João Rasteiro

João Rasteiro

n. 1965 PT PT

João Rasteiro (Coimbra, 1965), escritor, poeta e ensaísta.

n. 1965-07-03, Coimbra

Perfil
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A morte da Europa

Os museus estão vazios, as catedrais

caem em mil pedaços,

e o vinho, antes doce, agora amarga

a garganta dos homens e dos deuses,

e por fim, a gorja dos poetas;

o continente que já foi um sonho

dentro do sonho é só um corpo vivo

de escombros e espelhos

quebrados, e em nossos olhos baços

nada é capaz de atalhar a morte do sol.

 

A Europa já não grita, o horizonte secou

e o vento traz só silêncio,

e a poesia, cansada de cantar

um futuro que nunca chega, olha os céus

como quem pede permissão

para se ausentar em solidão imensa.

 

É uma dilação no olhar dos velhos poetas,

que, com mãos trémulas,

tentam ainda segurar a cinza que restou;

Europa, é a tua morte: nós te saudamos.

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Biografia
JOÃO RASTEIRO: Ameal - Coimbra, 1965. Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela Faculdade de letras, Universidade de Coimbra. Sócio do Centro PEN Portugal (PEN Clube Português), tendo integrado a sua Direção de 2019 a 2025. Tem poemas publicados em diversas revistas e antologias em cerca de 20 países: Portugal, Brasil, Itália, França, Espanha, País Baixos, Finlândia, Hungria, Rússia, Chéquia, USA, México, Argentina, Peru, Chile, Honduras, Nicarágua, Colômbia e Índia, possuindo poemas traduzidos para o espanhol, catalão, italiano, inglês, francês, neerlandês, checo, finlandês, húngaro, russo, japonês, occitano, árabe e persa. PRÉMIOS: Entre diversos prémios, obteve o 1º Prémio no Concurso de Poesia "Cinco Povos Cinco Nações" - Congresso Internacional de Literaturas Africanas, 2004, Prémio Literário Manuel António Pina (2010), Prémio César Vallejo 2020 (categoria Excelência Literária), Prémio Literário Natália Correia (2023), Prémio ULYSSES (2024), Prémio Literário Alves Redol – contos (2025). Para além de inúmeras Menções Honrosas, foi finalista de diversos prémios, nomeadamente do prestigiado Prémio Portugal Telecom de Literatura – Poesia (Brasil, 2012). Em 2026 foi-lhe atribuída, pelo Município de Coimbra, a Medalha de Mérito Cultural – Grau Ouro, da Cidade de Coimbra. PUBLICAÇÕES: publicou 27 livros (Portugal, Brasil e Espanha), que vão de “A Respiração das Vértebras”, 2001; No Centro do Arco, 2003; Os Cílios Maternos, 2005; O Búzio de Istambul, 2008; Pedro e Inês ou As madrugadas esculpidas, 2009; Diacrítico, 2010; A Divina Pestilência, 2011; ELEGIAS, 2011; Tríptico da Súplica, 2011 (Brasil), Pequeña Retrospectiva de la Puesta en Escena (Espanha, bilingue), 2014; Salamanca o la Memoria del Minotauro (bilingue) 2014; Solstício de Dezembro (Ed. restrita de autor, numerada e assinada, com aguarelas originais do artista plástico Seixas Peixoto) 2014; acrónimo, 2015; Ruídos e Motins, 2016; Poemas en punto de hueso, 2017 (Espanha - bilingue); A Rose is a Rose is a Rose et Coetera (2º ed. 2018), 2017; Eu cantarei um dia da tristeza (e-manuscrito, 2017; Levedura, 2019; OFÍCIO Poesia: 2000 – 2020 (Porto Editora – Prefácio de Mário Cláudio), 2021; Incenso, 2022 (Brasil), As pedras que choram o Douro (Espanha), 2023; SARDOAL, 2023, Escoriação, 2024, A Rose is a Rose is a Rose et Coetera (Espanha), 2025; Tarântula, 2025; Anatomia de uma derrota, 2025 e A Beleza da Queda, 2026. Em 2023 foi publicada no Brasil a obra Como Arma Tenho A Palavra E O Peito Aberto [Entrevista-Depoimento