Ladainha de roca e fuso de amador-amada

                                   “Transforma-se o amador na cousa amada,    

                                          Se nela está minha alma transformada”

                                                          Luís Vaz de Camões

 

Sim, eu sei, frágil flor de jasmim,

assim, procurei, em vão, sofredor,

evitar transformar-me outro amador

na coisa amada com seu cruel uivo;

“por virtude de muito imaginar

não tenho logo mais que desejar”,

um arco de insectos sob meu corpo.

                       *

E cobre-me o silêncio de meu uso,

profuso, fala esgarrada no escuro,

se não te amei, em mim de ti fiquei

só coração e olhos e luz em escuma;

“pois em mim tenho a parte desejada

que mais deseja o corpo de alcançar”

ainda, neblina daquela doçura finda?

                       *

Do receio de morrer de amor tecer

e destecer a eternidade, a mão a dor,

pois na coisa amada o amador tudo

é, advém um corpo triste, um rodapé;

o fuso “em si somente pode descansar,

pois consigo tal alma está liada”, sorte

em mim desgarrada lira que esmaga.

                       *

“A coisa amada é uma baía estanque”,

dizei-me “em que roca e em que fuso”

a solidão desta minha lírica extraviada

é piedade em amor que suga o coração;

“o amador transforma-se de instante

para instante” na enfermidade, ó paixão,

como tecer agora este amor sem tecer?

                      *

Leva, pois, o teu inicial ímpeto a outro

chão minha mortalha quase alcançada,

ó espíritos que batem, amador e amada,

transformados, matéria una edificada;

eu, “que, como o acidente em seu sujeito,

assim co'a alma minha se conforma”,

amor, amor, que enlouquece e despoja.

                       *

Ó melancolia clama ao outro lado a flecha

infectada e um sol parado na noite do dia,

a dor de quem conhece a face de um vulto

onde o amador-amada se renova em mundo;

resido-te, “está no pensamento como ideia;

o vivo e puro amor de que sou feito”, teia

de uma fala noutra fala, oração, língua inteira.

                       *

Aqui, persistente e insano, “transforma-se

o amador na cousa amada”, ente e profano,

aqui, onde a sombra do remorso deste amor

é o cristalino alvor da minha incúria, ó luxúria

neste clamor de corpo em dor transformada,

em ti, “como matéria simples busca a forma”

esta ladainha de roca e fuso de amador-amada.

                        *

“Porque o amador é tudo e a coisa amada”, nada

de ti me não parece a razão de ser tudo desejável,

pois, “transforma-se o amador na cousa amada”!    

 

2 Visualizações
Partilhar

Comentários (0)

Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.