OFÍCIO Poesia: 2000-2020

OFÍCIO Poesia: 2000-2020

2021

A vasta obra poética de João Rasteiro encontra neste volume um esplendor límpido que a denuncia acima de qualquer discrição possível. Se por tanto tempo se teve como poeta na periferia, disperso por volumes de um sem-número de chancelas, constantemente esgotado e inacessível, é agora intenção criar nestas páginas uma afirmação estável e inequívoca da importância do seu imaginário na poesia recente portuguesa. São inúmeros seus belíssimos versos, onde o sujeito poético me soa a litúrgico, solene em sua condição mortal perfeitamente assumida. Comove-me o jeito que tem de impedir qualquer sobranceria. O seu tremendismo é todo no reconhecimento dos outros, e da natureza, desde logo pela ânsia de haver um Deus que se responsabilize no diálogo absoluto. Comove-me que busque as coisas comuns, que não são pequenas, como o amor ou a amizade, a memória dos que morreram, a glória última de ainda matar a sede, persistir, sobreviver. Abre o livro dizendo que "a secura tem os teus olhos a fazer de sol". É o que sinto na sua poesia. Por maior tormento, por maior perturbação ou linear tristeza, tenho os seus versos a fazer de sol. Esta é uma poesia dirigida à luz, que sabe da luz, encontra-a. Não nos apouca ou impede. Muito ao contrário, intensifica-nos, deita-nos em movimento. - Valter Hugo Mãe

A textura da terra

                             Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus,

                              ornados de ouro e prata em luz”

                                                      W. B. Yeats              

                                           

Se deus detivesse a textura guarnecida da terra

embelezada de homens e mulheres sob o manto do sol,

palavras acesas, turvos sobressaltos

do verbo na língua, do querer e do bem-querer,

prolongaria essa textura sob nossas falas

adornada na íntima e divina claridade do erro e do pecado.

                               

Mas, crédulo, possuo somente a poesia;

é ela que prolongo sob nossas falas.

Trilha-a lentamente, tu és a divina voz da minha poesia,

esta pura nascente de palavra incorpórea.

                               

“Se eu tivesse os tecidos bordados dos céus”, e deus

a textura guarnecida da terra, a poesia

serias tu, a bordadura do amor, e o centro do amor,

tudo o que há de solícito “de ouro e prata” no semblante da fé.

A UM VELHO CORPO


Esquece “a rosa. Onde ela estiver”
oculta o mundo já renunciou, só
da melancolia da ave viverás,
(os teus livros, os teus mortos,
os teus gatos: a frágil extremidade
da herança) o resto são os talhes
de bruma que se abrem ao musgo:
a língua desabitada como dádiva.
Despreza-a, pois ela ofusca-te
da boca do sol, extermina-a pois,
a rosa de Provins, o segredo está
na unívoca nudez, na metáfora
que te aleita o pecado que irrompe
da paixão das musas em rosáceas
pétalas esvoaçantes, ouve, esquece-te
dela, “de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança, prometes?”
.
in, Poemas en Punto de Hueso (2001-2017), Ianua, 2017

Ars Poetica


Afirmam que a poesia é a distância mais curta
entre dois seres, invisíveis,
mas tal voz idílica será um engano,
os poetas nunca largaram o fólio dos desertos,
nunca ousaram o incandescente indulto dos pomares
nem o seu oblíquo circuito de chamas,
e a secura tem os teus olhos a fazer de sol.
                           *
O amor é o silêncio e também a blasfêmia
e o evangelho:  vós, que sonhais,
escrevei matéria à altura
das vossas crenças, o passar do furor no trecho
que nunca subsistirá sob os olhos,
“o dom do luto” em sua exercitação muda,
pois as “coisas inúteis ficam” sempre para os poetas
onde a ilusão, semeada, em fala, andeja.
                           *
Acerco-me por instantes da língua
mas o canto é mudo, o fogo que te retoma
já só se reconhece na íntima deserção da mão,
o coágulo onde o instante se faz e desfaz em última prece.
                           *
Na susceptível ausência de deus no poema eu vivo,
na tua ausência no meu corpo eu desvivo,
e o verso é a solidão, o teu rosto mais frondoso,
a pura ars poetica: a chama que na dobradiça não arderá.

inédito

As distâncias deixam tombar os cabelos das mães

 

 

As distâncias deixam tombar os cabelos

das mães, despojadas formigas

cegas recolhem-nos metodicamente

como velhas raízes de memórias,

um corpo cortado, um corte surdo,

borboletas níveas, primaveras níveas

em que se desvanecem as flores da noite,

o silêncio é um corpo-a-corpo com a sorte

e o verbo um corpo-a-corpo com Deus.

