Mário de Andrade

Mário de Andrade

Mário Raul de Morais Andrade foi um poeta, escritor, crítico literário, musicólogo, folclorista, ensaísta brasileiro. Ele foi um dos pioneiros da poesia moderna brasileira com a publicação de seu livro Paulicéia Desvairada em 1922.

1893-10-09 São Paulo, Brasil
1945-02-25 São Paulo, São Paulo, Brasil
314328
12
80


Alguns Poemas

A Meditação sobre o Tietê

Água do meu Tietê,
Onde me queres levar?
- Rio que entras pela terra
E que me afastas do mar...
É noite. E tudo é noite. Debaixo do arco admirável
Da Ponte das Bandeiras o rio
Murmura num banzeiro de água pesada e oliosa.
É noite e tudo é noite. Uma ronda de sombras,
Soturnas sombras, enchem de noite de tão vasta
O peito do rio, que é como si a noite fosse água,
Água noturna, noite líquida, afogando de apreensões
As altas torres do meu coração exausto. De repente
O ólio das águas recolhe em cheio luzes trêmulas,
É um susto. E num momento o rio
Esplende em luzes inumeráveis, lares, palácios e ruas,
Ruas, ruas, por onde os dinossauros caxingam
Agora, arranha-céus valentes donde saltam
Os bichos blau e os punidores gatos verdes,
Em cânticos, em prazeres, em trabalhos e fábricas,
Luzes e glória. É a cidade... É a emaranhada forma
Humana corrupta da vida que muge e se aplaude.
E se aclama e se falsifica e se esconde. E deslumbra.
Mas é um momento só. Logo o rio escurece de novo,
Está negro. As águas oliosas e pesadas se aplacam
Num gemido. Flor. Tristeza que timbra um caminho de morte.
É noite. E tudo é noite. E o meu coração devastado
É um rumor de germes insalubres pela noite insone e humana.
Meu rio, meu Tietê, onde me levas?
Sarcástico rio que contradizes o curso das águas
E te afastas do mar e te adentras na terra dos homens,
Onde me queres levar?...
Por que me proíbes assim praias e mar, por que
Me impedes a fama das tempestades do Atlântico
E os lindos versos que falam em partir e nunca mais voltar?
Rio que fazes terra, húmus da terra, bicho da terra,
Me induzindo com a tua insistência turrona paulista
Para as tempestades humanas da vida, rio, meu rio!...

Já nada me amarga mais a recusa da vitória
Do indivíduo, e de me sentir feliz em mim.
Eu mesmo desisti dessa felicidade deslumbrante,
E fui por tuas águas levado,
A me reconciliar com a dor humana pertinaz,
E a me purificar no barro dos sofrimentos dos homens.
Eu que decido. E eu mesmo me reconstituí árduo na dor
Por minhas mãos, por minhas desvividas mãos, por
Estas minhas próprias mãos que me traem,
Me desgastaram e me dispersaram por todos os descaminhos,
Fazendo de mim uma trama onde a aranha insaciada
Se perdeu em cisco e polem, cadáveres e verdades e ilusões.

Mas porém, rio, meu rio, de cujas águas eu nasci,
Eu nem tenho direito mais de ser melancólico e frágil,
Nem de me estrelar nas volúpias inúteis da lágrima!
Eu me reverto às tuas águas espessas de infâmias,
Oliosas, eu, voluntariamente, sofregamente, sujado
De infâmias, egoísmos e traições. E as minhas vozes,
Perdidas do seu tenor, rosnam pesadas e oliosas,
Varando terra adentro no espanto dos mil futuros,
À espera angustiada do ponto. Não do meu ponto final!
Eu desisiti! Mas do ponto entre as águas e a noite,
Daquele ponto leal à terrestre pergunta do homem,
De que o homem há de nascer.

