calada e quieta como um grande segredo,
andando ao deus-dará nestas ruas desertas,
saio lá do fundo do meu sonho
e olho ao redor de mim.

Cá fora há tudo o que não é do meu sonho:
o frio, e os altos prédios fechados,
e as ruas mortas como paisagem de cemitérios.

E a claridade fugidia dos candeeiros cansados,
como pálpebras que se vão fechar.
E o torpor saindo de todas as coisas
e pairando no ar, como um desmaio iminente...

Só eu ainda tenho passos para andar
e uma não sei que ternura
para todos que estão, para lá das paredes
adormecidos e descuidados
à morte que espreita escondida no mistério da noite...

Em que casa e andar estará dormindo
aquela de quem não sei o nome nem a vida,
mas descobri a cor dos cabelos e a melodia do corpo
quando nos cruzamos esta manhã?
Nesse momento,
ou fosse porque chovia sol sobre a algazarra de gestos
das gentes que iam e vinham e se falavam e continuavam
ou porque nos olhássemos de certa maneira que não saberei contar,
mesmo de longe, dissemos com os olhos, um para o outro
— Hoje é um dia de glória!
Mas tão estranho me pareceu
aquele milagre entre dois desconhecidos,
que nem voltei a cabeça para trás...
Agora este desânimo sem nome
de quem traiu um dia inteiro de vida
e teima ir pela noite dentro
à espera nem sabe de quê ...

De tantas horas iguais estou farto!

Mas ao fim e sempre a mesma esperança:
"um dia virá..."
E eu que tenho a vida desarrumada
como se fosse um milionário bêbado,
ergo-me e saio para a rua deslumbrado
e ressuscitado, todos os dias, ao amanhecer.
E vai a coisa tão certa como uma religião,
quanto pressinto que me olham de todas as caras
como se espiassem um louco...
Onde estão ouvidos que entendam as minhas falas?

E a noite vem encontrar-me deserto e abandonado...
Ah, um dia, quando a morte chegar,
hei de erguer para ela os meus olhos molhados,
e hei de contar-lhe a indiferença do mundo
e a amargura dos altos sonhos desfeitos...
— assim como um menino fazendo queixas a sua mãe.

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Os olhos do poeta

O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos, brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no mundo.

4 291

Segunda

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, bricar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebecem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

1 981

Romance do Terceiro Oficial de Finanças

Ah! as coisas incríveis que eu te contava
assim misturadas com luas e estrelas
e a voz vagarosa como o andar da noite!

As coisas incríveis que eu te contava
e me deixavam hirto de surpresa
na solidão da vila quieta!...
Que eu vinha alta noite
como quem vem de longe
e sabe os segredos dos grandes silêncios
— os meus braços no jeito de pedir
e os meus olhos pedindo
o corpo que tu mal debruçavas da varanda!...

(As coisas incríveis eu só as contava
depois de as ouvir do teu corpo, da noite
e da estrela, por cima dos teus cabelos.
Aquela estrela que parecia de propósito para enfeitar os teus cabelos
quando eu ia nomarar-te...)

Mas tudo isso, que era tudo para nós,
não era nada na vida!...
Da vida é isto que a vida faz.
Ah! sim, isto que a vida faz!
— isto de tu seres a esposa séria e triste
de um terceiro oficial de finanças da Câmara Municipal!...

1 956

Poema da Menina Tonta

A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa na rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.

A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.

A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...

No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...

A menina tonta tem coração sem corda
a boca sem desejos
os olhos sem luz...

E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta
tem a cabeça cheia de farelos.

3 380

Estradas

Não era noite nem dia.
Eram campos campos campos
abertos num sonho quieto.
Eram cabeços redondos
de estevas adormecidas.
E barrancos entre encostas
cheias de azul e silêncio.
Silêncio que se derrama
pela terra escalavrada
e chega no horizonte
suando nuvens de sangue.
Era hora do poente.
Quase noite e quase dia.

E nos campos campos campos
abertos num sonho quieto
sequer os passos de Nena
na branca estrada se ouviam.
Passavam árvores serenas,
nem as ramagens mexiam,
e Nena, pra lá do morro,
na curva desaparecia.

Já de noite que avançava
os longes escureciam.
Já estranhos rumores de folhas
entre as esteveiras andavam,
quando, saindo um atalho,
veio à estrada um vulto esguio.
Tremeram os seios de Nena
sob o corpete justinho.
E uma oliveira amarela
debruçou-se da encosta
com os cabelos caídos!
Não era ladrão de estradas,
nem caminheiro pedinte,
nem nenhum maltês errante.
Era António Valmorim
que estava na sua frente.

— Ó nena de Montes Velhos,
se te quisessem matar
quem te haverá de acudir?

Sob este corpete justinho
uniram-se os seios de Nena.

— Vai te António Valmorim.
Não tenho medo da morte,
só tenho medo de ti.

Mas já noite fechava
a saída dos caminhos.
Já do corpete bordado
os seios de Nena saíam
— como duas flores abertas
por escuras mãos amparadas!
Aí que perfume se eleva
do campo de rosmaninho!
Aí como a boca de Nena
se entreabre fria fria!
Caiu-lhe da mão o saco
junto ao atalho das silvas
e sobre a sua cabeça
o céu de estrelas se abriu!

Ao longe subiu a lua
como um sol inda menino
passeando na charneca…
Caminhos iluminados
eram fios correndo cerros.
Era um grito agudo e alto
que uma estrela cintilou.
Eram cabeços redondos
de estevas surpreendidas.
Eram campos campos campos
abertos de espanto e sonho…

2 864

Segunda

Quando foi que demorei os olhos
sobre os seios nascendo debaixo das blusas,
das raparigas que vinham, à tarde, brincar comigo?...
... Como nasci poeta,
devia ter sido muito antes que as mães se apercebessem disso
e fizessem mais largas as blusas para as suas meninas.
Quando, não sei ao certo.

Mas a história dos peitos, debaixo das blusas,
foi um grande mistério.
Tão grande
que eu corria até ao cansaço.
E jogava pedradas a coisas impossíveis de tocar,
como sejam os pássaros quando passam voando.
E desafiava,
sem razão aparente,
rapazes muito mais velhos e fortes!
E uma vez,
de cima de um telhado,
joguei uma pedrada tão certeira,
que levou o chapéu do senhor administrador!
Em toda a vila,
se falou, logo, num caso de política;
o senhor administrador
mandou vir, da cidade, uma pistola,
que mostrava, nos cafés, a quem a queria ver;
e os do partido contrário,
deixaram crescer o musgo nos telhados
com medo daquela raiva de tiros para o céu...

Tal era o mistério dos seios nascendo debaixo das blusas!

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