Cantico di queste creature di oggi

                                                    “Tu conheces a minha humilhação

                                                     e confusão e a minha ignomínia”

                                                             São Francisco de Assis

 

“Louvai e bendizei o meu” frágil verso, humilde o oferto!

                                      *

Exíguo, pouco-poderoso, bom homem de hoje,

sabes que a ti a iludida fama, as honrarias, o panegírico,

e quaisquer que sejam as aparentes graças,

a ti unicamente, exíguo, serão valorosas e observáveis,

e nunca à palavra divina serás digno de acercar-te.

                                      *

Infinito, Todo-Poderoso, eternamente o sol

teu foi a ele ofertado, a glória mais louvada entre nós;

e cada luminosidade ou bago de oiro 

de ti somente, louvores em chaga nele são ainda a graça

em nós, e nem hoje um verso é credor de convocar-vos.

                                      *

Louvado sejas, Verbo de luz, com as incontáveis criaturas;

especialmente este de hoje, que ousa o brilho

febril do cântico, o teu de Assis, cintilando sem termo,

e ele é aurora sublime, temerosa e vocálica,

e de ti, Infinito, Todo-Poderoso, ele em ti se testificou.

                                      *

E que não sejas jamais censurado, ó Criador,

pelo insano verso e os astros alucinados destes tristes dias

que na Terra se geraram obscuros, tenebrosos e hediondos.

                                      *

Louvado sejas também, meu irmão Assis, pela febre viva,

pela cabana de palha acalentando o mundo rasteiro,

pelos irmãos ratos sobre o teu canto de amor ao Senhor

e pela voz dos órfãos perdidos uivando no vento,

cujo sustento, na secura e na chama, é a poesia das criaturas.

                                      *

E que não sejas jamais censurado, ó Criador,

pelo insano espasmo destes dias e pela palavra blasfema

destes versos, cuja insana obsessão é crer sobreviver-Te.

                                      *

Infinito, Todo-Poderoso, amado sejas pelo fogo

jovial e vigoroso e pela água modesta e inesgotável da poesia,

que nos oferecem a espadana e o pranto da irmã vida,

infinito, todo-Poderoso, amado sejas, pois, nesta sombra viva,

neste frágil subúrbio de corpo que não cessa de titubear.

                                      *

Louvado sejas também pelos que, por teu verbo vivo

não sabem, como Assis, perdoar e se crucificam em ocos versos;

e abençoados os que não vacilam no horizonte de São Damião.

                                      *

Infinito, Todo-Poderoso, amado sejas, pela poesia

e nosso olvido, do qual peregrino ou criatura descrente fugirá;

e aqui, os que matam hoje em pétalas de ignomínia sideral,

e, amado sejas, infinito, todo-Poderoso, pelos que intuíram

que o amor, outra e outra vez, só lhes fará bem.

                                      *

Comemorai e glorificai o Senhor do Poverello e dai graças

e com infinita e cristalina humildade, em seu salmo, cuidai-vos,

exíguo, pouco-poderoso, bom homem de hoje.

                                      *                                    

Festejai e bendizei estes impacientes versos contra a descrença,

este cometa de luz, esta secreta e fervorosa crença,

criaturas, esse corpo de sol e espírito de silêncio e exaltação

e, hoje, bom homem, cantai as frestas mais inaudíveis do mundo

e, em nossa falta perdoada, em seu nocturno êxtase, aclamai-O.

                                      *

Celebrai e louvai. Apenas uma ínfima centelha de sol é bastante;

acreditai em vossa bússola e fazei para ele, em filigranas de prata,

versos de ouro, pois o Senhor é a rosa canina dos céus. Amai-O.

                                      *

Celebrai e louvai, tal é em nós o poder da sua metáfora. Saudai-O!

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