João Rasteiro

João Rasteiro

n. 1965 PT PT

n. 1965-07-03, Coimbra

Perfil
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A face da percepção

 “to tell the truth the way words lie”
         Robert Duncan

Até que o musgo venha a nossos olhos
e nossos longínquos nomes oculte,
a réstia de alegria é cinza que subsiste.
                           *
Estou tão, tão furioso connosco!
Não nos julgo. Só sinto a nossa falta.
                           *
Esse fundo deserto onde mergulhámos,
"that is a place of first permission,
everlasting omen of what is".
                           *
Não me julgo. Só tenho a culpa assim.
Vou amar-te até ao fim dos meus dias.
                           *
Esta percepção é, em si própria, a derrota,
o poema que se reduz à devoção.
Não o julgo. Nem à sua audaz verdade.
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Biografia
João Rasteiro (Coimbra, 1965), poeta e ensaísta. Licenciado em Estudos Portugueses e Lusófonos pela FLUC/U.C., publicou em diversas revistas e antologias em Portugal, Brasil, Itália, França, Espanha, Finlândia, Hungria, República Checa, Moçambique, México, Colômbia, Nicarágua e Chile, e possui poemas traduzidos para o castelhano, italiano, catalão, inglês, francês, checo, japonês, finlandês, húngaro e occitano. Obteve vários prémios, mormente a "Segnalazione di Merito" Premio Publio Virgilio Marone, Itália, 2003 e o Prémio Literário Manuel António Pina, 2010. Foi um dos 20 finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura (Poesia), 2012. Organizou e coordenou algumas antologias de poesia portuguesa contemporânea editadas no estrangeiro, de que são exemplo: "Poesia Portuguesa Hoje", Arquitrave, Colômbia, 2009 e "Aquí, en esta Babilonia", Amargord, Espanha, 2018. Em 2015 integrou a antologia de contos "O País Invisível", organizada e editada pelo CMC-Centro de Estudos Mário Cláudio. Tem participado em diversos festivais literários (essencialmente de poesia), tanto em Portugal, como no estrangeiro. Tem ainda diversa participação ao nível das letras, em vários CDs da canção de Coimbra (Fado de Coimbra). Integrando actualmente a Direcção do PEN Clube Português, integra ainda os Conselhos Editoriais das revistas DEVIR - Revista Ibero-americana de Cultura e Folhas - Letras & outros ofícios. Graça Capinha (FLUC/Universidade de Coimbra) afirma que, a poesia de João Rasteiro "é uma poesia do corpo, físico e essencialmente do corpo da linguagem, com influências que vão desde Herberto Helder a Gertrude Stein". Livros: A Respiração das Vértebras, 2001; No Centro do Arco, 2003; Os Cílios Maternos, 2005; O Búzio de Istambul, 2008; Pedro e Inês ou As Madrugadas Esculpidas, 2009; Diacrítico, 2010; A Divina Pestilência, 2011; Elegias, 2011; Tríptico da Súplica (Brasil), 2011; Pequeña Retrospectiva de la Puesta en Escena (bilingue) Espanha, 2014; Salamanca o la Memoria del Minotauro (bilingue), 2014; Solstício de Dezembro (Ed. restrita de autor), 2014; acrónimo, 2015; Ruídos e Motins, 2016; A boca solitária do orvalho, Temas Originais; 2016, A rose is a rose is a rose et coetera, 2017 (2º edição, 2018); Eu cantarei um dia da tristeza (e-manuscrito, 2017): Poemas em ponto de osso: 2001-2017 (bilingue) Espanha, 2017 e Levedura, 2019.