do Poeta Álvaro Alves de Faria a João Rasteiro], Ibis Libris – Rio de Janeiro. Possui contos em várias antologias, tendo em 2020 publicado o livro “Governadores de Orvalho”, Húmus editora. Em 2026, a Bruma Publications (PBBI-Fresno State – Universidade do Estado da Califórnia) publicará, com tradução do Professor Diniz Borges, a obra SARDOAL, Prémio Literário Natália Correia 2023. Incluído em diversas antologias de poesia ou literatura portuguesa publicadas no estrangeiro, de que são exemplos: em 2008 integrou a antologia O Reverso do Olhar - exposição Internacional de Surrealismo Actual. Em 2009 integrou a antologia: Portuguesia: Minas entre os povos da mesma língua – antropologia de uma poética (livro-DVD), organizada pelo poeta brasileiro Wilmar Silva e que engloba poéticas de Portugal, Brasil, Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste, Goa, Macau e Galiza. Em 2009 integrou o livro de ensaios “O que é a poesia?” organizado pelo brasileiro Edson Cruz (Brasil - Confraria do Vento/Caliban). Em 2010 integrou a antologia "Poesia do Mundo VI", resultante do 6º Encontro Internacional de Poetas (Grupo de Estudos Anglo-Americanos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra). Em 2011 integrou o livro "Três Poetas Portugueses" (Brasil - Editora RG), organizado pelo poeta Álvaro Alves de Faria. Em 2012 integrou a antologia de poesia portuguesa contemporânea "Corté la naranja en dos", (México) com compilação e tradução de Fernando Reyes da Universidade Nacional Autónoma do México. Em 2017, integrou a antologia, “Voces de Portugal. Once poetas de hoy” (Espanha - Colección Series Mino, tradução e coordenação de Pedro Sánchez Sanz). Em 2018 integrou a antologia sobre a literatura portuguesa, em número especial organizada e editada pela LUVINA, revista literária da universidade de Guadalajara, México. Em 2019, a antologia 19 Poetas de Portugal, foi publicada em Espanha pela Lastura Ediciones. Em 2009 e 2018 organizou antologias dedicadas à poesia portuguesa, respectivamente: "Poesia Portuguesa Hoje" (Colômbia) e "Aquí, en Esta Babilonia" (Espanha). Tem participado em diversos festivais literários, em Portugal e no estrangeiro. Tem participado em diversos festivais literários (essencialmente de poesia), tanto em Portugal, como no estrangeiro: em 2012 foi um dos poetas convidados para o VII Festival Internacional de Poesia de Granada, Nicarágua. Em 2014, no âmbito dos XVII Encontros de Poetas Iberoamericanos (Salamanca), participou como poeta representante de Portugal e em 2016, conjuntamente com Paulo José Miranda, foi poeta convidado, representando Portugal, no Festival de poesia VOIX VIVES, de Méditerranée en Méditerranée, em Sète, Languedoc, França. TEATRO: em 2017, o grupo 'Os Controversos' (encenação e adaptação dramatúrgica de Ricardo Kalash) levou à cena a peça 'A rose is a rose', a partir do seu livro A rose is a rose is a rose et coetera, 2017. Tem participação diversa (letras), em vários CDs de Fado (Canção) de Coimbra. Em 2024 a cantautora zamorana, Lucía Gonzalo Ibanez musicou o poema "Hóspede de um barco crepúscular" (poema que integra o livro "As pedras que choram o Douro”, publicado em Espanha em 2023 pela Sabaria Ediciones). Em 2023 fez figuração no filme A Bela América, do realizador António Ferreira. É Técnico Superior na Divisão de Cultura do Município, trabalhando como Programador Cultural na Casa da Escrita (antiga residência do poeta João José Cochofel), desde a sua inauguração, em 2010.

