Lista de Poemas

Calendário

Janeiro

Verão

E esta cidade como um sáurio,
Como um réptil,
Emergindo das águas

Verão...

E esta cidade
Como um pássaro
Renascendo das brasas

Verão...

E esta cidade como um signo,
Astrolábio ou mandala,

Esta cidade
Como um dado
Atirado ao acaso

De males nunca dantes
Confessados.

1 204

Os Retratos

I
Na matemática severa
Das imagens
Em retângulo brilhante
A face,
Preservada.

Aqui o tempo é um esmalte claro
E o traço outrora impreciso
É perfeito e mineral.

Somente extinta aparência
Vislumbrada além do morto
Confinado
Nos retratos.

II
Em luz e sombra agora
O contemplado
Rosto de antigamente
Exato e raro.

Tudo que foi
Aqui está enterrado.

Em branco e preto
A soma revelada
Do que outrora foi vida
E hoje é distância.

1 206

Março

...e estes marços doendo
como pedras nos rins,
charadas que não invento
e nem sei de memória
se há memória
além de um domingo de março
azul, perfeito.
Todas as areias rolaram sobre
de todas as possíveis clepsidras
só o olho-farol, olho brilhante
antigo, a me guiar nas trevas
do regresso. não haverá,
não haverá, porto, viajante,
nenhuma ítaca te espera,
nenhuma Colchida, nem mesmo os arrecifes
no cais de tua infância.
Apenas a morte suave de olhos triste
tão rápida e indolor, tão limpa guilhotina.

... e estas tardes de março
viageias. Sei o peso da ausência. Sei a dor
das lembranças tatuadas
na carne, coladas e desfolhadas
como pele queimada que se arranca.
nenhuma presença é mais real
que a falta. Corpo de solidão
deslizando entre móveis, marfins,
folhas soltas de um livro,
marca da prata, desenhos no tapete,
cavalos, leão de pedra, lembranças
que se acendem em faróis iluminando
o outro lado do abismo,
o precipício, o vazio, onde tudo acaba.



1 101

Possessão

O poema me tocou
Com sua graça,
Com suas patas de pluma,
com seu hálito
De brisa perfumada.

O poema fez de mim
O seu cavalo;
Um arrepio no dorso,
Um calafrio,
Uma dança de espelhos
E de espadas.

De repente, sem aviso,
O poema como um raio,
- Eleobá, pomba gira!
Me tocou com sua graça

1 731

Banquete

O vinho
que eu bebo
É o preço
De um homem.

O prato que eu como,
Sem fome,
É o salário
Da fome
De um homem.

Mas,

O sonho que eu travo
Com fúria nos dentes

É somente a metade
Do sonho
De um homem.

1 110

Trajetória

Eu,
Que decepei a cabeça
De Holofernes

E apascentava os leões
Com vinhos de Marsala.

Eu,
Que dormi com Pizarro
Numa tenda encarnada,

Sacerdotisa do jaguar
E da serpente emplumada.

Eu,
Maria, a Sanguinária,
Isabel, a Católica,

Rainha destronada
Inocente e assassina.

Hoje masco chicletes
Perfumados a menta,

Estrela absoluta
Dos filmes de pornô.

1 165

Inquisição

Costuraram sua boca
Com alfinetes

E ele dizia que NÃO
E perguntavam.

E cortaram seus dedos
E o lançaram
Bem no fundo do poço

E ele dizia que não, que não, que não

E seus cabelos cresciam como chamas.

1 362

Minogram

Não te mires no espelho
Côncavo das virtudes.

Esquece o labirinto.

Não cogites,
Devora

1 254

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Identificação e contexto básico

Myriam Fraga, cujo nome completo era Myriam Celeste Neves Fraga, nasceu no Funchal, Madeira, em 1932. Foi uma figura proeminente na poesia portuguesa contemporânea, exercendo também atividade como jornalista e tradutora. A sua obra, escrita em português, reflete um diálogo constante com a sua terra natal e com as inquietações universais do ser humano.

Infância e formação

A infância de Myriam Fraga decorreu na Madeira, um ambiente que marcou profundamente a sua sensibilidade e a sua obra poética, especialmente no que diz respeito à natureza e ao mar. A sua formação terá sido influenciada pela riqueza cultural da ilha e pelo contacto com as letras.

Percurso literário

O percurso literário de Myriam Fraga iniciou-se com a publicação dos seus primeiros poemas, marcando a sua entrada no panorama literário português. Ao longo da sua carreira, publicou diversos livros de poesia, consolidando a sua voz poética e explorando temas recorrentes.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Myriam Fraga incluem títulos como 'O Fio de Fogo' (1965), 'O Desenho do Mundo' (1971) e 'A Trama do Fogo' (1990). Os seus temas centrais versam sobre a natureza, o tempo, a memória, a identidade e a fragilidade da existência. A sua poesia caracteriza-se por um lirismo contido, uma linguagem precisa e imagética, e um uso delicado do verso livre. A voz poética é frequentemente confessional, mas com uma universalidade que transcende o individual. O seu estilo é marcado pela depuração e pela musicalidade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Myriam Fraga viveu num período de importantes transformações em Portugal, incluindo a ditadura salazarista e a transição para a democracia. A sua obra, embora com um tom mais introspectivo, dialoga com as inquietações da sua geração e com a cultura portuguesa. Manteve contacto com outros escritores e círculos literários, contribuindo para a vitalidade cultural do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Myriam Fraga foi jornalista de profissão, atividade que partilhou com a sua dedicada produção poética. As suas relações pessoais e a sua ligação à Madeira foram fontes de inspiração para a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A poesia de Myriam Fraga tem sido reconhecida pela sua qualidade literária e pela sua originalidade. Embora a sua receção crítica possa ter sido mais discreta em comparação com outros poetas da sua época, a sua obra conquistou um lugar de respeito no cânone da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Myriam Fraga demonstra uma sensibilidade poética única, inspirada pela paisagem madeirense e pela reflexão sobre a condição humana. O seu legado reside na sua contribuição para a diversidade e riqueza da poesia portuguesa do século XX e XXI, com uma voz que continua a ressoar.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Myriam Fraga tem sido objeto de análise crítica que destaca a sua capacidade de evocar a paisagem interior e exterior, a passagem do tempo e a procura de sentido. A sua obra convida à contemplação e à reflexão sobre os mistérios da vida.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua obra poética e jornalística, Myriam Fraga dedicou-se também à tradução, enriquecendo o seu percurso cultural. A sua ligação umbilical à ilha da Madeira é um aspeto marcante da sua identidade artística.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Myriam Fraga faleceu em 2017. A sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser lida e estudada, mantendo viva a sua voz poética para as gerações futuras.