Uma feroz voz que remói

                               “Teu golpe de asa é o meu açoite”

                                           Rainer Maria Rilke

 

– O que me mói ferozmente é esta troada de pássaros,

como corpo colérico no amanhã que já foi o tempo,

no amanhã em que te perdi.

 

– O que me mói ferozmente é este nome de silêncios,

como mendigo verso na perda de certo sopro,

na perda de certa rosa.

 

– O que me mói ferozmente é esta violência do coração,

como grito sufocado na derrota, batalha a batalha,

de quem fica partindo.

 

– O que me mói ferozmente é este açoite que em mim dói,

é este moer de dor, este doer de amor na boca da noite,

que já fez da boca seu fervor.

 

– O que me mói ferozmente é esta mão que a tua mão,

perdida, ainda busca, porque de teu moer é meu perder,

“e a ilusão de que o tocamos”.

 

– O que me mói ferozmente é só uma feroz voz que remói,

pois nela reside um amor avassalador, aqui e agora,

no fogo que te leva ou te traz.

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