Maria Teresa Horta

Maria Teresa Horta

1937–2025 · viveu 87 anos PT PT

Maria Teresa Horta é uma escritora, poeta e jornalista portuguesa, figura proeminente da literatura contemporânea. A sua obra, marcada pela exploração da condição feminina, da sexualidade, da liberdade e da identidade, distingue-se pela sua ousadia, pela linguagem transgressora e pela profunda reflexão sobre o corpo e o desejo. Reconhecida pela sua escrita interventiva e feminista, Maria Teresa Horta tem vindo a desafiar convenções sociais e literárias, promovendo um discurso de emancipação e de afirmação da voz feminina na sociedade e na arte. É uma das vozes mais singulares e influentes da literatura portuguesa das últimas décadas.

n. 1937-05-20, Lisboa · m. 2025-02-04, Lisboa

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Joelho

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Maria Teresa da Piedade Homem de Carvalho Horta nasceu em Lisboa, Portugal, em 22 de março de 1937. É escritora, poeta e jornalista. Escreve em português.

Infância e formação

Nasceu numa família de classe média alta. Frequentou o ensino secundário em Lisboa e licenciou-se em Filologia Germânica na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa em 1963. A sua formação académica e o contacto com a literatura estrangeira, nomeadamente a inglesa e a alemã, foram cruciais para o desenvolvimento do seu pensamento e da sua obra.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se na década de 1960, com a publicação de poesia e a colaboração em jornais e revistas culturais. O seu percurso é marcado por uma evolução estilística e temática, com uma crescente aposta na exploração da condição feminina e da liberdade individual. Foi uma das fundadoras do Movimento Democrático de Mulheres em 1969. A sua obra abrange poesia, prosa e ensaio, consolidando-se como uma voz crítica e interventiva.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais emblemáticas incluem "A Menina Duquesa" (1966), "Amor" (1971), "Minha Senhora de Quê" (1977) e "O Terceiro Império" (1978). Os temas dominantes são o corpo, a sexualidade, o amor, a liberdade, a identidade feminina, a crítica social e a opressão patriarcal. Explora a forma poética com grande liberdade, utilizando o verso livre e uma linguagem direta e por vezes transgressora. Os recursos poéticos são utilizados para desconstruir tabus e explorar o universo interior. O tom da sua poesia é frequentemente confessional, irónico e combativo, com uma voz poética que emerge da experiência individual para se tornar universalmente relevante. A sua linguagem é densa, imagética e desafiadora, marcada por uma forte carga de sensualidade e crítica. Introduziu inovações ao abordar a sexualidade feminina de forma explícita e sem receios, desafiando as normas da época. Está associada a movimentos de renovação literária e ao feminismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Maria Teresa Horta viveu e escreveu durante o regime do Estado Novo e após a Revolução de 25 de Abril de 1974. A sua obra reflete a necessidade de mudança social e a luta pela liberdade de expressão e pelos direitos das mulheres. Foi uma figura ativa em círculos intelectuais e feministas, dialogando com outros escritores e ativistas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Maria Teresa Horta é conhecida pela sua defesa intransigente da liberdade individual e da autonomia feminina. A sua vida pessoal e a sua obra estão intrinsecamente ligadas, refletindo as suas convicções sobre o corpo, o desejo e a emancipação.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Maria Teresa Horta é uma figura de grande prestígio na literatura portuguesa contemporânea. A sua obra tem sido objeto de análise crítica e académica, reconhecendo a sua importância na renovação da poesia portuguesa e na afirmação da literatura escrita por mulheres.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciada por escritoras como Gertrude Stein e por movimentos literários que exploram a subjetividade e a liberdade formal. O seu legado reside na sua coragem em abordar temas considerados tabu e na sua contribuição para a desconstrução de visões patriarcais na literatura e na sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Maria Teresa Horta é frequentemente interpretada como um manifesto feminista e uma celebração do corpo e do desejo. As análises críticas destacam a sua capacidade de subverter normas linguísticas e sociais, abrindo caminho para novas formas de expressão da experiência feminina.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos É conhecida pela sua postura firme e pela sua inteligência arguta. A sua obra é muitas vezes vista como um espelho das suas convicções pessoais, desafiando o leitor a confrontar as suas próprias perceções sobre género e sexualidade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ainda em atividade, a sua obra continua a ser publicada e a sua memória será certamente consolidada como uma das vozes mais importantes da literatura portuguesa contemporânea.