Eu vejo; não é por mim, o meu verso tomando
As cordas oscilantes da serpente, rio.
Toda a graça, todo o prazer da vida se acabou.
Nas tuas águas eu contemplo o Boi Paciência
Se afogando, que o peito das águas tudo soverteu.
Contágios, tradições, brancuras e notícias,
Mudo, esquivo, dentro da noite, o peito das águas,
fechado, mudo,
Mudo e vivo, no despeito estrídulo que me fustiga e devora.
Destino, predestinações... meu destino. Estas águas
Do meu Tietê são abjetas e barrentas,
Dão febre, dão morte decerto, e dão garças e antíteses.
Nem as ondas das suas praias cantam, e no fundo
Das manhãs elas dão gargalhadas frenéticas,
Silvos de tocaias e lamurientos jacarés.
Isto não são águas que se beba, conhecido, isto são
Águas do vício da terra. Os jabirus e os socós
Gargalham depois morrem. E as antas e os bandeirantes e os ingás,
Depois morrem. Sobra não. Nem siquer o Boi Paciência
Se muda não. Vai tudo ficar na mesma, mas vai!... e os corpos
Podres envenenam estas águas completas no bem e no mal.
Isto não são águas que se beba, conhecido! Estas águas
São malditas e dão morte, eu descobri! e é por isso
Que elas se afastam dos oceanos e induzem à terra dos homens,
Paspalhonas. Isto não são água que se beba, eu descobri!
E o meu peito das águas se esborrifa, ventarrão vem, se encapela
Engruvinhado de dor que não se suporta mais.
Me sinto o pai Tietê! ôh força dos meus sovacos!
Cio de amor que me impede, que destrói e fecunda!
Nordeste de impaciente amor sem metáforas,
Que se horroriza e enraivece de sentir-se
Demagogicamente tão sozinho! Ô força!
Incêndio de amor estrondante, enchente magnânima que me inunda,
Me alarma e me destroça, inerme por sentir-me
Demagogicamente tão só!

A culpa é tua, Pai Tietê? A culpa é tua
Si as tuas águas estão podres de fel
E majestade falsa? A culpa é tua
Onde estão os amigos? Onde estão os inimigos?
Onde estão os pardais? e os teus estudiosos e sábios, e
Os iletrados?
Onde o teu povo? e as mulheres! dona Hircenuhdis Quiroga!
E os Prados e os crespos e os pratos e
os barbas e os gatos e os línguas
Do Instituto Histórico e Geográfico, e os museus e a Cúria,
e os senhores chantres reverendíssimos,
Celso niil estate varíolas gide memoriam,
Calípedes flogísticos e a Confraria Brasiliense e Clima
E os jornalistas e os trustkistas e a Light e as
Novas ruas abertas e a falta de habitações e
Os mercados?... E a tiradeira divina de Cristo!...
Tu és Demagogia. A própria vida abstrata tem vergonha
De ti em tua ambição fumarenta.
És demagogia em teu coração insubmisso.
És demagogia em teu desequilíbrio anticéptico
E antiuniversitário.
És demagogia. Pura demagogia.
Demagogia pura. Mesmo alimpada de metáforas.
Mesmo irrespirável de furor na fala reles:
Demagogia.
Tu és enquanto tudo é eternidade e malvasia:
Demagogia.
Tu és em meio à (crase) gente pia:
Demagogia.
És tu jocoso enquanto o ato gratuito se esvazia:
Demagogia.
És demagogia, ninguém chegue perto!
Nem Alberto, nem Adalberto nem Dagoberto
Esperto Ciumento Peripatético e Ceci
E Tancredo e Afrodísio e também Armida
E o próprio Pedro e também Alcibíades,
Ninguém te chegue perto, porque tenhamos o pudor,
O pudor do pudor, sejamos verticais e sutis, bem
Sutis!... E as tuas mãos se emaranham lerdas,
E o Pai Tietê se vai num suspiro educado e sereno,
Porque és demagogia e tudo é demagogia.
Olha os peixes, demagogo incivil! Repete os carcomidos peixes!
São eles que empurram as águas e as fazem servir de alimento
Às areias gordas da margem. Olha o peixe dourado sonoro,
Esse é um presidente, mantém faixa de crachá no peito,
Acirculado de tubarões que escondendo na fuça rotunda
O perrepismo dos dentes, se revezam na rota solene
Languidamente presidenciais. Ei-vem o tubarão-martelo
E o lambari-spitfire. Ei-vem o boto-ministro.
Ei-vem o peixe-boi com as mil mamicas imprudentes,
Perturbado pelos golfinhos saltitantes e as tabaranas
Em zás-trás dos guapos Pêdêcê e Guaporés.
Eis o peixe-baleia entre os peixes muçuns lineares,
E os bagres do lodo oliva e bilhões de peixins japoneses;
Mas és asnático o peixe-baleia e vai logo encalhar na margem,
Pois quis engolir a própria margem, confundido pela facheada,
Peixes aos mil e mil, como se diz, brincabrincando
De dirigir a co

Ode ao Burguês

Eu insulto o burguês! O burguês-níquel
o burguês-burguês!
A digestão bem-feita de São Paulo!
O homem-curva! O homem-nádegas!
O homem que sendo francês, brasileiro, italiano,
é sempre um cauteloso pouco-a-pouco!

