No retrovisor
Olho para trás.
Perda da virgindade.
Dirigir o carro do meu pai pela primeira vez e enfiá-lo num muro a 150 km/h.
O meu primeiro salário, que eu gastei numa jaqueta jeans que eu usei o quê?... Umas cinco vezes? Nem isso.
Rock in Rio 1985. Queen, Rod Stewart, AC/DC.
Eu e meus quatro amigos inseparáveis - Júlio, Ana, Robert e Gisele - numa saveiro apertada, radiador fodido, rumo a Buenos Aires para ver um dos últimos shows do The Police.
Eu, detida numa delegacia com um galho de maconha no bolso e liberada pelo delegado que tinha rabo preso com o advogado que o meu pai arranjou para me soltar. Deve ter estuprado alguém no colegial e entrou para a polícia pra se proteger. Provavelmente a mina que não dava mole pra ele - uma Joana da vida - e acabou virando atriz pornô por falta de opções profissionais.
Onde foi parar tudo isso, toda essa adrenalina?
Em que gaveta foi que eu deixei?
Parece que foi ontem. Parece que fazem séculos. Parece que eu tenho 100 anos. Quanto tempo? Perdi as contas. Faz tempo que eu perdi as contas.
Eu tô no túnel do tempo, cheio de ácido nos cornos e nem percebi...
E o que sobra? O que sobra é isso que está aí? Sério? Isso que não tem nome? Se bem que mesmo que tivesse eu ia me confundir todo na hora de pronunciar. Então é melhor nem pensar nisso...
Pra quê?
Eu não consigo esquecer o que passou.
E não consigo parar de pensar que não quero o que está valendo agora.
As regras mudaram e nada me interessa.
Eu quero o ontem de volta.
Porque está dentro de mim, tatuado, gravado a ferro e fogo. Não dá pra tirar. Não dá pra dizer "esquece! esquece agora".
Ainda tá aqui comigo
e por isso eu continuo aqui.
Olhando pra trás.
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