Poemas

40

Recusa

Não terás para
meDarQuotidiano contigoAbrigoCorpo despidoNem
terás para meDarA segurança do
perigoMais do que o gestoOcupadoO afagoO
desmentidoNão terás para me DarO espanto de estar
contigo.

4 272

Os anjos – I

Eles andam no ar
com as suas vestes
longas

as asas frementes
a baterem no tempo

Vêm
da infância
a rasar a memória

a voarem o vento

Ouvia os insectos,
deitada-rente
sobre a terra

e imaginava os anjos
debruçados no espaço
a beberem o sol

Uma por uma as pétalas
Os gomos

as citilantes escamas
mais pequenas

Uma por uma as penas

a formularem a nossa memória
das asas dos anjos

Tem a força estagnada
das paredes
a respirarem através da cal do útero

num arfar
lento
menstruação contida

Os pés vão nus,
a bordejarem o voo

a controlarem o
espaço

lemes do corpo
a fixarem
as asas:

crespas e acesas
nos ombros dos
anjos

São anjos
apenas
com o corpo dos homens

num corpo de mulher

e um ligeiro crepitar
de asas
na altura dos ombros

Tem uma conotação
sexual
de aventura

com a sua vagina
entreaberta
e o seu clitóris tumefacto
e tenso
à ponta dos dedos

Desviar os lábios
dos anjos

mas entreabrir-lhes também
as coxas

os sonhos – a mente
enquanto eles observam

Quando os anjos
flutuam
sobre as tréguas

naquele segundo
em que se ouve bater
o coração das pedras

Uma flor de
amparo,

o apoio de uma
asa
no voo raso às raízes do tempo

Até ao vácuo?

Os anjos são
os olhos
da cidade

Olhos de mulher,
que voa

Tem asas de cristal
e água
os anjos que à flor-do-dia
entornam a madrugada

cintilantes e volácteis

Eles voam com as suas asas
de prazer:

os anjos da fala
– dormindo na saliva da boca

Substituir os peixes alados
por anjos
Com as suas longínquas asas
a afagar os meus ombros

Queria saber
do destino dos anjos

quando voam
no mar
dos nossos olhos

No céu líquido
dos olhos
das mulheres

Diz-me
da poesia

através da palavra
dos anjos...

Aos olhos do tempo
a transgressão
das horas

pelo dentro das nervuras
das asas

pequenos capilares de vento
onde começa a vontade
de voar

num caminhar
sedento

Têm todos os anjos
o vício:

da queda?

4 079

Gozo IV

Que tenhas de mim
o contorno incerto
acertado nas linhas do
teu corpo

os dentes nos lóbulos e no pescoço
os lábios
a língua a cobrirem os ombros

4 031

Gozo XI

Conduzes na saliva
um candelabro aceso

um chicote de gozo
nas palavras

E a seda do meu corpo
já te cede
neste odor de borco em que me abres

Sedenta e sequiosa
vou sabendo
a demorar o tempo que se espraia
ao longo dos flancos que vou tendo:

as tuas pernas
vezes teu ventre

A tua língua
vezes os teus dentes

na pressa veloz com que me rasgas

3 103

Gozo III

Põe meu amor
teu preceito

teu pénis
meu pão tão cedo
de vestir e de enfeitar
espasmos tomados por dentro

e guarnecer o deitar
daquilo que vou gemendo

Meu amor
por me habitares
com jeito de teu
invento

ou com raiva
de gritares
quando te monto e me fendo

3 622

Gozo V

Vigilante a crueldade
no meu ventre

A fenda atenta
e voraz
que devora o que é
dormente

a febre que a boca
empresta
a vela que empurra o vento

a vara que fende
a carne

a crueldade que entende
o grito sobre o orgasmo
que me prende e me desprende

3 615

Nem só

Nem só do teu silêncio
direi raiva
Nem de todo o meu corpo
direi vício

nem de todo o pénis
direi arma
e apenas do teu direi ter sido

Quando o vácuo é de
vingar
ou de vergar
cravando sobre os seios a sua enxada

Quando a minha boca se conjuga
no baixo do teu ventre
e tua espada...

nem de todo o desejo
direi verão
nem de todo o grito
a tua imagem

nem de toda a ausência
direi chão
e só de teus flancos
a viagem

4 861

Anjos do amor – III

(à minha mãe)

Vens de um sonho
tomado
da infância

quando comigo deitada nos lençois
me abraçavas
E o orgasmo te transformava as asas

Que domínio
tenho
dos teus braços?

meu amor,

ao voares sobre o que eu faço
com teu corpo de cetim
nadando em nosso abraço?