                          *

Refugiaste-te numa doçura infinita,

nesse corpo frágil e imperfeito

que segue no lugar ausente,

aquele que do mundo repudiou a luz

da infância, da lembrança do riso,

agora és tu, inteira, a pura obscuridade,

a mãe da névoa, a névoa, o amor

(acesa na sombra há outra sombra!)

que se guardou sob os atalhos da alvura.

                          *

A luz procura ainda a luz

a absoluta luz de uma mãe,

o corpo fora da glória do tempo,

o dentro da nossa razão

o fora do teu centro,

a margem das tuas escamas de cinza,

o centro da minha pele de medo,

o rastro das ruínas

que será agora a tua única direcção,

e um amor consumido pela dor

aspira que te vás,

para que fiques apenas mãe, a rainha

com os cachos intactos

de seus antigos cabelos de oiro.

                          *

Há formigas que creem que os teus cabelos

as revestem como um relâmpago,

para se tornarem intransparentes, completas.

Autopsicografia II

“Mais alto ainda, sempre mais alto”, 
a cotovia soprou o seu mágico canto
no exposto e febril cortiço do poema.
                            *
A fingida tristeza retracta a autêntica
com tal mestria em sua língua de vozes
“a entreter a razão”, que a distinção
presente entre o fingido e o autêntico
é ilícita, a fingida tristeza que se apega
ao passadiço do poema é autêntica
e a autêntica é absolutamente fingida.
                            *
Mas em certas verdades obscuras
onde aferir a distinção “que se chama
coração”, qual das duas é a exactidão?
                            *
O tumulto é longínquo em toda a língua
e língua nenhuma, “e assim nas calhas
da roda gira” a tua triste ausência, a única
e inteira verdade, a minha triste solidão.

inédito

BRANCO & PRETO

O corpo é a infinita planície das cinzas onde as mães largam o coração e partem para outra casa, resignadas ao murchar da flor, sem a beleza antiga e o rosto sem o último clamor do tempo. Corpo inóspito que alastras incomensuravelmente, as tuas díspares texturas de areada voz e de rochosa memória da alegria são a vocação ténue dos teus tristes olhos. A estiagem da fonte buscando perdurar numa ausência sem tréguas nem pausas.
.
in, A Rose is a Rose is a Rose et Coetera, Edições Sem Nome, 2017 (2º ed. 2018)

Em Finais de Março


Em finais de março o poema deteve-se
em seu obscuro relicário de joias raras.
Os deuses não apreciavam os céus
e o corpo agredia a terra como um pugilista
que agride o alento em que está ancorado.
                                *
Proclamava coisas prováveis, a inércia
do mundo onde éramos afago de nascente.
Uma jura, uma crença, uma alegria,
somente coisas mal-entendidas e irreais.
Há apenas alguns interlúdios curtos de ilusão.
                                *
O poema fixava na goiva uma chama ao centro
com a silhueta de Eros, uma silhueta una,
a fluvial sanguínea potência em propagação.
Amo a energia com que ilude o invisível,
desse exímio pânico de corpos nus no centro.
                                *
E, porém, na terrifica elegância dos estilhaços,
não esqueço os instantes, esqueço os dias,
não me lembro dos poemas, lembro-me de ti.

inédito

NO PRINCÍPIO FOI O HOMEM

.I.
No princípio foi o homem (com um cão espetado numa estaca brilhando sob as áscuas da sua solidão para o resto dos seus raiados dias), e o homem criou um Deus, e o homem inflamou Deus na essência de rosas da sua perversão: a peregrinação sobre a argila e água impura para que não seja lembrado o seu mísero nome. No princípio sobreveio o homem, a chaga mais negra que a carne e também que a torpeza viva do crepúsculo: um esplêndido cântaro de purulência, uma hástea em fogo com a floração dos credos. No princípio era o homem, e a opulência do sopro.
.
in, acrónimo, Edições Sem Nome, 2015