Poemas

5

Ars Poetica


Afirmam que a poesia é a distância mais curta
entre dois seres, invisíveis,
mas tal voz idílica será um engano,
os poetas nunca largaram o fólio dos desertos,
nunca ousaram o incandescente indulto dos pomares
nem o seu oblíquo circuito de chamas,
e a secura tem os teus olhos a fazer de sol.
                           *
O amor é o silêncio e também a blasfêmia
e o evangelho:  vós, que sonhais,
escrevei matéria à altura
das vossas crenças, o passar do furor no trecho
que nunca subsistirá sob os olhos,
“o dom do luto” em sua exercitação muda,
pois as “coisas inúteis ficam” sempre para os poetas
onde a ilusão, semeada, em fala, andeja.
                           *
Acerco-me por instantes da língua
mas o canto é mudo, o fogo que te retoma
já só se reconhece na íntima deserção da mão,
o coágulo onde o instante se faz e desfaz em última prece.
                           *
Na susceptível ausência de deus no poema eu vivo,
na tua ausência no meu corpo eu desvivo,
e o verso é a solidão, o teu rosto mais frondoso,
a pura ars poetica: a chama que na dobradiça não arderá.

inédito
2 098

Em Finais de Março


Em finais de março o poema deteve-se
em seu obscuro relicário de joias raras.
Os deuses não apreciavam os céus
e o corpo agredia a terra como um pugilista
que agride o alento em que está ancorado.
                                *
Proclamava coisas prováveis, a inércia
do mundo onde éramos afago de nascente.
Uma jura, uma crença, uma alegria,
somente coisas mal-entendidas e irreais.
Há apenas alguns interlúdios curtos de ilusão.
                                *
O poema fixava na goiva uma chama ao centro
com a silhueta de Eros, uma silhueta una,
a fluvial sanguínea potência em propagação.
Amo a energia com que ilude o invisível,
desse exímio pânico de corpos nus no centro.
                                *
E, porém, na terrifica elegância dos estilhaços,
não esqueço os instantes, esqueço os dias,
não me lembro dos poemas, lembro-me de ti.

inédito
2 044

Autopsicografia II

“Mais alto ainda, sempre mais alto”, 
a cotovia soprou o seu mágico canto
no exposto e febril cortiço do poema.
                            *
A fingida tristeza retracta a autêntica
com tal mestria em sua língua de vozes
“a entreter a razão”, que a distinção
presente entre o fingido e o autêntico
é ilícita, a fingida tristeza que se apega
ao passadiço do poema é autêntica
e a autêntica é absolutamente fingida.
                            *
Mas em certas verdades obscuras
onde aferir a distinção “que se chama
coração”, qual das duas é a exactidão?
                            *
O tumulto é longínquo em toda a língua
e língua nenhuma, “e assim nas calhas
da roda gira” a tua triste ausência, a única
e inteira verdade, a minha triste solidão.

inédito
2 085

A face da percepção

 “to tell the truth the way words lie”
         Robert Duncan

Até que o musgo venha a nossos olhos
e nossos longínquos nomes oculte,
a réstia de alegria é cinza que subsiste.
                           *
Estou tão, tão furioso connosco!
Não nos julgo. Só sinto a nossa falta.
                           *
Esse fundo deserto onde mergulhámos,
"that is a place of first permission,
everlasting omen of what is".
                           *
Não me julgo. Só tenho a culpa assim.
Vou amar-te até ao fim dos meus dias.
                           *
Esta percepção é, em si própria, a derrota,
o poema que se reduz à devoção.
Não o julgo. Nem à sua audaz verdade.
2 078

O único estilo para a morte

                                    “colinas tão próximas como se guardassem
                                     os nossos próprios olhos e logo depois
                                     leva-as o vento para adjectivos longínquos”
                                     Herberto Helder

Uma nova manhã de Março, ainda que cedo
para ler-te, mas talvez já muito tarde para retornar
à cerejeira que me inebria os sonhos cegos.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te, ler-te ou não ler-te
não é decisão humana que se exija à fala ou verso,
à quase paixão “travada em carne da língua”.
                            *
E ainda que o gorjeio do mundo já seja ensurdecedor,
está tão próximo de mim que é nele que resfolgo,
há o momento, não o corpo, o dia e as suas margens.
                            *
É Março, a manhã propaga-se como um vulcão,
e o meu corpo, canhoto, jaz adiado como a primavera
na tua ausência, aguarda o espasmo da cerejeira.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te (ontem morreu-me o vizinho
do 3º andar), “não é o mesmo que meter a cabeça
num buraco abissínio”: em rigor, tudo está fora de mim.
                            *
As vozes erguem-se ferozes e indistintas, o céu chora
em dilúvio alagando a língua, o poema morre,
“morrer por uma rosa é que fia mais fino:” ergo-me
                            *
e cuspo-te, o único estilo para a morte vertiginosa e crua!
2 089

Livros

4

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