A face da percepção
“to tell the truth the way words lie”
Robert Duncan
Até que o musgo venha a nossos olhos
e nossos longínquos nomes oculte,
a réstia de alegria é cinza que subsiste.
*
Estou tão, tão furioso connosco!
Não nos julgo. Só sinto a nossa falta.
*
Esse fundo deserto onde mergulhámos,
"that is a place of first permission,
everlasting omen of what is".
*
Não me julgo. Só tenho a culpa assim.
Vou amar-te até ao fim dos meus dias.
*
Esta percepção é, em si própria, a derrota,
o poema que se reduz à devoção.
Não o julgo. Nem à sua audaz verdade.
Ars Poetica
Afirmam que a poesia é a distância mais curta
entre dois seres, invisíveis,
mas tal voz idílica será um engano,
os poetas nunca largaram o fólio dos desertos,
nunca ousaram o incandescente indulto dos pomares
nem o seu oblíquo circuito de chamas,
e a secura tem os teus olhos a fazer de sol.
*
O amor é o silêncio e também a blasfêmia
e o evangelho: vós, que sonhais,
escrevei matéria à altura
das vossas crenças, o passar do furor no trecho
que nunca subsistirá sob os olhos,
“o dom do luto” em sua exercitação muda,
pois as “coisas inúteis ficam” sempre para os poetas
onde a ilusão, semeada, em fala, andeja.
*
Acerco-me por instantes da língua
mas o canto é mudo, o fogo que te retoma
já só se reconhece na íntima deserção da mão,
o coágulo onde o instante se faz e desfaz em última prece.
*
Na susceptível ausência de deus no poema eu vivo,
na tua ausência no meu corpo eu desvivo,
e o verso é a solidão, o teu rosto mais frondoso,
a pura ars poetica: a chama que na dobradiça não arderá.
inédito
Em Finais de Março
Em finais de março o poema deteve-se
em seu obscuro relicário de joias raras.
Os deuses não apreciavam os céus
e o corpo agredia a terra como um pugilista
que agride o alento em que está ancorado.
*
Proclamava coisas prováveis, a inércia
do mundo onde éramos afago de nascente.
Uma jura, uma crença, uma alegria,
somente coisas mal-entendidas e irreais.
Há apenas alguns interlúdios curtos de ilusão.
*
O poema fixava na goiva uma chama ao centro
com a silhueta de Eros, uma silhueta una,
a fluvial sanguínea potência em propagação.
Amo a energia com que ilude o invisível,
desse exímio pânico de corpos nus no centro.
*
E, porém, na terrifica elegância dos estilhaços,
não esqueço os instantes, esqueço os dias,
não me lembro dos poemas, lembro-me de ti.
inédito
Autopsicografia II
“Mais alto ainda, sempre mais alto”,
a cotovia soprou o seu mágico canto
no exposto e febril cortiço do poema.
*
A fingida tristeza retracta a autêntica
com tal mestria em sua língua de vozes
“a entreter a razão”, que a distinção
presente entre o fingido e o autêntico
é ilícita, a fingida tristeza que se apega
ao passadiço do poema é autêntica
e a autêntica é absolutamente fingida.
*
Mas em certas verdades obscuras
onde aferir a distinção “que se chama
coração”, qual das duas é a exactidão?
*
O tumulto é longínquo em toda a língua
e língua nenhuma, “e assim nas calhas
da roda gira” a tua triste ausência, a única
e inteira verdade, a minha triste solidão.
inédito
O único estilo para a morte
“colinas tão próximas como se guardassem
os nossos próprios olhos e logo depois
leva-as o vento para adjectivos longínquos”
Herberto Helder
Uma nova manhã de Março, ainda que cedo
para ler-te, mas talvez já muito tarde para retornar
à cerejeira que me inebria os sonhos cegos.
*
Ler-te, deixar de ler-te, ler-te ou não ler-te
não é decisão humana que se exija à fala ou verso,
à quase paixão “travada em carne da língua”.
*
E ainda que o gorjeio do mundo já seja ensurdecedor,
está tão próximo de mim que é nele que resfolgo,
há o momento, não o corpo, o dia e as suas margens.
*
É Março, a manhã propaga-se como um vulcão,
e o meu corpo, canhoto, jaz adiado como a primavera
na tua ausência, aguarda o espasmo da cerejeira.
