Lista de Poemas

Sentimento Clássico

Pisados, os olhos com que pisaste
a soleira escura de minha face;
e por mais pontes que entre nós lançasse,
ao que de fato sou nunca chegaste.

Que distâncias lamento, e que contraste !
Gravando em cada ser o amor que nasce
não encontrei o amor que me encontrasse:
amaram sem me ver, como me amaste.

Tinha os olhos tristes como eu tenho,
e o pranto que eu te trouxe de onde venho
é o mesmo que te espera adonde vais.

Se a mesma sóbria dor em tudo pomos,
não vês o que me calo. E assim nós somos
o que não somos nem seremos mais.

1 291

Tarde na Ilha

Não sei por que,
mas tenho
uma vontade mansa de tomar chá
com Thomas Steams Eliot,
de não dizer nada
de não perguntar nada,
e ficar olhando
todas as manchetes e todas as capas
de todos os livros,
olhando de olhos vazios
não como os do morto, mas vazios
como o luar que orvalha a tamareira e o poço.

Uma vez ou outra, ouvirei
a colherinha pousar na porcelana frágil,
e é tudo que eu ouvirei, a colherinha de prata.

Talvez até lhe disesse uma coisa qualquer, uma coisa
só para quebrar o silêncio, só para isso,
uma coisa sem importância, simples, como por exemplo:
Você sabe, ó T. S. Eliot, minha mãe já foi muito bonita ...

1 199

Poema quase Explicação

Luzes cortam a noite básica
e desenham o mundo em que vivemos.
As estátuas de mármore então brotam
dos lábios e das mãos dos que pararam
e verticalmente apenas olham.

E as estrelas derramam pedra e cal
construindo em cada olhar muralhas
onde fonte magra pinga sol e lua,
- e o relógio é um deus cantando as horas
horas de pedra e cal.

Simplificado como uma lágrima
tu cruzaste a ponte em meninos mortos,
e se teus dedos - já cimento, se crisparam,
teus olhos se encheram de relâmpagos
afiados para os homens de olhos de pedra e cal.

Não mais o refletido caminhar
de teus passos na noite iluminada,
mas descer com os olhos a ladeira
e deixá-los no cárcere sem portas
onde os ratos e os anjos se devoram.

Impassível como um tronco de árvore, onde
os homens gravam a canivete o que calaram.

1 282

Auto-Retrato

Certa vez, numa aventura estranha
fugi
do estreito túmulo em que me estorcia
para uma ampliação sem fim.
Quando voltei
e senti, de novo, ferindo-me, o peso dos grilhões,
então não mais sabia quem eu era.
E nunca mais soube quem eu sou.
Talvez a sombra triste de um sonho de poeta.
Talvez a misteriosa alma de uma estrela
a guardar ainda no profundo cerne
a ilógica saudade de um passado astral.

[C.T., 1959.1

1 584

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Identificação e contexto básico

Moacyr Felix foi um poeta, dramaturgo, contista, crítico literário e professor universitário brasileiro. Nascido no Rio de Janeiro, é considerado uma figura importante da segunda geração do modernismo brasileiro. Sua obra se destaca pela linguagem coloquial, pela crítica social e pela exploração da cultura popular.

Infância e formação

Moacyr Felix nasceu e cresceu na cidade do Rio de Janeiro. Sua formação universitária ocorreu na Faculdade Nacional de Filosofia, onde se graduou em Letras. Essa formação acadêmica, aliada ao seu envolvimento com os círculos literários da época, foi fundamental para o desenvolvimento de sua carreira.

Percurso literário

Felix iniciou sua carreira literária como poeta, publicando sua primeira obra em 1944. Rapidamente se inseriu no cenário modernista, dialogando com outros escritores de sua geração. Além da poesia, dedicou-se à dramaturgia, escrevendo peças que frequentemente abordavam temas sociais e políticos. Atuou também como contista e crítico literário, colaborando em diversos jornais e revistas, como a "Revista Brasileira de Poesia" e o "Jornal do Brasil". Sua atividade como professor universitário foi igualmente relevante para sua trajetória.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Moacyr Felix é marcada pelo uso de uma linguagem oralizada, próxima do falar brasileiro, em contraste com o lirismo mais formal de gerações anteriores. Seus temas recorrentes incluem o cotidiano das cidades, as desigualdades sociais, a cultura popular (o samba, o carnaval) e a reflexão sobre a própria condição humana. Em sua obra poética, o verso livre é predominante, com um ritmo muitas vezes ágil e musical. O tom pode variar do irônico ao engajado, com forte senso crítico. Na dramaturgia, suas peças exploram conflitos sociais e existenciais, utilizando diálogos incisivos. Sua obra se alinha ao espírito do modernismo brasileiro, com ênfase na identidade nacional e na linguagem autêntica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Moacyr Felix viveu e produziu em um período de intensas transformações no Brasil, incluindo o período do Estado Novo e o pós-Segunda Guerra Mundial. Ele participou ativamente dos debates culturais e literários de seu tempo, sendo um dos representantes da chamada "Geração de 45" ou segunda fase do modernismo. Sua obra reflete as tensões sociais e políticas do Brasil, dialogando com outros intelectuais e artistas que buscavam uma expressão mais genuína da identidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre os detalhes íntimos de sua vida pessoal. No entanto, sua dedicação à literatura e ao ensino universitário demonstra um forte compromisso com a vida intelectual e cultural.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Moacyr Felix foi um autor respeitado em seu meio, reconhecido por sua originalidade e pela força de sua linguagem. Suas obras foram publicadas e reeditadas, e seu nome figura em importantes antologias da poesia brasileira. Sua atuação como crítico literário também contribuiu para a consolidação de sua reputação.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Felix foi influenciado por poetas como Oswald de Andrade e pela poesia concreta em sua experimentação com a linguagem. Por outro lado, sua obra influenciou poetas posteriores que buscaram a incorporação do coloquialismo e a crítica social em seus versos. Seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia brasileira e na defesa de uma linguagem mais próxima da realidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Moacyr Felix tem sido analisada por seu pioneirismo no uso do coloquialismo na poesia, pela sua capacidade de capturar o espírito de seu tempo e pela sua crítica social contundente. Sua poesia é vista como um reflexo autêntico da cultura e da sociedade brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além de sua obra literária, Felix teve uma prolífica carreira como professor universitário, dedicando-se ao ensino e à pesquisa na área de literatura brasileira, o que enriqueceu sua compreensão e abordagem da arte literária.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Moacyr Felix faleceu em 1997, no Rio de Janeiro. Sua obra continua a ser estudada e apreciada como parte fundamental do patrimônio literário brasileiro.