“Fica sequer, sombra das minhas mãos,

                                              Flexão casual de meus dedos incertos,

                                              Estranha sombra em movimentos vãos”

                                                                 Camilo Pessanha

 

 

E antes – um latejar de células perdidas

na vastidão sem nome, como se a noite fosse ainda

mais funda do que a própria noite.

 

E antes disso – o mundo encoberto por um espesso véu

que não se ergue, um silêncio espesso,

onde as coisas recusam o contorno.

 

E antes – a fuga lenta da tua língua, um êxodo sem passos,

sem mapa, apenas o abandono da fala.

 

E agora a tua saliva – já não rio, mas lodo, um rastro seco

no deserto do que não foi dito.

 

E agora, uma sombra estranha porfia no vazio dos seus gestos.

 

E agora, meu incerto verso recolhe-se à inutilidade do aceno.

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