*
Ler-te, deixar de ler-te (ontem morreu-me o vizinho
do 3º andar), “não é o mesmo que meter a cabeça
num buraco abissínio”: em rigor, tudo está fora de mim.
*
As vozes erguem-se ferozes e indistintas, o céu chora
em dilúvio alagando a língua, o poema morre,
“morrer por uma rosa é que fia mais fino:” ergo-me
*
e cuspo-te, o único estilo para a morte vertiginosa e crua!
Solstício de Dezembro
O mundo jamais é parecido consigo próprio
tão inesperada é a noite,
mesmo quando em sua rotação se repete,
efectiva e extingue,
no corpo e cinzas de uma criança,
não vos espanteis por isso senhores,
Dezembro é um solstício que nos sobrevive
e nada mais se anseia
do que abraçar todo o tempo do tempo
para seguir uma estrela viva,
um frágil e divino coração de criança
em homens aturdidos pelo afago da entrega,
guardai pois um Natal,
nada mais se reterá no cheiro do orvalho
que aconchegamos dentro de nós,
o seu leito evidencia a inquietude do fogo
e a poesia parece a puerícia do verbo:
ainda que nos céus
em seu nome o nome do mundo se cante,
o que é sagrado e profano,
o que é rei e pastor
e se planta e adolesce
e se percorre até à extrema boca do advento,
mundo de júbilos e prantos
que como o sol nas trevas se revive.
Uma criança nos aquieta o corpo,
a noite atravessa o mundo,
obscuros e formais viajantes,
se as quimeras se ofuscam sob os céus
a culpa é dos corações e não da luz das estrelas.
NO PRINCÍPIO FOI O HOMEM
.I.
No princípio foi o homem (com um cão espetado numa estaca brilhando sob as áscuas da sua solidão para o resto dos seus raiados dias), e o homem criou um Deus, e o homem inflamou Deus na essência de rosas da sua perversão: a peregrinação sobre a argila e água impura para que não seja lembrado o seu mísero nome. No princípio sobreveio o homem, a chaga mais negra que a carne e também que a torpeza viva do crepúsculo: um esplêndido cântaro de purulência, uma hástea em fogo com a floração dos credos. No princípio era o homem, e a opulência do sopro.
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in, acrónimo, Edições Sem Nome, 2015
O PASTO
Que este pasto seja uma noite sem lembrança,
não dissemos o teu nome, mas, compreende-nos.
*
Não julguem que havia algo errado no que ofertou
para comer-mos, mas são “certos os abismos”
da claridade do seu verbo, nem tudo se transforma
com uma ceia, nem tudo é alimento da sua voz.
*
“Juro que antes que a boca da aurora” adviesse
e o anfitrião refizesse a alquímica e sagrada
purificação do altivo desdém, todos, como judas,
saímos sem nos lavarmos, sem pagar a conta.
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- Triturados pela extrema fascinação do pascigo.
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in, A Ceia Infiel (inédito)
A UM VELHO CORPO
Esquece “a rosa. Onde ela estiver”
oculta o mundo já renunciou, só
da melancolia da ave viverás,
(os teus livros, os teus mortos,
os teus gatos: a frágil extremidade
da herança) o resto são os talhes
de bruma que se abrem ao musgo:
a língua desabitada como dádiva.
Despreza-a, pois ela ofusca-te
da boca do sol, extermina-a pois,
a rosa de Provins, o segredo está
na unívoca nudez, na metáfora
que te aleita o pecado que irrompe
da paixão das musas em rosáceas
pétalas esvoaçantes, ouve, esquece-te
dela, “de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança, prometes?”
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in, Poemas en Punto de Hueso (2001-2017), Ianua, 2017
BRANCO & PRETO
O corpo é a infinita planície das cinzas onde as mães largam o coração e partem para outra casa, resignadas ao murchar da flor, sem a beleza antiga e o rosto sem o último clamor do tempo. Corpo inóspito que alastras incomensuravelmente, as tuas díspares texturas de areada voz e de rochosa memória da alegria são a vocação ténue dos teus tristes olhos. A estiagem da fonte buscando perdurar numa ausência sem tréguas nem pausas.
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in, A Rose is a Rose is a Rose et Coetera, Edições Sem Nome, 2017 (2º ed. 2018)