“Ir assim, a bordo de um navio, sem destino”
“Floriram por engano as rosas bravas”, e suas pétalas
as águas de um rio levaram;
mas as tuas, em mim, se fizeram escravas, nos meus olhos
que em ti sempre amaram.
“No inverno, veio o vento desfolhá-las…” – palavras de sangue,
falas embebidas de puro veneno.
Há um submerso país mortiço em mim, só de olhá-lo em ti,
que, para além do verso rosa damasceno,
é angústia marítima que não saía de dentro deste corpo:
caravelas no cais, roseiras secas, caídas.
*
A tarde desce devagar, como um animal ferido que procura
abrigo na magnificente luz lilás.
Há um cansaço antigo na água imóvel, um espelho
onde o sonho não se reconhece.
Tudo vacila – a forma, o nome, o gesto suspenso daquilo
que quase foi palavra.
*
Lua minguante: unha fria riscando, com a resignação da perda,
o céu silábico da nossa vida.
As bauínias ardem em silêncio; as árvores de algodão velam
o horizonte, como mães sem rosto.
Não há vento – apenas um sopro mínimo que as inclina
para dentro de si mesmas.
*
E, nesse movimento breve, quase imperceptível, algo se despede.
Talvez não seja a tarde, talvez não seja o dia;
talvez seja a poesia, essa ave sem regresso, fechando as asas
na penumbra onde “pairo na luz, suspenso…”.
*
“Ir assim, a bordo de um navio, sem destino”:
nunca ninguém terá nome ou verbo, apenas as “arcadas,
despedaçadas, do violoncelo”, fatigado de poesia –
canto mortiço em mim, só de senti-lo em ti: branco e vermelho.
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