As distâncias deixam tombar os cabelos das mães

 

 

As distâncias deixam tombar os cabelos

das mães, despojadas formigas

cegas recolhem-nos metodicamente

como velhas raízes de memórias,

um corpo cortado, um corte surdo,

borboletas níveas, primaveras níveas

em que se desvanecem as flores da noite,

o silêncio é um corpo-a-corpo com a sorte

e o verbo um corpo-a-corpo com Deus.

                          *

Refugiaste-te numa doçura infinita,

nesse corpo frágil e imperfeito

que segue no lugar ausente,

aquele que do mundo repudiou a luz

da infância, da lembrança do riso,

agora és tu, inteira, a pura obscuridade,

a mãe da névoa, a névoa, o amor

(acesa na sombra há outra sombra!)

que se guardou sob os atalhos da alvura.

                          *

A luz procura ainda a luz

a absoluta luz de uma mãe,

o corpo fora da glória do tempo,

o dentro da nossa razão

o fora do teu centro,

a margem das tuas escamas de cinza,

o centro da minha pele de medo,

o rastro das ruínas

que será agora a tua única direcção,

e um amor consumido pela dor

aspira que te vás,

para que fiques apenas mãe, a rainha

com os cachos intactos

de seus antigos cabelos de oiro.

                          *

Há formigas que creem que os teus cabelos

as revestem como um relâmpago,

para se tornarem intransparentes, completas.

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