A beleza da queda

A beleza da queda

2026

"Em A Beleza da Queda, João Rasteiro faz da queda não apenas uma imagem, mas uma condição do mundo. Queda do corpo, do amor, da memória, da linguagem, de Portugal, da Europa, da própria ideia de permanência: tudo neste livro parece atravessado por uma consciência intensa de ruína, e, ainda assim, por uma recusa obstinada em abandonar a beleza. Dividido entre o íntimo e o histórico, entre a elegia amorosa e a meditação civilizacional, este é um livro de grande densidade lírica, escrito numa linguagem ardente, visionária e rigorosamente trabalhada. Aqui, o poema surge como lugar de ferida e de revelação, em que a sombra e o silêncio compõem uma imagética de rara força. Habitado por ecos de Camilo Pessanha, Dylan Thomas, Rilke, Sophia, Herberto Helder e muitos outros, A Beleza da Queda inscreve-se numa tradição em que a poesia continua a ser capaz de dizer o colapso sem renunciar ao fulgor. João Rasteiro escreve como quem sabe que, por vezes, é apenas no instante da fratura que a verdade se torna visível. Este é um livro sobre o que desaba. Mas é também um livro sobre o que, no próprio acto de cair, ainda arde."

Uma feroz voz que remói

                               “Teu golpe de asa é o meu açoite”

                                           Rainer Maria Rilke

 

– O que me mói ferozmente é esta troada de pássaros,

como corpo colérico no amanhã que já foi o tempo,

no amanhã em que te perdi.

 

– O que me mói ferozmente é este nome de silêncios,

como mendigo verso na perda de certo sopro,

na perda de certa rosa.

 

– O que me mói ferozmente é esta violência do coração,

como grito sufocado na derrota, batalha a batalha,

de quem fica partindo.

 

– O que me mói ferozmente é este açoite que em mim dói,

é este moer de dor, este doer de amor na boca da noite,

que já fez da boca seu fervor.

 

– O que me mói ferozmente é esta mão que a tua mão,

perdida, ainda busca, porque de teu moer é meu perder,

“e a ilusão de que o tocamos”.

 

– O que me mói ferozmente é só uma feroz voz que remói,

pois nela reside um amor avassalador, aqui e agora,

no fogo que te leva ou te traz.

A morte da Europa

Os museus estão vazios, as catedrais

caem em mil pedaços,

e o vinho, antes doce, agora amarga

a garganta dos homens e dos deuses,

e por fim, a gorja dos poetas;

o continente que já foi um sonho

dentro do sonho é só um corpo vivo

de escombros e espelhos

quebrados, e em nossos olhos baços

nada é capaz de atalhar a morte do sol.

 

A Europa já não grita, o horizonte secou

e o vento traz só silêncio,

e a poesia, cansada de cantar

um futuro que nunca chega, olha os céus

como quem pede permissão

para se ausentar em solidão imensa.

 

É uma dilação no olhar dos velhos poetas,

que, com mãos trémulas,

tentam ainda segurar a cinza que restou;

Europa, é a tua morte: nós te saudamos.

Amar-te simplesmente

Breviário breve:

ousei a fímbria do amor

quando te toquei.

 

Não era rosa,

nem cravo, nem julho, nem

abril – só o teu brilho.

 

Verdadeiramente, nunca

te alcancei, mas foste a flor,

a aurora e a palavra.

 

Os corpos ditosos

cruzam silêncios cortantes:

cair, ávido, em ti.

 

Aperto-te, ausente,

em mim: amar-te, simplesmente!

A beleza da queda · João Rasteiro · 2026
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