O despertar do poeta.
Ó poesia que me consola!
Tu és meu precioso remédio.
Para a doença, que como febre estiola.
A doença sem cura, a doença do meu tédio.
Ó poesia que me transforma!
Tu és minha máscara, minha solução.
A solução para o meu dilema.
Ver as coisas como elas são.
Ó poesia que me desperta!
Tu és mentira em que acredito.
De mim mesmo me liberta.
Me faz fingir o que não sinto.
Ó poesia que me diverte!
Tu revives a minha inteligência.
Pois sou chato, preguiçoso e inerte.
Mas contra os versos, luto com persistência.
Ó poesia, encruzilhada em que passo.
E indeciso a esperar me ponho.
Numa estrada há a poesia que faço
E na outra a poesia que sonho.
Analogia do prisioneiro
Escrevo como faz o condenado.
A desfrutar de sua última refeição.
Foge, ao perdurar da satisfação.
Do futuro onde estará enforcado.
Façamos uma conclusão clara.
É inútil temer o inevitável.
Enquanto pensa na maldição incurável.
Esquece a benção que ainda o ampara.
É isto que faz o prisioneiro.
Esquece todas as suas certezas.
Esquece também as tristezas.
E valoriza o prazer derradeiro.
Uma simples necessidade.
O agrada mais que mil mulheres.
Quando se tornam para ti poderes.
Aquilo que fazia sem dificuldade.
E nesta analogia pífia eu disperso.
Meus pensamentos a ferver.
E neste simples ato de escrever.
Fujo do meu destino perverso.
A monotonia, fujo dela em cada verso.
Faz tempo que não escrevo
Passam os dias quentes e chuvosos.
Passam as noites agrestes.
Passam estes períodos tediosos.
Apenas para mudar minhas vestes.
Passam os dias da semana.
Passam os ventos a bater no prédio.
Passa tudo, mas da mente não emana.
Nada que que me livre do meu tédio.
Quanto mais fácil, menos me interesso.
Quanto mais difícil, tenho preguiça.
Quanto menos faço, mais eu peço.
Pela bestialidade que me atiça.
E ao fugir dos desejos carnais.
Sento a mesa e me curvo.
Minha memória, me salva uma vez mais.
Lembro-me de algo, e me faço ativo.
E indago a encarar meu acervo.
- É. Faz tempo que não escrevo.
O escuro
Eis a cegueira que me inspira o canto!
Preenche os brancos da minha mente.
A negritude que motiva o pranto.
De fato,tudo o que detalhadamente vi.
Não imaginei, logo não escrevi.
Fato este que me faz dolente.
Se com o devido prazer imaginasse.
Tudo o que com meus olhos visse.
Talvez não visse as coisas como coisas.
Talvez, veria algum sentido na dor.
E nas ásperas urtigas veria rosas.
Brotando por onde eu for .
Não falo de sentimentalismo barato.
É a verdade pura, é um fato.
O mais íntimo prazer, o inconcebível.
Reside nas mais absurda fantasia.
Descontente com que lhe é impossível.
Aos que vivem no seu mundo espia.
Sonho belo, sonho mau, sonho puro.
Seja qual for, seu pai é o escuro.
O mesmo breu amedronta as crianças.
Cria em sua cabeça um mundo.
Que realiza desejos e revive lembranças.
Mas tu despertas e se desfaz de tudo.
É na luz que comemos e andamos.
Trabalhamos, odiamos e amamos.
Tudo humano, tudo corriqueiro.
Tudo limitado, nada por inteiro.
É na luz que se faz o imprescindível.
Mas é no escuro que se toca o inatingível.
A viagem
Avança o carro, pela pista.
E para mim que estou sentado.
Aproveitando a inconstante vista.
Ela se move enquanto estou parado.
Mas não viajo pelo mundo que estou.
Mas em um tão grande quanto.
Que vai para todo lugar que vou.
Mas só se expressa neste canto.
Nele sou construtor e construído.
Decido onde estou, mas fico perdido.
Pois até o invisível ou impossível.
Tanto é possível quanto é transponível.
Se fora estou parado, observando.
Dentro sou livre, e estou voando.
Se fora me faltam dons.
Dentro só escrevo poemas bons.
Se resume em quatro simples versos.
A primeira viagem descrita.
Mas precisaria de uma poesia infinita.
Para descrever os incontáveis universos.
Que surgem a partir da minha mente.
Livres, diferentes, dispersos.
Confusos, fantásticos e controversos.
Dentro de mim, viajo por eles livremente.
Sou um universo que faz versos.