Poemas

12

A face da percepção

 “to tell the truth the way words lie”
         Robert Duncan

Até que o musgo venha a nossos olhos
e nossos longínquos nomes oculte,
a réstia de alegria é cinza que subsiste.
                           *
Estou tão, tão furioso connosco!
Não nos julgo. Só sinto a nossa falta.
                           *
Esse fundo deserto onde mergulhámos,
"that is a place of first permission,
everlasting omen of what is".
                           *
Não me julgo. Só tenho a culpa assim.
Vou amar-te até ao fim dos meus dias.
                           *
Esta percepção é, em si própria, a derrota,
o poema que se reduz à devoção.
Não o julgo. Nem à sua audaz verdade.
2 072

Em Finais de Março


Em finais de março o poema deteve-se
em seu obscuro relicário de joias raras.
Os deuses não apreciavam os céus
e o corpo agredia a terra como um pugilista
que agride o alento em que está ancorado.
                                *
Proclamava coisas prováveis, a inércia
do mundo onde éramos afago de nascente.
Uma jura, uma crença, uma alegria,
somente coisas mal-entendidas e irreais.
Há apenas alguns interlúdios curtos de ilusão.
                                *
O poema fixava na goiva uma chama ao centro
com a silhueta de Eros, uma silhueta una,
a fluvial sanguínea potência em propagação.
Amo a energia com que ilude o invisível,
desse exímio pânico de corpos nus no centro.
                                *
E, porém, na terrifica elegância dos estilhaços,
não esqueço os instantes, esqueço os dias,
não me lembro dos poemas, lembro-me de ti.

inédito
2 037

Ars Poetica


Afirmam que a poesia é a distância mais curta
entre dois seres, invisíveis,
mas tal voz idílica será um engano,
os poetas nunca largaram o fólio dos desertos,
nunca ousaram o incandescente indulto dos pomares
nem o seu oblíquo circuito de chamas,
e a secura tem os teus olhos a fazer de sol.
                           *
O amor é o silêncio e também a blasfêmia
e o evangelho:  vós, que sonhais,
escrevei matéria à altura
das vossas crenças, o passar do furor no trecho
que nunca subsistirá sob os olhos,
“o dom do luto” em sua exercitação muda,
pois as “coisas inúteis ficam” sempre para os poetas
onde a ilusão, semeada, em fala, andeja.
                           *
Acerco-me por instantes da língua
mas o canto é mudo, o fogo que te retoma
já só se reconhece na íntima deserção da mão,
o coágulo onde o instante se faz e desfaz em última prece.
                           *
Na susceptível ausência de deus no poema eu vivo,
na tua ausência no meu corpo eu desvivo,
e o verso é a solidão, o teu rosto mais frondoso,
a pura ars poetica: a chama que na dobradiça não arderá.

inédito
2 091

O único estilo para a morte

                                    “colinas tão próximas como se guardassem
                                     os nossos próprios olhos e logo depois
                                     leva-as o vento para adjectivos longínquos”
                                     Herberto Helder

Uma nova manhã de Março, ainda que cedo
para ler-te, mas talvez já muito tarde para retornar
à cerejeira que me inebria os sonhos cegos.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te, ler-te ou não ler-te
não é decisão humana que se exija à fala ou verso,
à quase paixão “travada em carne da língua”.
                            *
E ainda que o gorjeio do mundo já seja ensurdecedor,
está tão próximo de mim que é nele que resfolgo,
há o momento, não o corpo, o dia e as suas margens.
                            *
É Março, a manhã propaga-se como um vulcão,
e o meu corpo, canhoto, jaz adiado como a primavera
na tua ausência, aguarda o espasmo da cerejeira.
                            *
Ler-te, deixar de ler-te (ontem morreu-me o vizinho
do 3º andar), “não é o mesmo que meter a cabeça
num buraco abissínio”: em rigor, tudo está fora de mim.
                            *
As vozes erguem-se ferozes e indistintas, o céu chora
em dilúvio alagando a língua, o poema morre,
“morrer por uma rosa é que fia mais fino:” ergo-me
                            *
e cuspo-te, o único estilo para a morte vertiginosa e crua!
2 084

Autopsicografia II

“Mais alto ainda, sempre mais alto”, 
a cotovia soprou o seu mágico canto
no exposto e febril cortiço do poema.
                            *
A fingida tristeza retracta a autêntica
com tal mestria em sua língua de vozes
“a entreter a razão”, que a distinção
presente entre o fingido e o autêntico
é ilícita, a fingida tristeza que se apega
ao passadiço do poema é autêntica
e a autêntica é absolutamente fingida.
                            *
Mas em certas verdades obscuras
onde aferir a distinção “que se chama
coração”, qual das duas é a exactidão?
                            *
O tumulto é longínquo em toda a língua
e língua nenhuma, “e assim nas calhas
da roda gira” a tua triste ausência, a única
e inteira verdade, a minha triste solidão.

