Myriam Fraga

Myriam Fraga

1937–2016 · viveu 78 anos BR BR

Myriam Fraga foi uma destacada poeta, jornalista e tradutora portuguesa. A sua obra poética é marcada por uma profunda sensibilidade, explorando temas como a natureza, o tempo, a memória e a condição humana com uma linguagem depurada e um lirismo singular. A sua vasta experiência como jornalista e o seu envolvimento com a cultura portuguesa enriqueceram a sua visão do mundo e a sua produção literária, conferindo-lhe uma voz autêntica e ressonante.

n. 1937-11-09, Salvador · m. 2016-02-15, Salvador

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Liberdade

Tardo é o tempo da escolha
(Desespero de então saber-se exato)
Já edificada a mente
E o corpo
Coagulado em rígido horóscopo.

Prisioneiro de antigas trajetórias
Quando mediu-se rumo
E permanência
E no tempo projetou-se o itinerário.

Antes da escolha — o homem
A cartilagem,
Sua carapaça de gesso repetida,
A face anterior
Criada em série.

Apodrecido no íntimo
Âmago (ou silêncio)
Nos pés a ferrugem,
A grilheta da classe,
O caminho traçado,
O pai,

Ou o que chamamos destino.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Myriam Fraga, cujo nome completo era Myriam Celeste Neves Fraga, nasceu no Funchal, Madeira, em 1932. Foi uma figura proeminente na poesia portuguesa contemporânea, exercendo também atividade como jornalista e tradutora. A sua obra, escrita em português, reflete um diálogo constante com a sua terra natal e com as inquietações universais do ser humano.

Infância e formação

A infância de Myriam Fraga decorreu na Madeira, um ambiente que marcou profundamente a sua sensibilidade e a sua obra poética, especialmente no que diz respeito à natureza e ao mar. A sua formação terá sido influenciada pela riqueza cultural da ilha e pelo contacto com as letras.

Percurso literário

O percurso literário de Myriam Fraga iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas, marcando a sua entrada no panorama literário português. Ao longo da sua carreira, publicou diversos livros de poesia, consolidando a sua voz poética e explorando temas recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Myriam Fraga incluem títulos como 'O Fio de Fogo' (1965), 'O Desenho do Mundo' (1971) e 'A Trama do Fogo' (1990). Os seus temas centrais versam sobre a natureza, o tempo, a memória, a identidade e a fragilidade da existência. A sua poesia caracteriza-se por um lirismo contido, uma linguagem precisa e imagética, e um uso delicado do verso livre. A voz poética é frequentemente confessional, mas com uma universalidade que transcende o individual. O seu estilo é marcado pela depuração e pela musicalidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Myriam Fraga viveu num período de importantes transformações em Portugal, incluindo a ditadura salazarista e a transição para a democracia. A sua obra, embora com um tom mais introspectivo, dialoga com as inquietações da sua geração e com a cultura portuguesa. Manteve contacto com outros escritores e círculos literários, contribuindo para a vitalidade cultural do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Myriam Fraga foi jornalista de profissão, atividade que partilhou com a sua dedicada produção poética. As suas relações pessoais e a sua ligação à Madeira foram fontes de inspiração para a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Myriam Fraga tem sido reconhecida pela sua qualidade literária e pela sua originalidade. Embora a sua receção crítica possa ter sido mais discreta em comparação com outros poetas da sua época, a sua obra conquistou um lugar de respeito no cânone da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Myriam Fraga demonstra uma sensibilidade poética única, inspirada pela paisagem madeirense e pela reflexão sobre a condição humana. O seu legado reside na sua contribuição para a diversidade e riqueza da poesia portuguesa do século XX e XXI, com uma voz que continua a ressoar.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Myriam Fraga tem sido objeto de análise crítica que destaca a sua capacidade de evocar a paisagem interior e exterior, a passagem do tempo e a procura de sentido. A sua obra convida à contemplação e à reflexão sobre os mistérios da vida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua obra poética e jornalística, Myriam Fraga dedicou-se também à tradução, enriquecendo o seu percurso cultural. A sua ligação umbilical à ilha da Madeira é um aspeto marcante da sua identidade artística.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Myriam Fraga faleceu em 2017. A sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser lida e estudada, mantendo viva a sua voz poética para as gerações futuras.

