Eu queria ser chama aberta,
dessas que aquecem sem pedir licença,
que encostam e já dizem:
“fica”.

Mas é começo 
e começo assusta mais do que silêncio.

Então eu me dobro em cautela,
viro metade do que sinto,
edito palavras, atraso respostas,
finjo leveza
quando por dentro já é quase casa.

Tenho medo de ser demais,
de chegar como tempestade
num coração que só abriu a janela.

Mas também tenho medo do contrário:
de me afastar tanto
que você não me encontre mais aqui,
de esfriar por estratégia
e congelar o que era pra florescer.

E no meio disso tudo
tem uma voz que não ajuda:
sussurra dúvidas,
inventa distâncias,
me convence de que você
não ficaria se visse tudo.

Eu me saboto em silêncio,
como quem apaga a própria luz
com medo de incomodar o escuro.

Queria saber ser começo
sem deixar de ser inteiro,
queria confiar no que nasce
sem medir cada gesto.

Porque sentir, eu sinto muito 
o problema é esse medo
de que muito
seja exatamente o que te afasta.

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