O silêncio 🔵
Meu cunhado e eu nos deparamos com algo muito inusitado: uma câmara silenciosa. Quem já esteve na Bienal de São Paulo, no Parque do Ibirapuera, sabe que não é anormal encontrar um objeto surpreendente. Mas aquela instalação era intrigante, inclusive provocativa. Como experienciar uma inédita ausência de sons no coração da cidade que não dorme?
Nada poderia surpreender quem estava numa exposição do filme Star Wars, por isso, no mesmo ambiente que Darth Vader e os Stormtroopers. Já acharia normal, até entediante, pedir licença ao R2-D2 ou ao C-3PO. Também já não me espantaria se o Mestre Yoda, caminhando com certa dificuldade, passasse ao meu lado. Em São Paulo, sobretudo nos finais de semana, era normal cruzarmos com criaturas bizarras (humanos ou interplanetárias).
Havia também uma exposição/homenagem à Bossa Nova. Ali, não cruzamos com nada estranho. A coisa mais esquisita, e que sempre pareceu que não era um ser deste mundo, era o João Gilberto, mas ele não estava lá.
Não sei se por curiosidade, desafio ou pura falta de alguma coisa melhor para fazer — talvez tudo isso —, o brinquedo, digo, a instalação nos convidou a desafiá-la. Aguardamos e entramos na intrigante caixa com duas cadeiras. Seguimos as orientações para, segundo a proposta da engenhoca, por assim dizer, ter uma perfeita experiência sensorial.
Realmente, o silêncio era ensurdecedor, mas, como sempre foi muito comum, surgiram muitos assuntos urgentes na minha cabeça e na ponta da língua. Os inadiáveis assuntos transbordaram, de modo que disparei a falar. Vendo que eu estava desperdiçando e estragando uma oportunidade única, cessei a verborragia.
Entretanto, o diálogo interno insistia em conturbar o momento. A tentativa de aplicar técnicas de meditação apenas tornava inteligível o debate que rolava na minha caixa craniana. Talvez essa seja a grande surpresa do brinquedo, digo, instalação. O resultado pode ser muito mais embaraçoso: as monitoras, provavelmente, devem estar rindo. O riso se transformará em escárnio e desprezo quando saírmos atordoados da disruptiva experiência.
Concluí que a poluição sonora que sempre atribuí à capital paulista já estava introjetado na minha cabeça. Apesar de perceber que aquela caixa vedava as sirenes, as buzinas, os motores, o falatório e os demais sons, ou barulhos, ambientes, eu transportava comigo ideias, projetos, objetivos e grilos que nunca se silenciavam.
Nada poderia surpreender quem estava numa exposição do filme Star Wars, por isso, no mesmo ambiente que Darth Vader e os Stormtroopers. Já acharia normal, até entediante, pedir licença ao R2-D2 ou ao C-3PO. Também já não me espantaria se o Mestre Yoda, caminhando com certa dificuldade, passasse ao meu lado. Em São Paulo, sobretudo nos finais de semana, era normal cruzarmos com criaturas bizarras (humanos ou interplanetárias).
Havia também uma exposição/homenagem à Bossa Nova. Ali, não cruzamos com nada estranho. A coisa mais esquisita, e que sempre pareceu que não era um ser deste mundo, era o João Gilberto, mas ele não estava lá.
Não sei se por curiosidade, desafio ou pura falta de alguma coisa melhor para fazer — talvez tudo isso —, o brinquedo, digo, a instalação nos convidou a desafiá-la. Aguardamos e entramos na intrigante caixa com duas cadeiras. Seguimos as orientações para, segundo a proposta da engenhoca, por assim dizer, ter uma perfeita experiência sensorial.
Realmente, o silêncio era ensurdecedor, mas, como sempre foi muito comum, surgiram muitos assuntos urgentes na minha cabeça e na ponta da língua. Os inadiáveis assuntos transbordaram, de modo que disparei a falar. Vendo que eu estava desperdiçando e estragando uma oportunidade única, cessei a verborragia.
Entretanto, o diálogo interno insistia em conturbar o momento. A tentativa de aplicar técnicas de meditação apenas tornava inteligível o debate que rolava na minha caixa craniana. Talvez essa seja a grande surpresa do brinquedo, digo, instalação. O resultado pode ser muito mais embaraçoso: as monitoras, provavelmente, devem estar rindo. O riso se transformará em escárnio e desprezo quando saírmos atordoados da disruptiva experiência.
Concluí que a poluição sonora que sempre atribuí à capital paulista já estava introjetado na minha cabeça. Apesar de perceber que aquela caixa vedava as sirenes, as buzinas, os motores, o falatório e os demais sons, ou barulhos, ambientes, eu transportava comigo ideias, projetos, objetivos e grilos que nunca se silenciavam.
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