inédito
2 079

Solstício de Dezembro


                        O mundo jamais é parecido consigo próprio
                        tão inesperada é a noite,
                        mesmo quando em sua rotação se repete,
                        efectiva e extingue,
                        no corpo e cinzas de uma criança,

                        não vos espanteis por isso senhores,
                        Dezembro é um solstício que nos sobrevive
                        e nada mais se anseia
                        do que abraçar todo o tempo do tempo
                        para seguir uma estrela viva,
                        um frágil e divino coração de criança
                        em homens aturdidos pelo afago da entrega,
                        guardai pois um Natal,
                        nada mais se reterá no cheiro do orvalho
                        que aconchegamos dentro de nós,

                        o seu leito evidencia a inquietude do fogo
                        e a poesia parece a puerícia do verbo:
                        ainda que nos céus
                        em seu nome o nome do mundo se cante,
                        o que é sagrado e profano,
                        o que é rei e pastor
                        e se planta e adolesce
                        e se percorre até à extrema boca do advento,
                        mundo de júbilos e prantos
                        que como o sol nas trevas se revive.

                        Uma criança nos aquieta o corpo,
                        a noite atravessa o mundo,
                        obscuros e formais viajantes,
                        se as quimeras se ofuscam sob os céus
                        a culpa é dos corações e não da luz das estrelas.

2 098

A UM VELHO CORPO


Esquece “a rosa. Onde ela estiver”
oculta o mundo já renunciou, só
da melancolia da ave viverás,
(os teus livros, os teus mortos,
os teus gatos: a frágil extremidade
da herança) o resto são os talhes
de bruma que se abrem ao musgo:
a língua desabitada como dádiva.
Despreza-a, pois ela ofusca-te
da boca do sol, extermina-a pois,
a rosa de Provins, o segredo está
na unívoca nudez, na metáfora
que te aleita o pecado que irrompe
da paixão das musas em rosáceas
pétalas esvoaçantes, ouve, esquece-te
dela, “de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança, prometes?”
.
in, Poemas en Punto de Hueso (2001-2017), Ianua, 2017
2 178

NO PRINCÍPIO FOI O HOMEM

.I.
No princípio foi o homem (com um cão espetado numa estaca brilhando sob as áscuas da sua solidão para o resto dos seus raiados dias), e o homem criou um Deus, e o homem inflamou Deus na essência de rosas da sua perversão: a peregrinação sobre a argila e água impura para que não seja lembrado o seu mísero nome. No princípio sobreveio o homem, a chaga mais negra que a carne e também que a torpeza viva do crepúsculo: um esplêndido cântaro de purulência, uma hástea em fogo com a floração dos credos. No princípio era o homem, e a opulência do sopro.
.
in, acrónimo, Edições Sem Nome, 2015
2 199

BRANCO & PRETO

O corpo é a infinita planície das cinzas onde as mães largam o coração e partem para outra casa, resignadas ao murchar da flor, sem a beleza antiga e o rosto sem o último clamor do tempo. Corpo inóspito que alastras incomensuravelmente, as tuas díspares texturas de areada voz e de rochosa memória da alegria são a vocação ténue dos teus tristes olhos. A estiagem da fonte buscando perdurar numa ausência sem tréguas nem pausas.
.
in, A Rose is a Rose is a Rose et Coetera, Edições Sem Nome, 2017 (2º ed. 2018)
2 166

LIMPEZAS


Serenamente, como se detivesse todo o tempo
do mundo e toda a luz do astro-rei
Jorge Luís Borges lavou toda a biblioteca
mergulhando os livros em água de rosas brancas,
era o tempo do expurgo, do exílio da traça,
há de certeza maneiras bem piores
de nos despirmos da inutilidade dos dias
passados em improfícuas quimeras.
*
Ah, só o livro “Historia universal de la infâmia”
escapou ao genocídio das limpezas
nessa nebulosa aurora de 6 de Agosto de 1945
quando Buenos Aires ainda abria a noite
pois “os poetas, como os cegos, podem ver no escuro.”

in, Ruídos e Motins, Palimage, 2016
2 224

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