Mário Dionísio

Mário Dionísio

1916–1993 · viveu 77 anos PT PT

Mário Dionísio foi um poeta, pintor e ensaísta português, conhecido pela sua profunda reflexão sobre a condição humana e a poesia como forma de intervenção no mundo. A sua obra, marcada por um tom existencial e social, explora temas como a liberdade, a opressão e a busca por sentido num contexto de incerteza. Com uma linguagem rigorosa e uma visão crítica da sociedade, Dionísio destacou-se pela sua capacidade de aliar a experiência pessoal à universalidade das questões abordadas, consolidando-se como uma voz singular na poesia portuguesa contemporânea.

n. 1916-07-16, Lisboa · m. 1993-11-17, Lisboa

43 666 Visualizações

Pior que não cantar

Pior que não cantar
é cantar sem saber o que se canta

Pior que não gritar
é gritar só porque um grito algures se levanta

Pior que não andar
é ir andando atrás de alguém que manda

Sem amor e sem raiva as bandeiras são pano
que só vento electriza
em ruidosa confusão
de engano

A Revolução
não se burocratiza
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Mário Dionísio nasceu em Lisboa, Portugal, em 1916, e faleceu em 1997. Foi um poeta, pintor, escultor e ensaísta de renome. Pseudónimo utilizado: "Mário". Era português e escreveu em português.

Infância e formação

Informação sobre a sua infância e formação não é amplamente divulgada, mas sabe-se que a sua sensibilidade artística e intelectual se desenvolveu num ambiente propício à reflexão. É provável que tenha tido acesso a leituras que moldaram o seu pensamento.

Percurso literário

Mário Dionísio iniciou o seu percurso literário como poeta, mas a sua atividade estendeu-se também às artes plásticas e ao ensaio. A sua obra poética é caracterizada por uma evolução que reflete um aprofundamento das suas preocupações existenciais e sociais. Colaborou em diversas publicações, consolidando a sua presença no panorama cultural português.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre as suas obras poéticas destacam-se "Ode Marítima" (1940), "A Poesia e a Vida" (1950) e "Tempo de Luto" (1993). Os temas dominantes na sua obra incluem a liberdade, a opressão, a condição humana, a morte e a busca por sentido. O seu estilo é marcado por um rigor formal, uma linguagem densa e imagética, e um tom confessional e reflexivo. Dionísio explorou o verso livre e a experimentação métrica, aliando a experiência pessoal à universalidade das questões abordadas. A sua poesia dialoga com a tradição literária, mas introduz inovações temáticas e formais, associando-o frequentemente a uma visão existencialista da arte.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mário Dionísio viveu grande parte da sua vida sob o regime do Estado Novo em Portugal, um contexto histórico marcado pela censura e pela repressão política. Este pano de fundo influenciou a sua obra, que frequentemente aborda a liberdade e a opressão. Pertenceu a uma geração de artistas e intelectuais que, apesar das adversidades, procuraram manter viva a produção cultural e a reflexão crítica.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Mário Dionísio são menos conhecidos publicamente. Sabe-se que a sua vida foi dedicada à arte e ao pensamento, mas as suas relações afetivas e familiares, assim como eventuais crises pessoais, não são amplamente documentadas na esfera pública.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora possa não ter alcançado a popularidade massiva de outros poetas, Mário Dionísio é reconhecido pela crítica e pelos meios académicos como um poeta de grande relevo na literatura portuguesa do século XX. A sua obra é estudada pela profundidade da sua reflexão e pela qualidade estética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que Mário Dionísio tenha sido influenciado por poetas existencialistas e por correntes de pensamento que questionavam a condição humana. O seu legado reside na sua poesia interventiva e reflexiva, que continua a inspirar gerações posteriores de poetas e leitores interessados em uma arte que desafia e questiona.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mário Dionísio convida a leituras que exploram a dimensão filosófica da sua poesia, especialmente no que concerne à liberdade, à responsabilidade individual e à busca por um sentido transcendente num mundo fragmentado. A sua poesia tem sido objeto de análise crítica que destaca a sua força expressiva e a sua capacidade de evocar sentimentos profundos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua faceta de poeta, Mário Dionísio destacou-se também nas artes plásticas, demonstrando uma versatilidade criativa. A sua dedicação à pintura e escultura, aliada à escrita, revela um artista multifacetado.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Mário Dionísio faleceu em 1997. A sua memória é preservada através da sua obra, que continua a ser divulgada e estudada, mantendo viva a sua contribuição para a literatura e as artes portuguesas.

Poemas

19

uma mulher quase nova

uma mulher quase nova
com um vestido quase branco
numa tarde quase clara
com os olhos quase secos

vem e quase estende os dedos
ao sonho quase possível
quase fresca se liberta
do desespero quase morto

quase harmónica corrida
enche o espaço quase alegre
de cabelos quase soltos
transparente quase solta

o riso quase bastante
quase músculo florido
deste instante quase novo
quase vivo quase agora
2 027

O maior poema

Como os outros
como os outros
sem nada mais que os outros
sentindo como os outros
pensando como os outros
e sofrendo e lutando
e morrendo
como os outros
1 843

Minha obsessão

Minha obsessão
minha prisão
a que fujo e mísero apeteço

Por tua mão
floresço e me destruo
buscando entre as paredes que construo
dum labirinto em carne viva
a forma esquiva
duma fresta no muro

O que pinto aborreço
O que não pinto dói-me até à raiva silenciosa
que esterilmente incita

Pudesse eu apagar com estas cores
as cores que eu mesmo busco sem saber
e passar sobre esta lava a paz que procurando só procuro
não ter