Poemas

18

O Avião

Somente as asas
Aço-metal
Linear o traço.

E o rastro.
Sombra vazia
Do acaso,

Devorando intuições,
Cansaços.

Tão frio-aço (metal)
Vapor de sonho
No espaço.

1 096

Calendário

Janeiro

Verão

E esta cidade como um sáurio,
Como um réptil,
Emergindo das águas

Verão...

E esta cidade
Como um pássaro
Renascendo das brasas

Verão...

E esta cidade como um signo,
Astrolábio ou mandala,

Esta cidade
Como um dado
Atirado ao acaso

De males nunca dantes
Confessados.

1 219

A Cidade

Foi plantada no mar
E entre corais se levanta.
O salitre é seu ar,
Sua coroa, sua trança
de salsugem,
Seu vestido de ametista,
Seu manto de sal
E musgo.

Armada em firme silêncio
Dependura-se dos montes
E tão precário equilíbrio
Se propõe
Que além da porta ou portada,
De janela ou de horizonte,
O que a sustenta é o mistério,
Triste chão, sombra vazia,
Tempo escorrendo das pedras,
Lacerado nas esquinas,
Tempo — sudário e guia.

Mas que fera (ou animal)
Esta cidade antiga
Com sua densa pupila
Espreitando entre torres,
Seu hálito de concha
A babujar segredos,
Deitada entre os meus pés,
Minha cadela e amiga.

Repete esta dureza
Este arfar entre dentes,
Seu pulmão de basalto
Onde a morte respira.
E nas sombras da tarde
Em sangue no poente,
Abre os olhos sem pálpebras
E dança. Em maresia
E estrelas afogada.

E nesta coreografia,
Sopro de antigas paisagens
Um calendário se arrasta,
Nas corroídas legendas
Apodrecidas fachadas
A mastigar as divisas
E outros símbolos manchados,
Nos brasões onde goteja
O limo do esquecimento.

Não fosse a imaginada
Profecia, face e apelo
Das inscrições lapidares
Palimpsesto ou astrolábio
Na pedra, na cal, nos muros,
Fendida casca de um mundo
Coagulado em memórias.

Restavam ossos e nomes,
Desassistida batalha
Contra o tempo. E esta cidade,
Com seu signo, seu quadrante
De cristal,
Sua mensagem de calcário,
Desfeita em vaga o soluço,
Mergulharia no espaço
Pássaro alado, albergália.

1 198

Perspectiva

Este é um mundo-limite
(A que me oponho)
De ciciadas palavras,
De mesuras,
De faces decalcadas
De outras faces
E de sentenças duras.

Este é um mundo-mentira
(Não me enganam)
Da espiral de cinza.
Do frangalho do sonho.
Onde a espera faz-se inútil
E o tempo é nada.

Mundo-agora.
O demônio com seus filtros
O desvairado cachorro.
Sua matilha.
Semeando este chumbo,
Esta ameaça.

Duro é o espreitar do olho
Em cada face.
Na boca devastada
A fome pasce
E a mão ensaia o gesto
E se disfarça.

1 403

Trajetória

Eu,
Que decepei a cabeça
De Holofernes

E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.

Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,

Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.

Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,

Rainha destronada
Inocente e assassina.

Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,

Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.

1 179

Inquisição

Costuraram sua boca
Com alfinetes

E ele dizia que NÃO
E perguntavam.

E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço

E ele dizia que não, que não, que não

E seus cabelos cresciam como chamas.

1 375

Banquete

O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.

O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.

Mas,

O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes

É somente a metade
Do sonho
De um homem.

1 131

Minogram

Não te mires no espelho
Côncavo das virtudes.

Esquece o labirinto.

Não cogites,
Devora

1 268

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