VII, 19 - A UM FRAGMENTO DO ARGOS
Este fragmento, lenho inútil dizes,
Primeira quilha foi no mar ignoto.
Que não quebraram as Ciâneas rochas,
Nem a fúria cruel das águas citas,
Os séculos venceram: mas que resta
Mais venerável é que a nave inteira.
IV, 71 - A SOFRÓNIO RUFO
Busco, Sofrónio Rufo, há muito, na cidade,
Menina que se negue. Mas nenhuma nega.
Como se pelos deuses, pela lei, negar-se
Não fora permitido, nenhuma se nega.
- Casta não é nenhuma? - Mil o são. - Que fazem
Pois elas? - Não se dão, mas também não se negam.
V, 45 - A BASSA
Te dizes bela, dizes que ainda, Bassa, és virgem.
Isso, quem não é já dizer, Bassa, costuma.
V, 76 - A CINA
Tanto bebeu Mitrídates veneno
Que mal nenhum já lhe poder fazia.
Tal como tu: de sempre cears tão mal,
Não podes, Cina, já morrer de fome.
V, 83-A DÍNDIMO
Persegues-me, te fujo. Foges, te persigo.
O que tu quers não quero, o que não quers eu quero.
IV, 42-A FLACO
Se os votos exalçados poderão ser meus,
Ouve que amante, Flaco, eu desejara ter.
Do Nilo, antes de mais, tenha nascido às margens
(Nenhuma terra ensina uma volúpla igual).
Mais branco do que a neve (pois que em Mareótida
Mais belo entre morenos quanto a alvura é rara.)
Olhos rivais dos astros, e moles flagelem
As comas o pescoço (caracóis não amo).
A fronte breve, e um pouco o nariz aquilino.
De Pestum os rubros lábios envergonhem rosas.
Que meus caprichos negue e aos seus me curve, às vezes.
Mais livre saiba ser, às vezes, que seu amo.
Rapazes tema, e exclua às vezes as mulheres.
Para todos um homem, para mim efebo.
Ah não te enganas, não, quanto meu juízo é vero:
Tal era, tu bem sabes, aquele que eu perdi.
IV, 7 - A HILO
Porque ontem que tu davas, hoje, ó Hilo, negas,
Duro tão súbito, quando eras só ternura?
É que tens barba e pelos, mais idade, dizes.
Ó noite, como és longa, que assim envelheces!
Porque troças de mim? Ontem criança ainda eras.
Diz-me: qual a razão de que hoje um homem és?
Nunca disse que fosses panasca
IV,43
Nunca disse, ó Coracino, que tu fosses panasca:
não sou tão temerário ou descarado
que me ponha a mentir sem mais aquelas!
Se eu disse, ó Coracino, que tu eras panasca,
que me destrua o frasco de veneno de Pôntia,
que me destrua o cálice de veneno de Metílio.
Juro-te pelos inchaços sírios,
Juro-te pelos furores berecíntios!
O que eu de facto disse, é coisa sem importância,
de todos conhecida, que nem tu mesmo negarás:
só disse que és, Coracino, um lambe-conas!
Como nunca te vi cercada de homens
I,91
Como nunca te vi, ó Bassa, cercada de homens
e de nenhuma amante as más-linguas te acusavam,
e como à tua volta só havia donzelas
prontas ao teu serviço, mas de macho… nem cheiro,
cheguei, confesso, a crer-te uma Lucrécia.
Mas afinal, Bassa, – que horror! – tu fodia-las todas,
tu ousavas fazer amor cona com cona,
quase parecias um homem, ó Venus monstruosa!
Forjaste um enigma digno da tebana esfinge:
como haver adultério onde não existe homem!
Apesar de teres colhões depilados
IX,27
Apesar, ó Cresto, de teres colhões depilados,
um caralho que parece um pescoço de abutre,
uma cabeça mais lisa que cu de prostituta,
de não teres nas pernas o mais ligeiro pêlo,
de sempre aos lábios brancos aplicares a pinça,
falas constantemente em Cúrios e Camilos,
em Quíncios, Numas e Ancos, esses heróis cabeludos
de que os livros estão cheios, e com palavras duras
lanças ameaças e investes com teatros e modas!
Mas se acaso te surge à frente algum panasca
recém-saído das mãos do pedagogo,
cujo pénis já inchado o técnico soltou
logo o chamas e o levas, e … Quase tenho vergonha, ó Cresto,
de dizer o que faz essa língua de Catão!