Marcial

Marcial

40–104 · viveu 63 anos ES ES

Marcial foi um poeta hispano-romano conhecido por suas epigramas satíricas e irreverentes, que ofereciam um vislumbre vívido e muitas vezes cômico da vida cotidiana na Roma Imperial. Sua obra é celebrada pela agudeza de observação, pela ironia mordaz e pela maestria no uso da linguagem, abordando temas como o amor, o casamento, a hipocrisia social e a busca por riqueza. Seus epigramas, concisos e impactantes, continuam a divertir e a provocar reflexão, sendo uma fonte inestimável para o estudo da sociedade romana e da natureza humana.

n. 0040-03-01, Augusta Bilbilis · m. 0104, Augusta Bilbilis

36 916 Visualizações

Filénis, mulher-homem, enraba putos

VII,67

Filénis, mulher-homem, enraba putos
e, mais ardente que macho entesado,
devora por dia onze raparigas.
De saia arregaçada, joga à bola,
coberta de pó, e com braço fácil
maneja halteres pesados para maricas.
Da palestra poeirenta sai enlameada,
e submete-se às pancadas e ao óleo do massagista.
Não janta, não se reclina junto à mesa
sem antes vomitar umas boas litradas,
e outro tanto se dispõe desde logo a beber
mal engole dúzia e meia de almôndegas.
Depois de tudo isto, quando volta ao deboche,
não brocha (acto que julga pouco viril),
mas põe-se a devorar o sexo às raparigas.
Possam os deuses, Filénis, restituir-te o juízo,
tu que achas próprio de homens lamber conas!

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Marcus Valerius Martialis, conhecido como Marcial, foi um poeta hispano-romano. Nasceu na província romana da Hispania Tarraconensis (atual Espanha).

Infância e formação

Marcial recebeu uma educação típica da elite romana, estudando retórica e literatura. Passou uma parte significativa de sua juventude em Roma, onde buscou mecenas e oportunidades para sua carreira literária.

Percurso literário

O percurso literário de Marcial está intrinsecamente ligado à sua produção de epigramas. Chegou a Roma por volta de 64 d.C. e, após anos de dificuldades financeiras e busca por patronos, conseguiu algum reconhecimento e sucesso. Publicou vários livros de epigramas, que se tornaram sua marca registrada.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Marcial consiste quase inteiramente em epigramas, poemas curtos e satíricos que comentam sobre a vida social, política e pessoal da Roma Antiga. Seu estilo é caracterizado pela agudeza, pela ironia, pelo humor muitas vezes ácido e pela precisão da linguagem. Aborda temas como o casamento, a hipocrisia, a velhice, a vaidade, a política e os costumes da época. Marcial é mestre na arte do *punchline*, terminando muitos de seus poemas com uma observação espirituosa e surpreendente. Sua linguagem é coloquial, mas refinada, e ele utiliza uma vasta gama de métricas, embora o dístico elegíaco seja o mais comum.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Marcial viveu durante o apogeu do Império Romano, sob o governo de imperadores como Domiciano, Nerva e Trajano. Sua obra oferece um retrato vívido e muitas vezes crítico da sociedade romana dessa época, incluindo seus vícios, suas virtudes e suas contradições. Ele frequentava os círculos literários da capital e interagia com outras figuras proeminentes, mas também dependia do patrocínio de ricos romanos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Marcial. Ele dependeu de patronos para sobreviver e, embora tenha alcançado alguma fama, nunca parece ter acumulado grande riqueza. Há indícios de que teve alguns relacionamentos, mas os detalhes são escassos. Sua obra é repleta de observações sobre as relações humanas, mas sua própria vida privada permanece em grande parte um mistério.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Marcial obteve um reconhecimento considerável em Roma, sendo lido e admirado por seus contemporâneos. Sua obra foi popular e influente. Após sua morte, seus epigramas continuaram a ser lidos e estudados, mantendo sua relevância ao longo dos séculos como um documento da vida romana e um modelo de sátira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Marcial influenciou profundamente a tradição ocidental do epigrama. Sua obra serviu de modelo para poetas satíricos e humorísticos em diversas épocas, desde a Idade Média até os tempos modernos. Sua capacidade de condensar observações perspicazes em versos curtos e impactantes é um legado duradouro.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Marcial é frequentemente analisada como um espelho da sociedade romana, revelando suas complexidades morais e sociais. A crítica moderna destaca sua habilidade em retratar a condição humana com humor e realismo, e sua contribuição para o desenvolvimento da sátira como gênero literário.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Marcial era conhecido por sua sagacidade e por sua capacidade de observar os detalhes da vida cotidiana. Apesar de sua produção literária, ele sempre lutou para se estabelecer financeiramente, dependendo da generosidade de outros. Seus poemas oferecem um vislumbre das preocupações e dos prazeres da Roma antiga.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Marcial retornou à sua terra natal, Hispania, nos seus últimos anos de vida, onde faleceu. Sua memória perdura através de seus epigramas, que continuam a ser estudados e apreciados por sua qualidade literária e seu valor histórico.