Eu insulto as aristocracias cautelosas!
Os barões lampiões! Os condes Joões! Os duques zurros!
Que vivem dentro de muros sem pulos,
e gemem sangue de alguns mil-réis fracos
para dizerem que as filhas da senhora falam o francês
e tocam os "Printemps" com as unhas!

Eu insulto o burguês-funesto!
O indigesto feijão com toucinho, dono das tradições!
Fora os que algarismam os amanhãs!
Olha a vida dos nossos setembros!
Fará Sol? Choverá? Arlequinal!
Mas à chuva dos rosais
o êxtase fará sempre Sol!

Morte à gordura!
Morte às adiposidades cerebrais!
Morte ao burguês-mensal!
Ao burguês-cinema! Ao burguês-tiburi!
Padaria Suíssa! Morte viva ao Adriano!
"— Ai, filha, que te darei pelos teus anos?
— Um colar... — Conto e quinhentos!!!
Más nós morremos de fome!"

Come! Come-te a ti mesmo, oh! gelatina pasma!
Oh! purée de batatas morais!
Oh! cabelos nas ventas! Oh! carecas!
Ódio aos temperamentos regulares!
Ódio aos relógios musculares! Morte à infâmia!
Ódio à soma! Ódio aos secos e molhados
Ódio aos sem desfalecimentos nem arrependimentos,
sempiternamente as mesmices convencionais!
De mãos nas costas! Marco eu o compasso! Eia!
Dois a dois! Primeira posição! Marcha!
Todos para a Central do meu rancor inebriante!

Ódio e insulto! Ódio e raiva! Ódio e mais ódio!
Morte ao burguês de giolhos,
cheirando religião e que não crê em Deus!
Ódio vermelho! Ódio fecundo! Ódio cíclico!
Ódio fundamento, sem perdão!

Fora! Fu! Fora o bom burguês!...

