João Rasteiro

João Rasteiro

n. 1965 PT PT

João Rasteiro (Coimbra, 1965), escritor, poeta e ensaísta.

n. 1965-07-03, Coimbra

Perfil
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O faro do cão

Guarda sempre o faro do cão nos teus olhos.
Haverás de chegar – é o teu destino,
não o que te espera, mas o que respira contigo.

                                    *

Não apresses a viagem.
Deixa que o tempo te ensine o alvoroço da terra,
que as pedras te falem com o alento do musgo.

                                    *
Será melhor que a viagem dure muitos anos,
e que, já velho, ancores no teu rio,
carregado de ossos, memórias e perfumes –

tudo o que o caminho te concedeu em silêncio.

                                    *

Não esperes que o faro do cão te ofereça o odor

da rosa ou o cheiro da palavra. O faro

é chama sem promessa, é o dom da inquietação.

                                    *

Ele te oferecerá apenas a viagem, sublime e nobre

na sua plena ferocidade,
porque sem ela não terias partido, nem terias

aprendido a nomear o vento nos teus olhos.

                                    *

Mas nada mais te dará. Vai. E quando, tão longe,

olhares para trás – tão decidido, tão cansado –

perguntarás: que entendo eu do faro do cão?

                                    *
E talvez compreendas então que o faro

sempre foste tu, buscando-te no rumor da terra,

o faro do cão nos teus olhos.