Tu voas,

como as bruxas
e os anjos

Como os rios
por dentro das nuvens

e da vagina

És o anjo
tu
das minhas asas

sobre os seios...

Suposto é de ti
que tu tens asas

luzentes:
a tremerem-te
na fala

As laminas
de metal
das tuas asas?

A lembrar o sol
a bater
nas penas dos pássaros

Tu,
és o anjo negro
da boca...

do meu corpo

4 080

Anjos da memória – V

Os anjos alados
da memória

com as suas asas
de pérgula
e medronho

a voarem noite dentro,
pelo sonho

Serás de branco
despojada de tudo
à cabeceira

por detrás do meu ombro
anjo mudo

Serás de branco
despojada de tudo,

asas supostas
de ti
à minha beira

O pássaro cintilante
da tua nudez
(uma matriz calada)

Da tua nudez

Com os teus seios
de anjo
sob as asas

A tomares conta
da memória

És um passaro – digo
És um pássaro

com penas
cintilantes
dos teus olhos

As tuas asas
de pétalas

tecidas com a luz
das penas
das asas que te crescem

Poisar um pouco
nos parapeitos
da memória

antes de recomeçar
o voo
de regresso a casa

Com as nossas asas
lúcidas:
translúcidas e pálidas

Deixa-me voar
por cima do teu
colo

até ir poisar
na tua alma

É a memória,
dos teus dedos pisados
nas asas dos meus ombros

Entrelaçados
Enlaçados

Como entranças
os sonhos

As tuas asas de prata
que atravessam a voar
o território
brando
das minhas lágrimas

Este

é o inconsciente
dos teus olhos
de águas postas – de águas sobrepostas

– rente

à meiga – à mansíssima
racha
do teu ventre

Em voo raso
perto da sua boca:

A ouvir a memória...

Há um ruido de
asas
que te é próximo

um odor a flor,
a framboeza

um sabor a leite
e a morango
numa uterina luz de penumbra acesa

Um pouco acima
dos teus olhos,
como um pássaro

a voar por dentro,
bem por dentro
do interior dos lábios...

do corpo

A parte que é
anjo
do teu corpo

e me procura a meio
da madrugada

Sobrevoando o lago
que é suposto
ser no meu sono
aquilo que calava

A parte que é
anjo
do teu corpo

e me visita
a meio da madrugada

descansando as asas
dos teus ombros,
a meu lado:
em cima da almofada

Voava,
com a memória
das asas

no sentido inverso
do silêncio

e do sono

Oiço atrás de mim,
o breve respirar
das tuas asas

– quase imperceptivel –

Um ligeiro arfar
Como a brisa a passar
por entre as casas

4 425

Anjos do Apocalipse – II

Este é o anjo do apocalipse
com a sua espada
filva

funda

Embainhada na nossa
vagina

Ei-lo que rompe
o espaço
com a espada

com o esperma

Anjo da justiça
com o seu pénis

Caminham com estandartes
Com espadas e paixão
Numa erecção calada

São os anjos do ódio
com a sua raiva
alada

Vestem o corpo
com o brilho das armaduras
e do vidro

e só depois voam...

Os arcanjos do sonho
com as suas asas
nocturnas de veludo

São os arcanjos
do sonho

Usando comigo
a sua espada
de aço

3 659

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Comentários (3)

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Virgínia
Virgínia

Nunca me esqueço de si, de quando me entrevistou, a mal-amada. Vou buscar mais um livro seu à biblioteca, ele vai-me apoiar. Talvez a encontre por aí, mulher completa.

lucy star
lucy star

Maria Teresa Parabéns pela sua coragem de escrever o que é ser mulher na sua plenitude, sem receios. No outro dia vi a na Tv2, já li alguns livros, e quero conhecê-la, acho que me encontro na sua escrita, preciso processar isso com ajuda quer ser minha confidente? fico ansiosa do sim. Beijinho da amiga que não conhece mas que a admira muito.

linda.duda@hotmail.com
[email protected]

ola Maria Teresa to com saudades de sua amiga