Mário de Andrade (São Paulo SP, 1893 - 1945) publicou seu primeiro livro de poesia, Há uma Gota de Sangue em cada Poema, em 1917. No mesmo ano, começou a colaborar na imprensa, prática a que se dedicou ao longo da vida. Foi um dos responsáveis pela Semana de Arte Moderna, em 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, onde declamou versos sob vaia e pronunciou conferência sobre Artes Plásticas, na escadaria do teatro, cercado de anônimos caçoadores. Colaborou nas revistas modernistas Klaxon e Terra Roxa, entre outros periódicos. Integrou, em 1924, a Caravana Modernista que mostrou o país ao poeta Blaise Cendrars, sendo recebido em Minas Gerais por Anibal Machado, Carlos Drummond de Andrade e Pedro Nava. Nos anos seguintes publicou livros de contos, crônicas e ensaios sobre Artes Plásticas, Arquitetura, Estética, Folclore, Música e Literatura, entre eles A Escrava que Não é Isaura, discurso sobre algumas tendências da poesia modernista (1925). Seu primeiro romance, Amar, Verbo Intransitivo, foi lançado em 1927; no ano seguinte publicou a rapsódia Macunaíma: O Herói Sem Nenhum Caráter. Foi diretor do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, criado por ele e Paulo Duarte, a convite do prefeito Fábio Prado, de 1935 a 1937, perídodo em que também foi chefe da Divisão de Expansão Cultural e do Patrimônio Histórico. Instituiu, em 1937, a Sociedade de Etnografia e Folclore, da qual foi o primeiro presidente. Em 1938 e 1939 trabalhou como diretor do Instituto de Artes e professor de História e Filosofia da Arte na Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro RJ, além de chefe de seção do Instituto Nacional do Livro. Viajou pela região Norte do país, em 1941, como pesquisador do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Em 1947 publicou o livro de poesia O Carro da Miséria e o de ficção Contos Novos. Fazem parte de sua obra poética os livros Paulicéia Desvairada (1922), Losango Cáqui (1926), Clã do Jabuti (1927), Remate de Males (1930), entre outros. Artista polimorfo, Mário de Andrade é um dos mais importantes poetas da primeira geração modernista; também é dos mais representativos ficiccionistas, ensaístas, pesquisadores e críticos brasileiros . Segundo a crítica Gilda de Mello e Souza, "uma das referências do seu código poético é o Brasil, que ele procura apreender em vários níveis, nas variações semânticas e sintáticas da língua, nos processos tradicionais da poética erudita e popular, nas imagens e metáforas que tira da realidade exterior: a cidade natal onde viveu, o mundo muito mais amplo da geografia, da história, da cultura complexa do país." Essa busca por apreender a cultura brasileira também se expressa nos traços formais e no conteúdo de suas crônicas.
-
Mário de Andrade - Brasil Escola
MÁRIO DE ANDRADE: primeira fase do modernismo, principais obras | RESUMO DE LITERATURA PARA O ENEM
Mário de Andrade: vida e obra de um dos fundadores do MODERNISMO brasileiro
QUEM FOI MÁRIO DE ANDRADE? | Marcos Moraes
Literatura - Modernismo Brasileiro - Mário de Andrade - Macunaíma e Poesias | ENEM
BIOGRAFIAS - Mário de Andrade
Em busca da alma brasileira – uma biografia de Mário de Andrade - Ciência e Letras
Conheça um pouco mais sobre Mário de Andrade
Resumão de Macunaíma de Mário de Andrade
"Mario de Andrade nunca escreveu uma linha que não fosse de 'autobustificação'", diz Ruy Castro
Descoberta gravação com voz de Mário de Andrade
Antônio Abujamra diz Mário de Andrade
Minibiografia: Mario de Andrade | Super Libris
Mário de Andrade e a construção da cultura brasileira - José Miguel Wisnik
Mário e Oswald de Andrade
OS MELHORES CONTOS DE MÁRIO DE ANDRADE
Macunaíma, de Mário de Andrade
Adriana S. Lopes | Ode ao Burguês | Mário de Andrade
MI ALMA TIENE PRISA, poema de Mario de Andrade
Eterna Presença | Poema de Mário De Andrade com narração de Mundo Dos Poemas
Lundu, por Mário de Andrade
BIOGRAFIA - MÁRIO DE ANDRADE
Mário de Andrade: reinventando o Brasil (Mestres da literatura, ep. 8/11)
Resumo de Contos Novos, de Mário de Andrade
VERBO SOLTO: "Ode ao Burguês", de de Mário de Andrade
RESUMO DA OBRA PAULICEIA DESVAIRADA, de Mário de Andrade | Análise e comentários | Vestibular UFSC
"Atrás da Catedral de Ruão" [Contos Novos], de Mário de Andrade: resumo, análise e dicas.
ATRÁS DA CATEDRAL DE RUÃO (CONTOS NOVOS) - MÁRIO DE ANDRADE ANÁLISE - VESTIB. UEL, UEM e ITA 2023
RESENHA: Amar, verbo intransitivo, de Mário de Andrade | por Ana Lis Soares
Primeiro momento moderno: Mário de Andrade
Gravação inédita de Mário de Andrade é divulgada
Mário de Andrade | Letícia Parks | Falando em Marx #16
Contos novos, Mário de Andrade - parte 2.
MACUNAÍMA de Mário de Andrade e a 1ª FASE MODERNISTA
Contos Novos, de Mário de Andrade: resumo, análise e dicas
"Um Poema, Uma Canção" 1 - INSPIRAÇÃO (Mário de Andrade / Gilberto Mendes)
Depoimento de Antonio Candido sobre Mário de Andrade [Áudio]
Gravação rara reproduz a voz de Mário de Andrade LADO 1
Moça Linda Bem Tratada - Mário de Andrade | Poesia
Arquiteturas: Biblioteca Mário de Andrade
IEB - Olhares sobre o Fichário Analítico de Mário de Andrade
"Pauliceia Desvairada" (Mário de Andrade)
RESENHA: Pauliceia desvairada, de Mário de Andrade | por Ana Lis Soares
Poesia "Contei meus anos e descobri" de Mário de Andrade - Never Alone - Poemas e games #5
Mário de Andrade
Primeiro de Maio (conto de Mário de Andrade, presente em "Contos novos"). Prof. Marcelo Nunes
O peru de Natal (conto), de Mário de Andrade. Prof. Marcelo Nunes
“O Ladrão” [Contos Novos], de Mário de Andrade: resumo, análise e dicas
Viola Quebrada (Mário de Andrade) - piano e voz: P.Barja
"Macunaíma" (Mário de Andrade)
Anna Claudia
Uma descrição um tanto agressiva sobre as pessoas kkk
20/julho/2020
Oliveira
Qual foi o ano de publicação desse poema?
18/maio/2020
Gustavo Augusto
DIogo Mendes é demais.
31/agosto/2019
jennifer
lindo
02/agosto/2019
Celso felix
Paz justiça e liberdade aos amigos secretos de ? !
02/agosto/2019
JACK
UM FAZ A DEFESA
08/maio/2018

Quem Gosta

Seguidores