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Biografia
JOÃO RASTEIRO: Ameal - Coimbra, 1965. Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de letras, Universidade de Coimbra. Sócio do Centro PEN Portugal (PEN Clube Português), tendo integrado a sua Direção de 2019 a 2025. Tem poemas publicados em diversas revistas e antologias em cerca de 20 países: Portugal, Brasil, Itália, França, Espanha, País Baixos, Finlândia, Hungria, Rússia, Chéquia, USA, México, Argentina, Peru, Chile, Honduras, Nicarágua, Colômbia e Índia, possuindo poemas traduzidos para o espanhol, catalão, italiano, inglês, francês, neerlandês, checo, finlandês, húngaro, russo, japonês, occitano, árabe e persa. PRÉMIOS: Entre diversos prémios, obteve o 1º Prémio no Concurso de Poesia "Cinco Povos Cinco Nações" - Congresso Internacional de Literaturas Africanas, 2004, Prémio Literário Manuel António Pina (2010), Prémio César Vallejo 2020 (categoria Excelência Literária), Prémio Literário Natália Correia (2023), Prémio ULYSSES (2024), Prémio Literário Alves Redol – contos (2025). Para além de inúmeras Menções Honrosas, foi finalista de diversos prémios, nomeadamente do prestigiado Prémio Portugal Telecom de Literatura – Poesia (Brasil, 2012). Em 2026 foi-lhe atribuída, pelo Município de Coimbra, a Medalha de Mérito Cultural – Grau Ouro, da Cidade de Coimbra. PUBLICAÇÕES: publicou 27 livros (Portugal, Brasil e Espanha), que vão de “A Respiração das Vértebras”, 2001; No Centro do Arco, 2003; Os Cílios Maternos, 2005; O Búzio de Istambul, 2008; Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas, 2009; Diacrítico, 2010; A Divina Pestilência, 2011; ELEGIAS, 2011; Tríptico da Súplica, 2011 (Brasil), Pequeña Retrospectiva de la Puesta en Escena (Espanha, bilingue), 2014; Salamanca o la Memoria del Minotauro (bilingue) 2014; Solstício de Dezembro (Ed. restrita de autor, numerada e assinada, com aguarelas originais do artista plástico Seixas Peixoto) 2014; acrónimo, 2015; Ruídos e Motins, 2016; Poemas en punto de hueso, 2017 (Espanha - bilingue); A Rose is a Rose is a Rose et Coetera (2º ed. 2018), 2017; Eu cantarei um dia da tristeza (e-manuscrito, 2017; Levedura, 2019; OFÍCIO Poesia: 2000 – 2020 (Porto Editora – Prefácio de Mário Cláudio), 2021; Incenso, 2022 (Brasil), As pedras que choram o Douro (Espanha), 2023; SARDOAL, 2023, Escoriação, 2024, A Rose is a Rose is a Rose et Coetera (Espanha), 2025; Tarântula, 2025; Anatomia de uma derrota, 2025 e A Beleza da Queda, 2026. Em 2023 foi publicada no Brasil a obra Como Arma Tenho A Palavra E O Peito Aberto [Entrevista-Depoimento do Poeta Álvaro Alves de Faria a João Rasteiro], Ibis Libris – Rio de Janeiro. Possui contos em várias antologias, tendo em 2020 publicado o livro “Governadores de Orvalho”, Húmus editora. Em 2026, a Bruma Publications (PBBI-Fresno State – Universidade do Estado da Califórnia) publicará, com tradução do Professor Diniz Borges, a obra SARDOAL, Prémio Literário Natália Correia 2023. Incluído em diversas antologias de poesia ou literatura portuguesa publicadas no estrangeiro, de que são exemplos: em 2008 integrou a antologia O Reverso do Olhar - exposição Internacional de Surrealismo Actual. Em 2009 integrou a antologia: Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua – antropologia de uma poética (livro-DVD), organizada pelo poeta brasileiro Wilmar Silva e que engloba poéticas de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Macau e Galiza. Em 2009 integrou o livro de ensaios “O que é a poesia?” organizado pelo brasileiro Edson Cruz (Brasil - Confraria do Vento/Caliban). Em 2010 integrou a antologia "Poesia do Mundo VI", resultante do 6º Encontro Internacional de Poetas (Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). Em 2011 integrou o livro "Três Poetas Portugueses" (Brasil - Editora RG), organizado pelo poeta Álvaro Alves de Faria. Em 2012 integrou a antologia de poesia portuguesa contemporânea "Corté la naranja en dos", (México) com compilação e tradução de Fernando Reyes da Universidade Nacional Autónoma do México. Em 2017, integrou a antologia, “Voces de Portugal. Once poetas de hoy” (Espanha - Colección Series Mino, tradução e coordenação de Pedro Sánchez Sanz). Em 2018 integrou a antologia sobre a literatura portuguesa, em número especial organizada e editada pela LUVINA, revista literária da universidade de Guadalajara, México. Em 2019, a antologia 19 Poetas de Portugal, foi publicada em Espanha pela Lastura Ediciones. Em 2009 e 2018 organizou antologias dedicadas à poesia portuguesa, respectivamente: "Poesia Portuguesa Hoje" (Colômbia) e "Aquí, en Esta Babilonia" (Espanha). Tem participado em diversos festivais literários, em Portugal e no estrangeiro. Tem participado em diversos festivais literários (essencialmente de poesia), tanto em Portugal, como no estrangeiro: em 2012 foi um dos poetas convidados para o VII Festival Internacional de Poesia de Granada, Nicarágua. Em 2014, no âmbito dos XVII Encontros de Poetas Iberoamericanos (Salamanca), participou como poeta representante de Portugal e em 2016, conjuntamente com Paulo José Miranda, foi poeta convidado, representando Portugal, no Festival de poesia VOIX VIVES, de Méditerranée en Méditerranée, em Sète, Languedoc, França. TEATRO: em 2017, o grupo 'Os Controversos' (encenação e adaptação dramatúrgica de Ricardo Kalash) levou à cena a peça 'A rose is a rose', a partir do seu livro A rose is a rose is a rose et coetera, 2017. Tem participação diversa (letras), em vários CDs de Fado (Canção) de Coimbra. Em 2024 a cantautora zamorana, Lucía Gonzalo Ibanez musicou o poema "Hóspede de um barco crepúscular" (poema que integra o livro "As pedras que choram o Douro”, publicado em Espanha em 2023 pela Sabaria Ediciones). Em 2023 fez figuração no filme A Bela América, do realizador António Ferreira. É Técnico Superior na Divisão de Cultura do Município, trabalhando como Programador Cultural na Casa da Escrita (antiga residência do poeta João José Cochofel), desde a sua inauguração, em 2010.

Poemas

30

POETA

Poeta, criticam

do infeliz.

 

Poeta, criticam

de quem chora quando anoitece
e ao amanhecer se ergue,
em desespero,
à procura do seu pastor alemão.