Poemas

33

Filénis, mulher-homem, enraba putos

VII,67

Filénis, mulher-homem, enraba putos
e, mais ardente que macho entesado,
devora por dia onze raparigas.
De saia arregaçada, joga à bola,
coberta de pó, e com braço fácil
maneja halteres pesados para maricas.
Da palestra poeirenta sai enlameada,
e submete-se às pancadas e ao óleo do massagista.
Não janta, não se reclina junto à mesa
sem antes vomitar umas boas litradas,
e outro tanto se dispõe desde logo a beber
mal engole dúzia e meia de almôndegas.
Depois de tudo isto, quando volta ao deboche,
não brocha (acto que julga pouco viril),
mas põe-se a devorar o sexo às raparigas.
Possam os deuses, Filénis, restituir-te o juízo,
tu que achas próprio de homens lamber conas!

1 543

I, 34 - A FIDENTINO

O que recitas livro, ó Fidentino, é meu.
Mas mal quanto o recitas a ser teu começa.

857

VI, 4 - AO IMPERADOR DOMICIANO

Censor supremo, príncipe dos príncipes,
Tantos triunfos te devia Roma,
E tanto templo novo ou restaurado,
E tantos deuses, urbes, espectáculos!
E mais te deve agora: a pudicícia.

1 056

EPIGRAMAS

I, 24 - A COTA

Com quem te não banhaste, não convidas nunca,
E só nos balneários teus convivas buscas.
A mim me perguntava como nunca o fora:
E agora sei que, nu, não pude encher-te os olhos.

1 101

Tu depilas o peito

II,62

Tu depilas o peito, as pernas e os braços,
à volta do caralho cortas o pêlo curto,
para agradar, Labieno (quem o ignora?) à tua amante.
Mas a quem queres tu agradar, Labieno, ao depilar o cu?

III,71

Dói o caralho ao teu escravo
E a ti, Névolo, o cu.
Mesmo sem ser adivinho
sei bem de que raça és tu!

1 113

A Musa Puerilis de Marcial

1, 23


Ninguém convidas, só com quem te lavas, Cota,
...e só os banhos dão o teu conviva.
Admirava-me, Cota, o nunca me chamares:
...agora sei que, nu, não te agradei.


Inuitas nullum nisi cum quo, Cotta, lauaris
...et dant conuiuam balnea sola tibi.
Mirabar, quare numquam me, Cotta, uocasses:
...iam scio, me nudum displicuisse tibi.



914

1, 31 Estes cachos

Estes cachos de cima abaixo, Febo, imola-te
...Eumolpo, amor de seu senhor, centúrio:
Pudente enfim com jus chegou a primipilo!
...Depressa, Febo, longas corta as mechas,
enquanto pêlo algum lhe mancha a tenra face
...e ao colo lácteo caem bem cabelos.
E por que gozem mais senhor e jovem dotes
...teus, faze-o glabro cedo, e tarde um homem.
Hos tibi, Phoebe, uouet totos a uertice crines
...Encolpos, domini centurionis amor,
grata Pudens meriti tulerit cum praemia pili.
...Quam primum longas, Phoebe, recide comas,
dum nulla teneri sordent lanugine uoltus
...dumque decent fusae lactea colla iubae;
utque tuis longum dominusque puerque fruantur
...muneribus, tonsum fac cito, sero uirum.
774

V, 83-A DÍNDIMO

Persegues-me, te fujo. Foges, te persigo.
O que tu quers não quero, o que não quers eu quero.

618

VIII, 46 - AO JOVEM QUESTO

Quanta pureza a tua, e quão pueris as formas,
Mais casto do que Hipólito, ó tão jovem Questo!
Diana te quer, e Dóris quer nadar contigo,
Cibele te prefere, inteiro que és, ao Frígio.
A Ganimedes podes suceder no leito,
Mas firme não darás a Jove mais que beijos.
Feliz quem te ferir, esposa, tal doçura,
E quem, virgem, de ti fizer, primeiro, um homem.

706

V, 58 - A PÓSTUMO

Viverás amanhã, sempre me dizes, Póstumo.
Esse amanhã, ó Póstumo, quando virá?
Quão longe mora? E aonde está? Onde buscá-lo?
Esse amanhã mais velho é que Nestor ou Príamo.
Esse amanhã tem preço? Qual o preço? Diz-me.
Viverás amanhã. E viver hoje é tarde.
Aquele é sage, ó Póstumo, que ontem viveu.

801

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.