Mário Faustino

Mário Faustino

1930–1962 · viveu 32 anos BR BR

Mário Faustino foi um poeta, crítico e tradutor brasileiro, figura proeminente da Geração de 45. A sua obra poética, embora concisa, é marcada pela experimentação formal, pela ironia e pela profunda reflexão sobre a linguagem e a condição humana. Como crítico, destacou-se pela sua agudeza e pela sua visão inovadora, contribuindo significativamente para a renovação da crítica literária no Brasil. A sua atuação como tradutor também foi relevante, introduzindo importantes obras da literatura estrangeira no país.

n. 1930-10-22, Teresina · m. 1962-11-27, Lima

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Romance

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória,
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sonho vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena.
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.


Publicado no livro O Homem e Sua Hora (1955). Poema integrante da série I - Disjecta Membra.

In: FAUSTINO, Mário. Os melhores poemas. 2.ed. São Paulo: Global, 1988. (Os Melhores poemas, 14
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Biografia

Identificação e contexto básico

Mário Faustino foi um poeta, tradutor e crítico literário brasileiro. Nasceu em São Paulo, a 7 de julho de 1930, e faleceu na mesma cidade, a 4 de fevereiro de 1965. É uma das figuras mais importantes da Geração de 45 no Brasil.

Infância e formação

Frequentou o curso de Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), onde teve contacto com importantes intelectuais da época. A sua formação foi marcada por um grande interesse pela literatura, filosofia e artes.

Percurso literário

Iniciou a sua atividade literária no final da década de 1940 e início da de 1950. Foi um dos fundadores da revista "Revista Brasileira de Poesia" (1955-1956), um importante veículo de divulgação da poesia da sua geração. Também colaborou ativamente em outras publicações, como o jornal "O Estado de S. Paulo" e a revista "Anhembi".

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A sua obra poética, reunida em "Poesia" (1959), "A última viagem em torno da casa" (1960) e "A manhã do mundo" (1965), é caracterizada pela experimentação formal, pelo uso da ironia e pela reflexão sobre a linguagem. Faustino era conhecido pela sua busca por novas formas de expressão poética, muitas vezes com um tom intelectual e crítico. Temas como a condição humana, a incomunicabilidade e a busca por sentido em um mundo complexo são recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Integrou a Geração de 45, um movimento que buscava romper com os excessos do modernismo e propor um retorno a formas mais contidas e à reflexão sobre a linguagem. Viveu o período de efervescência cultural e política do Brasil nas décadas de 1950 e início de 1960.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Mário Faustino teve uma vida relativamente curta, marcada por uma intensa atividade intelectual e literária. A sua morte prematura, aos 34 anos, deixou um sentimento de perda na literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra poética seja mais concisa, Mário Faustino obteve reconhecimento pela sua agudeza como crítico literário e pela sua atuação como tradutor. É considerado um dos expoentes da Geração de 45.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciou poetas posteriores com a sua ousadia formal e a sua abordagem crítica da linguagem. Como crítico, deixou um marco na renovação da crítica literária brasileira. A sua obra poética é estudada pela sua modernidade e pela sua capacidade de síntese.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Mário Faustino é frequentemente analisada pela sua complexidade intelectual, pelo seu jogo com a linguagem e pela sua visão por vezes pessimista, mas sempre lúcida, da existência humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Faustino era conhecido pela sua inteligência viva e pela sua capacidade de argumentação, tanto na poesia quanto na crítica.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu precocemente em São Paulo em 1965. A sua obra foi publicada postumamente, consolidando o seu lugar na história da literatura brasileira.

Poemas

12

Sextina: Altaforte

Loquitur: En Bertrans de Born
Dante Alighieri pôs este homem no inferno por
tratar-se de um provocador de desordens.

Eccovi!
Julgai-o vós!
Será que o desenterrei de novo?

A cena é em seu castelo, Altaforte. "Papiols" é seu jongleur.
"O Leopardo", a device de Ricardo Coeur de Lion.


I

Tudo prós diabos! Todo este Sul já fede a paz.
Anda cachorro bastardo, Papiols! À música!
Só sei que vivo se ouço espadas que ressoam.
Mas ah! Com os estandartes ouro e roxo e vair se opondo
Por cima de amplos campos encharcados de carmim
— Uiva meu peito então doido de júbilo.

II

Se é verão quente, encho-me então de júbilo
Quando a tormenta mata a horrenda paz,
E do negro os relâmpagos reboam seu carmim,
E os tremendos trovões rugindo-me, que música!
Doidos ventos e nuvens ululando e se opondo
Céu rachando e teus gládios, Deus, ressoam.

III

Praza aos diabos de novo que ressoem!
E os corcéis na batalha relinchando de júbilo,
De espigão na peitarra às peitarras se opondo:
Melhor o tremor de uma hora do que meses de paz
Mesa gorda, fêmeas, vinho, débil música!
Não há vinho como o sangue e seu carmim!

IV

E adoro ver o sol subir sangue-e-carmim.
E contemplo-lhe as lanças que no escuro ressoam
E transborda meu peito, dilatado de júbilo,
E rasgo minha boca de ágil música
Quando o vejo zombar, desafiando a paz,
Seu poder solitário contra o escuro se opondo.

V

Esse que teme a guerra e se acocora opondo-
Se ao que digo, não tem sangue carmim,
Só serve pra feder em feminina paz
Longe donde as aspadas trazem glória e ressoam
— Vossa morte, cadelas, recrudesce-me o júbilo
E por isso encho o ar com minha música.

VI

Papiols! papiols! Música, música!
Não há som como espadas às espadas se opondo,
Não há grito como na batalha o júbilo,
Cotovelos e espadas gotejando carmim,
Quando contra "O Leopardo" nossas cargas ressoam.
Deus maldiga quem quer que grite "Paz!"

VII

Que a música da espada os cubra de carmim!
Praza ao diabo, de novo, espadas que ressoam!
Praza ao diabo apagar o pensamento "Paz!"

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Poema integrante da série Fontes e Correntes da Poesia Contemporânea: 13. Ezra Pound.

In: FAUSTINO, Mário. Poesia-experiência. Introd. Benedito Nunes. São Paulo: Perspectiva, 1977. (Debates, 136).

NOTA: Tradução de poema de Ezra Poun
1 993

Soneto

Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.

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