 

Não são poetas,
homens corajosos não são –
são corpo incerto,
e pronto,
assim seja.

 

Poeta –

e nem sequer o erro
de um riso.

7

O precipício extasiado

Ama como se agarrasses tudo

pela última vez. Sustém o peso

rubro do coração na deslocação

sísmica do mundo. Respira forte

como se todas as pedras, flores,

anzóis e palavras dispusessem

para breve em tua frágil gorja

uma paisagem murada. Oferta‑te

ao opulento silêncio da morte

como uma combustão violenta

que abrasa a previsível ciência

divina. Embriaga‑te uma última

vez no verbo veemente da rosa

alucinada na nervura dos olhos.

Sê agora “ouro e a gema impura”.

                       *

É o amor, o precipício extasiado

inquietando o sonho da perfeição,

uma gnose branca, a representação

expansiva de “um líquido céu que

se difunde astros” ainda em ti.

                       *

Labirinto, labirinto – um quase

nada da límpida memória de Deus.

2

Poema dos jardins ausentes

Hoje corri todos os jardins da terra

e estou “ao pé de ti de mãos vazias”, meu amor,

os jardins só respiram esse fulgor desnudado

a rutilar caligrafias mesmo no centro da pedra.

                               *

Amanhã voltarei a correr todos os jardins

ao ritmo quase imóvel de um segredo,

num íntimo murmúrio que preserve o alento

para mergulhá-lo numa boca de mulher.

                               *

Hei-de correr todos os jardins sagrados

que habitam subtis e espessos labirintos,

e encontrar os vocábulos das pétalas da rosa

que unem o interdito ao centro vivo das palavras.

                               *

E é como se as rosas nascessem dos dedos,

como uma raiz imitando os frutos, meu amor.

                               *

E é como se o poema irrompesse do coração,

como uma flor reproduzindo o pólen, meu amor.

6

A nossa utopia inteira e limpa

                        “Onde emergimos da noite e do silêncio

                          E livres habitamos a substância do tempo”

                                         Sophia de Mello Breyner

 

Uma espera é sempre o vislumbre

de um princípio de espaço primaveril,

neste eflúvio mudo do regaço de abril

só um cravo partido entre a revolução,

                             *

já, e o abismo da memória de um país.

E mesmo mudando uns frágeis versos

para perto das águas quentes do rio,

como as rosas tristes, estes cravos são

                             *                                                 

hoje como as grandes escamas secas

de um peixe sufocado no sopro do Tejo.

“Fora existe o mundo”, aqui, a luzente

                             *                                                 

brutalidade da inércia de ti, Portugal:

não, esta nunca foi a tua madrugada

esperada, a nossa utopia inteira e limpa!

6

GÉMEOS

Dentro de mim há dois cães

sob as mísulas da pele:

um deles existe desapiedado da carne

e inconfidente ao sangue;

o outro é desmesuradamente indulgente.

                       *

Os dois subsistem eternamente

pugnando sob o impaciente e disposto

mundo do inatingível.

                       *

O que consolida a disputa, é aquele

que eu alicio mais frequentemente

no pecado e na endrómina.

                       *

Um deles vai resignando ao estuário,

o seu outro igual, subsiste dissidente

despojado das múltiplas súplicas do verbo.

                       *

Cegos, incapazes de reagir à indução do isco.

4

A textura da terra

                             “Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,

                              ornados de ouro e prata em luz”

                                                      W. B. Yeats              

                                           

Se deus detivesse a textura guarnecida da terra

embelezada de homens e mulheres sob o manto do sol,

palavras acesas, turvos sobressaltos

do verbo na língua, do querer e do bem-querer,

prolongaria essa textura sob nossas falas

adornada na íntima e divina claridade do erro e do pecado.

                               

Mas, crédulo, possuo somente a poesia;

é ela que prolongo sob nossas falas.

Trilha-a lentamente, tu és a divina voz da minha poesia,

esta pura nascente de palavra incorpórea.

                               

“Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus”, e deus

a textura guarnecida da terra, a poesia

serias tu, a bordadura do amor, e o centro do amor,

tudo o que há de solícito “de ouro e prata” no semblante da fé.

