Lista de Poemas
O Fósforo
acendo Prometeu, o futuro, a liquidação dos falsos deuses,
o trabalho do homem.
o
O fósforo: tão rabbioso quanto secreto. Furioso, deli-
cado. Encolhe-se no seu casulo marrom; mas quando cha-
mado e provocado, polêmico estoura, esclarecendo tudo.
O século é polêmico.
o
O gás não funciona hoje. Temos greve dos gasistas. A
Itália tornou-se a Grevelândia. Mas preferimos essa semi-
-anarquia à "ordem" fascista.
O fósforo, hoje em férias, espera paciente no seu casulo
o dia de amanhã desprovido de greves. O dia racional, o
dia do entendimento universal, o dia do mundo sem classes,
o dia de Prometeu totalizado.
o
O fósforo é o portador mais antigo da tradição viva. Eu
sou pela tradição viva, capaz de acompanhar a correnteza
da modernidade. Que riquezas poderosas extraio dela!
Subscrevo a grande palavra de Jaures: "De l'autel des
ancêtres on doit garder non les cendres mais le feu."
Poema integrante da série Setor Micro-Lições de Coisas.
In: MENDES, Murilo. Poliedro: Roma, 1965/66. Pref. Eliane Zagury. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1972
Grafito para Ipólita
A tarde consumada, Ipólita desponta.
Ipólita, a putain do fim da infância.
Nascera em Juiz de Fora, a família em Ferrara.
Seus passos feminantes fundam o timbre.
Marcha, parece, ao som do gramofone.
A cabeleira-púbis, perturbante.
Os dedos prolongados em estiletes.
Os lábios escandindo a marselhesa
Do sexo. Os dentes mordem a matéria.
O olho meduseu sacode o espaço.
O corpo transmitindo e recebendo
O desejo o chacal a praga o solferino.
Pudesse eu decifrar sua íntima praça!
Expulsa o sol-e-dó, a professora, o ícone
Só de vê-la passar, meu sangue inobre
Desata as rédeas ao cavalo interno.
2
Quando tarde a revejo, rio usado,
Já a morte lhe prepara a ferramenta.
Deixa o teatro, a matéria fecal.
Pudesse eu libertar seu corpo (Minha cruzada!)
Quem sabe, agora redescobre o viso
Da sua primeira estrela, esquartejada.
3
Por ela meus sentidos progrediram.
Por ela fui voyeur antes do tempo.
4
O dia emagreceu. Ipólita desponta.
Roma 1965
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Grafito numa Cadeira
Fundamental que nem osso
Não poltrona com pés de metal
Knoll
Ou projetada por um sub-Moholy Nagy
Com nota didascálica
Antes cadeira no duro
Cadeira de madeira
Anônima
Inânime
Unânime
Cadeira quadrúpede
Não aguardas
Nenhuma "iluminação" particular
Nem assento e clavícula de nenhuma deusa
Que te percutisse — gong —
Nem de nenhum Van Gogh
Que súbito te tornasse
Eterna
Roma, 1964
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Guernica
Subsiste para sempre a honra castiça,
A jovem e antiga tradição do carvalho
Que descerra o pálio de diamante.
A força do teu coração desencadeado
Contactou os subterrâneos de Espanha.
E o mundo da lucidez a recebeu:
O ar voa incorporando-se teu nome.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Texto de Consulta
A página branca indicará o discurso
Ou a supressão o discurso?
A página branca aumenta a coisa
Ou ainda diminui o mínimo?
O poema é o texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta - o texto?
O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta o contexto do texto?
O texto visível é o texto total
O antetexto o antitexto
Ou as ruínas do texto?
O texto abole
Cria
Ou restaura?
2
O texto deriva do operador do texto
Ou da coletividade — texto?
O texto é manipulado
Pelo operador (ótico)
Pelo operador (cirurgião)
Ou pelo ótico-cirurgião?
O texto é dado
Ou dador?
O texto é objeto concreto
Abstrato
Ou concretoabstrato?
O texto quando escreve
Escreve
Ou foi escrito
Reescrito?
O texto será reescrito
Pelo tipógrafo / o leitor / o crítico;
Pela roda do tempo?
Sofre o operador:
O tipógrafo trunca o texto.
Melhor mandar à oficina
O texto já truncado.
6
A palavra cria o real?
O real cria a palavra?
Mais difícil de aferrar:
Realidade ou alucinação?
Ou será a realidade
Um conjunto de alucinações?
7
Existe um texto regional / nacional
Ou todo texto é universal?
Que relação do texto
Com os dedos? Com os textos alheios?
(...)
9
Juízo final do texto:
Serei julgado pela palavra
Do dador da palavra / do sopro / da chama.
O texto-coisa me espia
Com o olho de outrem.
Talvez me condene ao ergástulo.
O juízo final
Começa em mim
Nos lindes da
Minha palavra.
Roma, 1965
Poema integrante da série Sintaxe.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Murilograma a Graciliano Ramos
Brabo. Olhofaca. Difícil.
Cacto já se humanizando,
Deriva de um solo sáfaro
Que não junta, antes retira,
Desacontece, desquer.
2
Funda o estilo à sua imagem:
Na tábua seca do livro
Nenhuma voluta inútil.
Rejeita qualquer lirismo.
Tachando a flor de feroz.
3
Tem desejos amarelos.
Quer amar, o sol ulula,
Leva o homem do deserto
(Graciliano-Fabiano)
Ao limite irrespirável.
4
Em dimensão de grandeza
Onde o conforto é vacante,
Seu passo trágico escreve
A épica real do BR
Que desintegrado explode.
Roma, 1963
Poema integrante da série Convergência.
In: MENDES, Murilo. Convergência, 1963/1966: 1 — convergência; 2 — sintaxe. São Paulo: Duas Cidades, 1970
Canto a García Lorca
Nas oliveiras desertas,
O lamento de água oculta
Nos pátios da Andaluzia.
Trago-te o canto poroso,
O lamento consciente
Da palavra à outra palavra
Que fundaste com rigor.
O lamento substantivo
Sem ponto de exclamação:
Diverso do rito antigo,
Une a aridez ao fervor,
Recordando que soubeste
Defrontar a morte seca
Vinda no gume certeiro
Da espada silenciosa
Fazendo irromper o jacto
De vermelho: cor do mito
Criado com a força humana
Em que sonho e realidade
Ajustam seu contraponto.
Consolo-me da tua morte.
Que ela nos elucidou
Tua linguagem corporal
Onde el duende é alimentado
Pelo sal da inteligência,
Onde Espanha é calculada
Em número, peso e medida.
Publicado no livro Tempo Espanhol (1964).
In: MENDES, Murilo. Antologia poética. Sel. João Cabral de Melo Neto. Introd. José Guilherme Merquior. Rio de Janeiro: Fontana; Brasília: INL, 197
Pós-Poema
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
Angústia e Reação
Há dias em que para nosso movimento em Deus,
Há tardes em que qualquer vagabunda
Parece mais alta do que a própria musa.
Há instantes em que um avião
Nos parece mais belo que um mistério de fé,
Em que uma teoria política
Tem mais realidade que o Evangelho.
Em que Jesus foge de nós, foi para o Egito;
O tempo sobrepõe-se à ideia do eterno.
É necessário morrer de tristeza e de nojo
Por viver num mundo aparentemente abandonado por Deus,
E ressuscitar pela força da prece, da poesia e do amor.
É necessário multiplicar-se em dez, em cinco mil.
É necessário chicotear os que profanam as igrejas
É necessário caminhar sobre as ondas.
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