VI, 23 - CONTRA LÉSBIA
Que eu esteja sempre de pau feito queres,
Lésbia, mas crê que membro não é dedo.
Coa mão, coa voz, tu docemente insistes,
E contra ti teu rosto não perdoa.
VII, 30 - CONTRA CÉLIA
Aos Partos, aos Germanos, dás-te, Célia, aos Dácios,
Nem aos de Capadócia ou de Cilícia negas
O que buscar-te vem do Egipto os cobridores,
Ou, pelo Mar Vermelho, os negros indianos
As ancas não recuas ante o circunciso
Hebreu, e mesmo o Alano em seu cavalo sármata
Te pára à porta. Ob, como sendo tu Romana,
Só de Romanos paus te não agradas nunca?
III, 68--A UMA MATRONA PUDIBUNDA
Só até aqui, matrona, é para ti o livro.
O mais interno dele. para quem? Pra mim.
Ginásio, estádio, termas, deste lado: foge.
Aqui nos desnudamos. Homens nus não vejas.
Despojando entre rosas, ébria já, o pudor,
Terpsícore não cuida que palavras diz.
Sem véus e sem rodeios, dá seu nome àquele
Que Vénus em Agosto em si recebe impante,
Que como de espantalho o lavrador coloca
Em meio do seu horto. E que as virgens só olham
Por entre os dedos castos. Se bem te conheço,
ias pousar meu livro. Ah, ah... vais lê-lo agora...
V, 76 - A CINA
Tanto bebeu Mitrídates veneno
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.
IV, 7 - A HILO
Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
VI, 18 - A PRISCO, EPITÁFIO DE SALONINO
Santa de Salonino dorme em terra ibérica
Qual melhor o Stix não viu sombra nunca.
Mas chorar é nefasto, pois que vive em ti
Na parte que possuiu e mais durável quis.
VI, 8 - A SEVERO
Pretores dois, e mais tribunos quatro,
Advogados sete, e poetas dez,
Todos à mão da filha se fizeram
De certo velho. E ele ao pregoeiro
Eulogo foi que a mão da jovem deu.
Não foi, Severo, sábia a decisão?
Sem guarda à porta
I,35
Sem guarda à porta, com os batentes escancarados, ó Lésbia,
é que te apraz fazer amor, acto que nunca escondes.
Dá-te mais gozo um espectador do que um amante,
e não te dão prazer os prazeres que se ocultam.
Até a meretriz se esconde, corre a cortina e fecha a porta,
e nem por uma greta se vislumbra o interior do prostíbulo.
Aprende a ter pudor ao menos com Quíone ou com Íade:
até um túmulo serve para esconder tão reles putas.
Acaso te parece excessiva a minha censura, Lésbia?
Acho bem que forniques, em público é que não!
Nunca disse que fosses panasca
IV,43
Nunca disse, ó Coracino, que tu fosses panasca:
não sou tão temerário ou descarado
que me ponha a mentir sem mais aquelas!
Se eu disse, ó Coracino, que tu eras panasca,
que me destrua o frasco de veneno de Pôntia,
que me destrua o cálice de veneno de Metílio.
Juro-te pelos inchaços sírios,
Juro-te pelos furores berecíntios!
O que eu de facto disse, é coisa sem importância,
de todos conhecida, que nem tu mesmo negarás:
só disse que és, Coracino, um lambe-conas!
Apesar de teres colhões depilados
IX,27
Apesar, ó Cresto, de teres colhões depilados,
um caralho que parece um pescoço de abutre,
uma cabeça mais lisa que cu de prostituta,
de não teres nas pernas o mais ligeiro pêlo,
de sempre aos lábios brancos aplicares a pinça,
falas constantemente em Cúrios e Camilos,
em Quíncios, Numas e Ancos, esses heróis cabeludos
de que os livros estão cheios, e com palavras duras
lanças ameaças e investes com teatros e modas!
Mas se acaso te surge à frente algum panasca
recém-saído das mãos do pedagogo,
cujo pénis já inchado o técnico soltou
logo o chamas e o levas, e … Quase tenho vergonha, ó Cresto,
de dizer o que faz essa língua de Catão!