A nossa utopia inteira e limpa

                        “Onde emergimos da noite e do silêncio

                          E livres habitamos a substância do tempo”

                                         Sophia de Mello Breyner

 

Uma espera é sempre o vislumbre

de um princípio de espaço primaveril,

neste eflúvio mudo do regaço de abril

só um cravo partido entre a revolução,

                             *

já, e o abismo da memória de um país.

E mesmo mudando uns frágeis versos

para perto das águas quentes do rio,

como as rosas tristes, estes cravos são

                             *                                                 

hoje como as grandes escamas secas

de um peixe sufocado no sopro do Tejo.

“Fora existe o mundo”, aqui, a luzente

                             *                                                 

brutalidade da inércia de ti, Portugal:

não, esta nunca foi a tua madrugada

esperada, a nossa utopia inteira e limpa!

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