11

Cantico di queste creature di oggi

                                                    “Tu conheces a minha humilhação

                                                     e confusão e a minha ignomínia”

                                                             São Francisco de Assis

 

“Louvai e bendizei o meu” frágil verso, humilde o oferto!

                                      *

Exíguo, pouco-poderoso, bom homem de hoje,

sabes que a ti a iludida fama, as honrarias, o panegírico,

e quaisquer que sejam as aparentes graças,

a ti unicamente, exíguo, serão valorosas e observáveis,

e nunca à palavra divina serás digno de acercar-te.

                                      *

Infinito, Todo-Poderoso, eternamente o sol

teu foi a ele ofertado, a glória mais louvada entre nós;

e cada luminosidade ou bago de oiro 

de ti somente, louvores em chaga nele são ainda a graça

em nós, e nem hoje um verso é credor de convocar-vos.

                                      *

Louvado sejas, Verbo de luz, com as incontáveis criaturas;

especialmente este de hoje, que ousa o brilho

febril do cântico, o teu de Assis, cintilando sem termo,

e ele é aurora sublime, temerosa e vocálica,

e de ti, Infinito, Todo-Poderoso, ele em ti se testificou.

                                      *

E que não sejas jamais censurado, ó Criador,

pelo insano verso e os astros alucinados destes tristes dias

que na Terra se geraram obscuros, tenebrosos e hediondos.

                                      *

Louvado sejas também, meu irmão Assis, pela febre viva,

pela cabana de palha acalentando o mundo rasteiro,

pelos irmãos ratos sobre o teu canto de amor ao Senhor

e pela voz dos órfãos perdidos uivando no vento,

cujo sustento, na secura e na chama, é a poesia das criaturas.

                                      *

E que não sejas jamais censurado, ó Criador,

pelo insano espasmo destes dias e pela palavra blasfema

destes versos, cuja insana obsessão é crer sobreviver-Te.

                                      *

Infinito, Todo-Poderoso, amado sejas pelo fogo

jovial e vigoroso e pela água modesta e inesgotável da poesia,

que nos oferecem a espadana e o pranto da irmã vida,

infinito, todo-Poderoso, amado sejas, pois, nesta sombra viva,

neste frágil subúrbio de corpo que não cessa de titubear.

                                      *

Louvado sejas também pelos que, por teu verbo vivo

não sabem, como Assis, perdoar e se crucificam em ocos versos;

e abençoados os que não vacilam no horizonte de São Damião.

                                      *

Infinito, Todo-Poderoso, amado sejas, pela poesia

e nosso olvido, do qual peregrino ou criatura descrente fugirá;

e aqui, os que matam hoje em pétalas de ignomínia sideral,

e, amado sejas, infinito, todo-Poderoso, pelos que intuíram

que o amor, outra e outra vez, só lhes fará bem.

                                      *

Comemorai e glorificai o Senhor do Poverello e dai graças

e com infinita e cristalina humildade, em seu salmo, cuidai-vos,

exíguo, pouco-poderoso, bom homem de hoje.

                                      *                                    

Festejai e bendizei estes impacientes versos contra a descrença,

este cometa de luz, esta secreta e fervorosa crença,

criaturas, esse corpo de sol e espírito de silêncio e exaltação

e, hoje, bom homem, cantai as frestas mais inaudíveis do mundo

e, em nossa falta perdoada, em seu nocturno êxtase, aclamai-O.

                                      *

Celebrai e louvai. Apenas uma ínfima centelha de sol é bastante;

acreditai em vossa bússola e fazei para ele, em filigranas de prata,

versos de ouro, pois o Senhor é a rosa canina dos céus. Amai-O.

                                      *

Celebrai e louvai, tal é em nós o poder da sua metáfora. Saudai-O!

3

ÊXODO

                                            “Fica sequer, sombra das minhas mãos,

                                              Flexão casual de meus dedos incertos,

                                              Estranha sombra em movimentos vãos”

                                                                 Camilo Pessanha

 

 

E antes – um latejar de células perdidas

na vastidão sem nome, como se a noite fosse ainda

mais funda do que a própria noite.

 

E antes disso – o mundo encoberto por um espesso véu

que não se ergue, um silêncio espesso,

onde as coisas recusam o contorno.

