Guarda sempre o faro do cão nos teus olhos.
Haverás de chegar – é o teu destino,
não o que te espera, mas o que respira contigo.

                                    *

Não apresses a viagem.
Deixa que o tempo te ensine o alvoroço da terra,
que as pedras te falem com o alento do musgo.

                                    *
Será melhor que a viagem dure muitos anos,
e que, já velho, ancores no teu rio,
carregado de ossos, memórias e perfumes –

tudo o que o caminho te concedeu em silêncio.

                                    *

Não esperes que o faro do cão te ofereça o odor

da rosa ou o cheiro da palavra. O faro

é chama sem promessa, é o dom da inquietação.

                                    *

Ele te oferecerá apenas a viagem, sublime e nobre

na sua plena ferocidade,
porque sem ela não terias partido, nem terias

aprendido a nomear o vento nos teus olhos.

                                    *

Mas nada mais te dará. Vai. E quando, tão longe,

olhares para trás – tão decidido, tão cansado –

perguntarás: que entendo eu do faro do cão?

                                    *
E talvez compreendas então que o faro

sempre foste tu, buscando-te no rumor da terra,

o faro do cão nos teus olhos.

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