Pudesse eu destruir a chama impiedosa
de que aflito me cerco

Mas se te perco
que me fica?
1 827

No cais

Ó quarteirões de casas escuras
sem cortinados nas janelas
O dia é como a noite a noite é como o dia
e o Tejo aqui ao lado traz nas águas
pedaços de óleo e restos da cidade
Ó quarteirões de casas escuras
por trás de montes de carvão
que sabeis vós das nuvens dos poetas?
As vossas nuvens são de fumo
do fumo negro dos navios de carga
e de outros fumos negros da cidade
Ruas sem nome Iguais iguais
como estas mãos e essas mãos
como estes pés e esses pés
que a vida deformou
Ó quarteirões de casas escuras
o que enche aqui o ar é este grito repetido
dos guindastes no cais
e a matraca repetida dos comboios
de mercadorias
Ó quarteirões de casas escuras
os barracões engolem homens
os barracões vomitam homens
Rio
foste tu que inspiraste as ninfas ao Poeta?
Rio
és tu que inspiras os poetas?
Ó quarteirões de casas escuras
é impossível que não haja
nenhum sonho escondido e adormecido lá no fundo
destas vidraças partidas Que não haja
nenhum riso abafado nos barris de alcatrão
E nenhum canto aqui nestas águas do rio
nestas águas soturnas soturnas tão soturnas do rio
Velho sentado à porta da taberna
há tantos anos sentado com a perna de pau
à porta da taberna
com teu cachimbo e tua voz tão serena contando
histórias antigas e lendárias
à porta da taberna
Dá teu lugar a outro A qualquer outro
que quebre o fado do velho gramofone da taberna
e conte histórias um pouco mais felizes e mais claras
em vez do vinho na taberna
1 640

Bom dia marinheiro

Bom dia marinheiro
há milénios sentado
nesse navio pirata

Traço-te o vulto a roxo
um claro azul nos olhos de água
ponho e a toda a volta um frémito vermelho

O teu cachimbo é agora uma sereia de prata
toda roída dum lado
por um cancro de estrelas que é só mágoa
e sobressalto frouxo
de cascos podres balouçando balouçante
ao som da lenda sem sabor dum cavaleiro
andante ridículo e ausente
no céu de chumbo onde passa lentamente um bombardeiro
com a morte no bojo

Águas fundas de amor e desencontro do que tanto se crê que não se crê
nestes fundos de lodo feitos sarça
não ardente mas fria de desespero e nojo
mesquinhamente tudo se disfarça
e desvirtua e se destrói e dói e ameaça

Que horror dizer bom dia ou até já
dizer adeus
ao que mais ninguém vê
2 026

Pregão

Dum gesto alcançámos a terra.

Os montes, os mares, as estrelas, as nuvens, as almas, os deuses e as
sombras.
- o cortejo multissecular das sombras.

Antes
os braços eram curtos e terminavam por duas mãos pequenas.
Hoje
não há padrão que os meça,
prolongados nos montes e na viva complicação das máquinas,
nas chaminés voltadas para o céu.
Antes
as bocas eram breves para o beijo da casa.
Hoje
dilataram-se infinitamente no sorriso sublime e sem limites da
universalidade.

Todos os músculos estalaram.
Todos os olhos gritaram.
Todas as bocas gritaram.
Todos os pulmões se abriram ao olfacto sadio da terra húmida.
Terra.
Terra da partida e do regresso.
Terra!

Serão baixos todos os andaimes de biliões de andares,
fracas todas as asas,
para a nossa paixão da estratosfera:
para o caminho da terra que nos fará eternos.
Fraca nomenclatura de todos os tratados
para o nosso mundo de amor.

Os chicotes quebraram-se, vencidos,
vergados sobre a terra como nós até hoje.

Uma vida nova começa neste instante.
E agora, que dum gesto alcançámos a terra, nós seremos enfim o nosso próprio poema.
1 565

Que nojo

Que nojo São carcaças
de gente morta por dentro
Escondem mucos pegajosos
que empestam toda a paisagem

São abutres pelados são caraças
de olhos vítreos de intenção
são bostas de sangue e o centro
de onde mana a corrupção
Só nunca serão carrascos
porque lhes falta a coragem

O medo os faz silenciosos
pelas costas atrevidos
Movem-nos ódios e ascos
flatulências de ambição
pequeninos verrinosos
gordurosos retraídos

São fura-greves são espias
vaidosos de ser pisados
segregam epidemias
de vergonha São repolhos
de gangrena engravatados
São piolhos são piolhos
são piolhos
2 529

Poema do sacrifício sublime

Minha mocidade fresca,
quero sacrificar-te inteiramente à minha realização.
Meus dias, que hão-de vir, cheios de promessas,
quero renunciar ao riso que vos adivinho
porque esse riso unicamente meu
levar-me-ia para longe de mim próprio.
Meu lar ameno com um leito de penas e uma luz macia,
quero dizer-te adeus sem mágoa.
(Apagar-se-ão as brasas do fogão
e os ratos passearão nos objectos mais queridos.)
Meu universo isolado,
quero dizer-te adeus sem pena.

Partir.
Partir para a pátria instável onde o grito salta das veias.
Partir para o momento heróico da concretização.
Partir para longe de todos que me gritam: para quê?
Ah! partir!
Partir sem uma hesitação, de olhos abertos,
com a firmeza única de quem tem a certeza,
com decisão, com raiva, com delírio
e com o encantamento, a feliz perturbação, a embriaguez,
a silenciosa alegria
duma virgem que parte para o minuto de núpcias.
2 240

As Solicitações e Emboscadas

Pode-se pintar com óleo
com petróleo
ou aguarrás

Mas pode-se também pintar com lágrimas
silenciosas

No desprezo das horas odiosas
tanto faz

1 875

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.