 

E antes – a fuga lenta da tua língua, um êxodo sem passos,

sem mapa, apenas o abandono da fala.

 

E agora a tua saliva – já não rio, mas lodo, um rastro seco

no deserto do que não foi dito.

 

E agora, uma sombra estranha porfia no vazio dos seus gestos.

 

E agora, meu incerto verso recolhe-se à inutilidade do aceno.

2

Ladainha de roca e fuso de amador-amada

                                   “Transforma-se o amador na cousa amada,    

                                          Se nela está minha alma transformada”

                                                          Luís Vaz de Camões

 

Sim, eu sei, frágil flor de jasmim,

assim, procurei, em vão, sofredor,

evitar transformar-me outro amador

na coisa amada com seu cruel uivo;

“por virtude de muito imaginar

não tenho logo mais que desejar”,

um arco de insectos sob meu corpo.

                       *

E cobre-me o silêncio de meu uso,

profuso, fala esgarrada no escuro,

se não te amei, em mim de ti fiquei

só coração e olhos e luz em escuma;

“pois em mim tenho a parte desejada

que mais deseja o corpo de alcançar”

ainda, neblina daquela doçura finda?

                       *

Do receio de morrer de amor tecer

e destecer a eternidade, a mão a dor,

pois na coisa amada o amador tudo

é, advém um corpo triste, um rodapé;

o fuso “em si somente pode descansar,

pois consigo tal alma está liada”, sorte

em mim desgarrada lira que esmaga.

                       *

“A coisa amada é uma baía estanque”,

dizei-me “em que roca e em que fuso”

a solidão desta minha lírica extraviada

é piedade em amor que suga o coração;

“o amador transforma-se de instante

para instante” na enfermidade, ó paixão,

como tecer agora este amor sem tecer?

                      *

Leva, pois, o teu inicial ímpeto a outro

chão minha mortalha quase alcançada,

ó espíritos que batem, amador e amada,

transformados, matéria una edificada;

eu, “que, como o acidente em seu sujeito,

assim co'a alma minha se conforma”,

amor, amor, que enlouquece e despoja.

                       *

Ó melancolia clama ao outro lado a flecha

infectada e um sol parado na noite do dia,

a dor de quem conhece a face de um vulto

onde o amador-amada se renova em mundo;

resido-te, “está no pensamento como ideia;

o vivo e puro amor de que sou feito”, teia

de uma fala noutra fala, oração, língua inteira.

                       *

Aqui, persistente e insano, “transforma-se

o amador na cousa amada”, ente e profano,

aqui, onde a sombra do remorso deste amor

é o cristalino alvor da minha incúria, ó luxúria

neste clamor de corpo em dor transformada,

em ti, “como matéria simples busca a forma”

esta ladainha de roca e fuso de amador-amada.

                        *

“Porque o amador é tudo e a coisa amada”, nada

de ti me não parece a razão de ser tudo desejável,

pois, “transforma-se o amador na cousa amada”!    

 

3

Ars Poetica


Afirmam que a poesia é a distância mais curta
entre dois seres, invisíveis,
mas tal voz idílica será um engano,
os poetas nunca largaram o fólio dos desertos,
nunca ousaram o incandescente indulto dos pomares
nem o seu oblíquo circuito de chamas,
e a secura tem os teus olhos a fazer de sol.
                           *
O amor é o silêncio e também a blasfêmia
e o evangelho:  vós, que sonhais,
escrevei matéria à altura
das vossas crenças, o passar do furor no trecho
que nunca subsistirá sob os olhos,
“o dom do luto” em sua exercitação muda,
pois as “coisas inúteis ficam” sempre para os poetas
onde a ilusão, semeada, em fala, andeja.
                           *
Acerco-me por instantes da língua
mas o canto é mudo, o fogo que te retoma
já só se reconhece na íntima deserção da mão,
o coágulo onde o instante se faz e desfaz em última prece.
                           *
Na susceptível ausência de deus no poema eu vivo,
na tua ausência no meu corpo eu desvivo,
e o verso é a solidão, o teu rosto mais frondoso,
a pura ars poetica: a chama que na dobradiça não arderá.

inédito
2 100

Livros

4

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