O PASTO

Que este pasto seja uma noite sem lembrança,
não dissemos o teu nome, mas, compreende-nos.
*
Não julguem que havia algo errado no que ofertou
para comer-mos, mas são “certos os abismos”
da claridade do seu verbo, nem tudo se transforma
com uma ceia, nem tudo é alimento da sua voz.
*
“Juro que antes que a boca da aurora” adviesse
e o anfitrião refizesse a alquímica e sagrada
purificação do altivo desdém, todos, como judas,
saímos sem nos lavarmos, sem pagar a conta.
*
- Triturados pela extrema fascinação do pascigo.
.
in, A Ceia Infiel (inédito)

O único estilo para a morte

                                    “colinas tão próximas como se guardassem
                                     os nossos próprios olhos e logo depois
                                     leva-as o vento para adjectivos longínquos”
                                     Herberto Helder

Uma nova manhã de Março, ainda que cedo
para ler-te, mas talvez já muito tarde para retornar
à cerejeira que me inebria os sonhos cegos.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te, ler-te ou não ler-te
não é decisão humana que se exija à fala ou verso,
à quase paixão “travada em carne da língua”.
                            *
E ainda que o gorjeio do mundo já seja ensurdecedor,
está tão próximo de mim que é nele que resfolgo,
há o momento, não o corpo, o dia e as suas margens.
                            *
É Março, a manhã propaga-se como um vulcão,
e o meu corpo, canhoto, jaz adiado como a primavera
na tua ausência, aguarda o espasmo da cerejeira.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te (ontem morreu-me o vizinho
do 3º andar), “não é o mesmo que meter a cabeça
num buraco abissínio”: em rigor, tudo está fora de mim.
                            *
As vozes erguem-se ferozes e indistintas, o céu chora
em dilúvio alagando a língua, o poema morre,
“morrer por uma rosa é que fia mais fino:” ergo-me
                            *
e cuspo-te, o único estilo para a morte vertiginosa e crua!

Poema dos jardins ausentes

Hoje corri todos os jardins da terra

e estou “ao pé de ti de mãos vazias”, meu amor,

os jardins só respiram esse fulgor desnudado

a rutilar caligrafias mesmo no centro da pedra.

                               *

Amanhã voltarei a correr todos os jardins

ao ritmo quase imóvel de um segredo,

num íntimo murmúrio que preserve o alento

para mergulhá-lo numa boca de mulher.

                               *

Hei-de correr todos os jardins sagrados

que habitam subtis e espessos labirintos,

e encontrar os vocábulos das pétalas da rosa

que unem o interdito ao centro vivo das palavras.

                               *

E é como se as rosas nascessem dos dedos,

como uma raiz imitando os frutos, meu amor.

                               *

E é como se o poema irrompesse do coração,

como uma flor reproduzindo o pólen, meu amor.

Solstício de Dezembro


                        O mundo jamais é parecido consigo próprio
                        tão inesperada é a noite,
                        mesmo quando em sua rotação se repete,
                        efectiva e extingue,
                        no corpo e cinzas de uma criança,

                        não vos espanteis por isso senhores,
                        Dezembro é um solstício que nos sobrevive
                        e nada mais se anseia
                        do que abraçar todo o tempo do tempo
                        para seguir uma estrela viva,
                        um frágil e divino coração de criança
                        em homens aturdidos pelo afago da entrega,
                        guardai pois um Natal,
                        nada mais se reterá no cheiro do orvalho
                        que aconchegamos dentro de nós,

                        o seu leito evidencia a inquietude do fogo
                        e a poesia parece a puerícia do verbo:
                        ainda que nos céus
                        em seu nome o nome do mundo se cante,
                        o que é sagrado e profano,
                        o que é rei e pastor
                        e se planta e adolesce
                        e se percorre até à extrema boca do advento,
                        mundo de júbilos e prantos
                        que como o sol nas trevas se revive.

                        Uma criança nos aquieta o corpo,
                        a noite atravessa o mundo,
                        obscuros e formais viajantes,
                        se as quimeras se ofuscam sob os céus
                        a culpa é dos corações e não da luz das estrelas.

OFÍCIO Poesia: 2000-2020 · João Rasteiro · 2021
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